Elas decidem

Estamos em fins dos anos 70, quase entrando na década de 1980.

É a sala da moviola, da produtora Movie & Arte, do Paulo Dantas.

Já contei, mas repito pra quem ainda não leu nos Causos anteriores: moviola era uma mesa imensa, com pratos nos quais o filme em copião (imagens ainda em rascunho) era montado, quadro a quadro da imagem pacientemente, na unha. Um trabalho artístico artesanal.

Já é noite e somos umas 6 pessoas, incluindo o pessoal da produtora, o diretor do filme, o montador (hoje se chama editor), o Presidente e o VP de Marketing do Cliente, empresa líder em máquinas de costura. E eu.

O Presidente do Cliente gostou do filme, mas teve várias dúvidas aqui e ali, uma cena ou outra. E no todo também. Angústias nascidas de um briefing pouco claro e direcionador.

Será que as mulheres irão se identificar? Será que estamos passando o prazer da costura e o valor funcional da minha máquina (seus atributos e recursos técnicos)? Será que, no todo, o filme vai agregar valor emocional à minha marca, como pioneira nos lares brasileiros?

Temos uma longa discussão no puro achismo, acho que sim, acho que não, acho que talvez, acho que depende da intensidade de mídia, acho qualquer coisa.

Até que o Presidente do Cliente tem uma grande ideia: “Isso é assunto pra mulher! E minha mulher está lá embaixo na recepção, porque sairemos pra casa de uns amigos depois de terminar aqui. Vou chamá-la, pra dizer o que ela acha do filme.”

E chamou. A mulher disse um monte de asneiras, não falou coisa com coisa e, pior, comentou coisas fora de questão, que nem estavam sendo discutidas, embolou o meio campo, todo mundo ficou ainda mais confuso.

Aí eu também tive uma ideia: “Já que isso é assunto pra mulher, vou chamar a minha, que também está lá embaixo na recepção, porque depois sairemos pra jantar.” Pura verdade.

E chamei a Teresa, minha então mulher que, entre outras vantagens, era publicitária, tinha sido redatora e na época era produtora de filmes na Nova Films. Uma profissional do ramo. Numa troca de olhares comigo, a Teresa entendeu tudo.

Deixamos as duas sozinhas diante da moviola, com o diretor e o montador.
Nós, homens, descemos todos pra beber um uísque em outra sala. Em meia hora o filme estava aprovado.

Por elas, que se entenderam sobre costura e filmagem. Com a nossa concordância obediente.

A rotina em Cannes: cassino

Como já disse antes, ir ao Festival de Cannes era outra coisa pra mim, depois muitas participações minhas.

Encontrar amigos antigos, fazer uma turnê etílico-gastronômica nos arredores de Cannes, subindo pra Campagne ou ir até a Itália ali do lado, jogar vôlei na praia, em times mistos com garotas de top-less. E ir ao cassino da cidade uma noite ou outra.

O Festival em si, pra mim se resumia aos últimos dias, palestras realmente sérias e importantes, escutar grandes nomes da propaganda mundial, assistir aos os short-lists, poucos contatos, com profissionais que valiam a pena de fato.

Em fins dos anos 80, numa dessas noites no cassino, perdi mais uma vez os 500 dólares que sempre levava. É que eu sou um cara impulsivo-compulsivo em tudo em que me jogo. E me jogo de cabeça.

No caso de cassinos e jogatinas, se depender da minha insanidade, penhoro o relógio, o passaporte, as calças, a alma, só pra continuar apostando. Por isso, sempre levava apenas 500 dólares pra limitar minha tentação.

Naquela noite, depois de ficar mais pobre, comecei a perambular pelo cassino, fazendo o tempo e o uísque passarem até eu voltar pro Hotel Carlton.

Passando por uma das mesas de jogo, quem eu vejo? O sr. Adolpho Bloch, o todo poderoso dono do império Manchete, revista, tv, rádio. Coincidência: eu havia tido uma reunião com ele, Jaquito e equipe comercial, no Rio, semanas atrás, com o Altino Barros, o Jens Olesen, nossa diretoria de Mídia, pra fechar um pacote com a McCann-Erickson, negociações de alto nível e de alto valor.

O sr. Adolpho estava jogando, fiquei quietinho, de pé atrás dele.

Em uma rodada, ele faturou uma porrada de fichas, encheu o bolso. Eu bati nos ombros dele e cumprimentei: “Muito bem, sr. Adolpho, belo jogo!”

Sem se virar pra saber quem havia dito aquilo, o sr. Adolpho simplesmente respondeu:
“Cai fora. Brasileiro no exterior ou vem me pedir grana ou dá azar. O que dá no mesmo.” E continuou jogando.

Enfiei as mãos nos bolsos e saí de fininho, sem graça. Havia muitos outros brasileiros naquele cassino. Mas deu pra tomar um último uísque e, de longe, ver que o sr. Adolpho não ganhou as duas rodadas seguintes.

Ele tinha razão no seu comentário.

Fui acordado por um crioulo vestindo uma cueca samba-canção

Fins dos anos 70, começo dos anos 80, por aí.

Como eu fazia várias vezes, num domingo à noite fui pro Aeroporto de Congonhas, ala dos voos internacionais.

Sim, naquela época, a gente ia de São Paulo até o Rio, pra só depois fazer uma conexão no Galeão pra um voo pro Exterior. Eu estava indo pra Nova Iorque, pra variar.

Voar Varig era tudo de bom na vida, principalmente na Primeira Classe. Poltronas excelentes, quase camas. Serviço de bordo mil estrelas, que a gente admirava também lá fora, vendo o céu da noite pelas janelinhas dos aviões Douglas DC 10-30, tipo widebody, um luxo de pioneirismo da Varig em tecnologia, conforto e mordomias.

Caviar, salmão, trufas, cardápio refinado em opções e sofisticação, garrafas congeladas de vodca Stolichnaya encrustadas em blocos de gelo, tudo o que havia de melhor no mundo em qualquer tipo de bebida. À vontade, sem restrições.

A única coisa ruim era a presença de autoridades, senadores, deputados, magistrados, que viajavam de graça, como cortesia da Varig. Havia também muito funcionário da própria Varig, viajando também na base da amizade, do apadrinhamento corporativo.

Eu passei a não me incomodar com isso. Simplesmente tomava minhas vodcas, também meu whiskey, me empapuçava de caviar e salmão. Virava pro lado e acordava em Nova Iorque.

Fui tomar um banho no Middletown Hotel, praticamente minha segunda casa, fazendo valer uma diária que eu havia inventado e que o Hotel havia aceitado: “2 hours and 1 shower”. Era o tempo pra eu me refazer da viagem e ir pra McCann-NY, a poucas quadras dali, pagando menos que uma diária normal.

Trabalhei a segunda-feira inteira em reuniões intermináveis e corri pro Aeroporto FJK, começando minha volta pra São Paulo no mesmo dia em que havia chegado a NY, com uma escala do DC 10-30 em Miami pra pegar passageiros lá.

Cumpri meu ritual das vodcas, do whiskey, do caviar e salmão, virei pro lado e dormi.

Era pouco mais de umas 5 horas da matina, já estávamos sobrevoando o Rio de Janeiro e sou acordado por um crioulo semi-nu, vestindo apenas uma cueca samba-canção branca com bolinhas vermelhas.

O cara cantava, braços abertos, dançando, celebrando a chegada à Cidade Maravilhosa. Ele caminhava pelos corredores da Primeira Classe, acordando todo mundo: “I feel good, I got you, I feel good… I feel nice, sugar and spice…”

Eu conhecia aquele cara e reconhecia aquela música.

Porra, era o próprio James Brown, que havia embarcado em Miami enquanto eu dormia!

Completamente bêbado, completamente chapado e completamente feliz, James Brown celebrava sua chegada ao Rio de Janeiro pra uma turnê brasileira.

Só me restou relaxar e curtir o show único, exclusivo, sincero e atípico. Pedi uma vodca com caviar para o café da manhã. Fazia o maior sentido.

O jogo que foi uma final. Pelo menos pra mim

Fim dos anos 80, talvez?

O Romão era e talvez ainda seja uma figura impagável. Dono de uma rede de lojas populares de calçados, a então Romão Magazine. Acho que hoje se chama Romão Calçados ou Romão Esportes, se é que ainda existe lá na Zona Leste.

Romão era apaixonado por futebol, corinthiano roxo. Tinha um sítio, uma pequena fazenda, em Atibaia, perto de São Paulo. A maior atração do sítio era um campo de futebol, campo de futebol mesmo, medidas oficiais, arquibancada, vestiários, tudo.

Duas vezes por mês pelo menos o Romão organizava um jogo lá. Era um jogo de verdade, com juiz e bandeirinhas aspirantes ou aposentados da Federação Paulista de Futebol, contratados pelo Romão. Gravação do jogo pela equipe esportiva da TV Gazeta, com direito a narrador, repórter de campo, comentarista, replays em câmera lenta.

Romão tinha seu time, o time da casa, o “Futebol Society”. Também convocava dois times, com um critério corporativo que interessava aos seus negócios do varejo de calçados. Providenciava os uniformes para cada time. Por exemplo, jogos do tipo Advogados da OAB versus Médicos do Einstein e Sírio Libanês, atacadistas versus varejistas do setor de calçados, Contabilistas versus Auditores, Cabeleireiros versus Motoristas de Caminhão. Esses caras eram sempre reforçados pelo time-base, o time do Romão, o “Futebol Society”.

Uma tarde, o Ângelo Franzão, VP diretor de mídia da McCann, me convidou pra um desses jogos no Estádio do Romão. Puta esquema de mordomia, ônibus pra levar e trazer de volta, churrasco by Marcos Bassi ao fim do jogo, tudo primeira linha. Um dia livre, de pura diversão e lazer pra nós.

E um jogo fácil, praticamente ganho: nós, Publicitários, versus Artistas + Futebol Society.

Artistas? Logo imaginei uns intelectuais boêmios, escritores, autores, editores, teóricos e acadêmicos, músicos e cantores da noite paulistana, poetas mais chegados a um sarau e sessões de autógrafos, noitadas em tertúlias eruditas do que num jogo de bola.

E lá fomos nós dias depois.

Primeiro encontro com a realidade já no ônibus: nossos adversários eram artistas, sim, mas Artistas de Circo, de Teatro, Televisão. Malabaristas, contorcionistas, ginastas, trapezistas, o Homem Montanha, a Mulher Barbada. Todos jovens e com um excelente preparo atlético e habilidades físicas muito maiores que as nossas. Fazer o quê?

O time do Romão, recheado com esses artistas, era mais entrosado, tinha reforços, era mais competitivo e com mais chances de vencer. Apesar de roliço e lento, o Romão jogava bem, tinha habilidade de centroavante, sempre adiantado, e faro de goleador.

Em 20 minutos de jogo, nós, os Publicitários, já perdíamos de 2 x 0. Com dois gols do Romão, um deles depois de dominar a bola escancaradamente com a mão. Mas o bandeirinha claro que fez que não viu, afinal haveria um churrasco logo mais e outros jogos no futuro.

Logo percebemos que os barrigudinhos fora de forma éramos nós, os Publicitários, criados em escritórios fechados, reuniões intermináveis, viagens, viradas de noites e fins de semana regados a álcool e alimentados por pizzas frias de última hora.

Enquanto isso, o Homem Bala do circo arrematava mal um chute e perdia o gol no ataque.
Iniciávamos nosso mortal contra-ataque, mas lá estava, em frações de segundo, o mesmo Homem Bala na zaga, defendendo nossa pobre ofensiva.

Pensei em chamar gente que jogava muito, pra reforçar nosso time e evitar um desastre maior. O Jailson Almeida, também publicitário. O João Crisóstomo, então professor de vôlei, mas um craque de bola. Um crioulinho que vinha fazendo sucesso, um tal de Pelé, que havia feito muitas propagandas pra mim. Mas não dava tempo, seria tarde demais.

Eu jogava nas pontas, corria como um louco por causa das minhas pernas biônicas, mas chutava fraquinho também por deficiência das pernas. Eu jogava muito mal.

Aí surgiu um escanteio na esquerda, a favor do nosso time. Imediatamente peguei a bola pra bater, chamando pra mim a responsabilidade do cruzamento. Eu tinha que fazer algo naquele jogo, afinal ele estava sendo transmitido pela TV Gazeta.

A bandeirinha de escanteio, na convergência da linha de fundo com a linha a linha lateral, tinha um recuo de uns 4 metros fora do campo e depois era tudo um barranco só lá embaixo.

Dei uns passos pra trás de modo a ganhar distância pra fazer o cruzamento forte. Recuei demais e caí no barranco fora do campo, fora do ângulo de alcance da câmera, fora da minha vaidade, fora da minha presunção. E fora da possibilidade de bater o escanteio.

Talvez eu ainda tenha a fita com a gravação do jogo todo, inclusive essa minha cobrança ridícula e humilhante de escanteio. Tá na gravação mais ou menos assim a descrição do lance patético: “Atenção, lá vai Percival, prepara-se para bater o corner que poderá empatar o jogo! Percival recua, ganha distância, dá mais uns passos pra trás… recua mais… recua… (silêncio) …Cadê o Percival?”

Eu simplesmente caí barranco abaixo, sumi de cena, sumi do jogo, sumi do mapa.

Outro jogador do meu time foi lá, me resgatou do fundo do barranco e bateu o escanteio.
A queda no barranco machucou a minha alma e autoestima, mais do que meu corpo.

Mesmo tão perna de pau, antes eu já havia dado um passe na medida pra um companheiro, cujo nome não me lembro, marcar nosso gol: 2 x 1.

Foi o placar final e o último jogo da minha vida. Com um belo churrasco depois.

Guiado por mim, dirigido por Deus

Tive uma fissura no tornozelo direito num jogo de vôlei do Torneio da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda). Aquele spray analgésico mágico e uma botinha de esparadrapo me mantiveram em quadra até o fim do jogo, que vencemos.

Tirando proveito da minha estatura mental (porque a estatura física não passa de privilegiados 1,70 metros) e senso de liderança, eu era o levantador, articulador, estrategista do vitorioso time da McCann. Isso foi em 1986.

Fiquei uma semana de molho, engessado, imobilizado, trabalhando em casa. Depois a McCann me contratou um motorista temporário, até que eu pudesse voltar a dirigir.

Toninho Valadão, esse é o nome dele. Gente boa, bom motorista, jovem ainda, mas já pai de dois moleques. Desempregado, agarrou-se ao emprego temporário, sempre com muita paciência me tendo no banco ao lado como copiloto.

“Acelera, Toninho, você perdeu a chance de passar o sinal! Passa pra outra faixa, a da esquerda,Toninho, não tá vendo que esta aqui anda menos? Você não deu seta pra mudar de faixa… Mantenha mais distância do carro da frente, Toninho!”

Sempre gostei de dirigir, sempre dirigi bem e com segurança, principalmente depois de cursos de pilotagem profissional, que fiz com dois craques, Ciro Caires e Expedito Marazzi. Eles eram pilotos de prova da GM e da Goodyear, me ensinaram tudo pra eu trabalhar melhor nos projetos pra esses clientes.

Eu tinha direito, pela McCann, a motorista particular, mas sempre recusei.

Sexta-feira chuvosa, fim de dia, tipo 19 horas, Avenida Brasil congestionada, Toninho ao volante e eu enchendo o saco dele com minhas interferências de pilotagem. Depois de meses trabalhando comigo, aquele seria o último dia do emprego temporário dele.

“Você tem direito a motorista pela agência, não tem?”, de repente o Toninho me perguntou assim do nada. “Tenho, mas não quero”, respondi. “Não quero, não preciso, não gosto de alguém dirigindo ao meu lado. Além do quê, é um gasto inútil pra agência, um desperdício.”

Toninho: “Dá uma olhada nesse ônibus aí à direita”. Trânsito parado, um ônibus lotado de gente se espremendo pra voltar pra casa, debaixo da chuva, janelas embaçadas.

“Então, é nesse ônibus que eu estarei, na segunda-feira, voltando assim pra casa, depois de ter passado o dia procurando emprego pra sustentar minha família, dar estudo pros meus filhos. E você estará no bem bom aqui deste carrão – podendo me ter como seu motorista, mas você não quer.”

Gulp! Me caiu uma ficha gigantesca, que me silenciou até chegarmos na minha casa. E olha que eu morava e moro longe, na Granja Vianna. Foi um longo e silencioso caminho.

Na segunda-feira cedo, chamei o RH e mandei contratar o Toninho como meu motorista: emprego permanente e estável, salário normal de mercado, CLT, carteira assinada, todos os direitos trabalhistas garantidos.

E seguimos assim durante muitos e muitos anos: eu dirigindo o carro e o Toninho ao lado, no banco do passageiro, aproveitando a vista.

Há poucos meses reencontrei o Toninho, agora como motorista da diretoria de um grande ex-cliente meu. Ele me contou que o filho mais velho, Leonardo, há um bom tempo vive na Alemanha onde é… diretor de arte numa grande agência de lá. E que o caçula, Vinicius, também é diretor de arte, mas ainda trabalha aqui no Brasil.

Me senti de alma lavada.

Receita com Creme de Leite Nestlé. E cachaça

Em meados dos anos 90 o então Diretorzão-Mor da área de Lácteos da Nestlé reclamou que a McCann-Erickson deveria ter mulheres no Atendimento e na Criação. Faltava aquele feeling, sensibilidade, aquele toque feminino culinário nos trabalhos, nas ideias.

Argumentei que tínhamos uma menina no Atendimento, a Fabi, além da Judy e da Gabi na equipe do Milton Cebola Mastrocessário, diretor de criação. Aliás, só o nome dele já era culinário em si: Cebola.

Argumentei também que, naquela época, os grandes chefs de cozinha eram homens, e algumas poucas mulheres. Não colou.

Só me restou inventar, no maior improviso, uma receita na hora, justo eu, o chefe da turma toda e muito envolvido, sempre, com a Nestlé e suas marcas.

Aqui vai a receita, abaixo. O cliente gostou do que ouviu, pediu pra eu mandar pra ele. Corri pra agência e escrevi a receita, antes que eu a esquecesse. Só acrescentei a cachaça.

A mulher dele preparou a receita em casa e foi um sucesso. Depois, ela foi publicada num livro internacional, com receitas de gente famosa, publicado por Márcio Moreira e a Dorinha, sua mulher.

Tente fazer em casa, vai dar certo.

Pré-Produção
1. 1 peça grande de filé mignon (cirurgicamente limpo, cortada em bifes altos, de mais ou menos uns 4 cm de altura)
2. 1 dose de cachaça mineira, da boa
3. 4 ou 5 cebolas de médias pra grandes
4. 1 maço de cheiro verde e salsinha
5. 1 dose da mesma cachaça
6. 500 gr de manteiga sem sal
7. 1 ou 2 latas de Creme de Leite Nestlé
8. 4 doses da mesma cachaça
9. sal, pimenta em grão, molho inglês, alcaparras a gosto
10. 1 dose da mesma cachaça
11. 1 panela ou frigideira de ferro, ferro mesmo, dessas do Interior
12. colher e garfo de pau, grandes
13. 1 forma grande de pirex, untada com manteiga e um fundinho de
Creme de Leite Nestlé
14. 1 dose da mesma cachaça
Produção
15. Esquente bem a panela de ferro, mas é pra ficar bem quente
mesmo, uns 10 minutos no fogo alto (ela tem que quase
encandecer de tão quente)
16. Derreta uma colher de sopa rasa da manteiga, não deixando
queimar, um ponto antes de escurecer
17. Tome um gole de cachaça
18. Refogue um punhado da cebola, cheiro verde, salsinha, grãos da
pimenta calabresa; acrescente molho inglês depois
19. Coloque 3 ou 4 bifes, de modo que eles não se amontoem, que haja
espaço entre eles; e que todos fiquem em contato chapado contra
a superfície quente do ferro da panela ou frigideira
20. NÃO MEXA NOS BIFES! Revirar e esfregar bife na frigideira é coisa
de mãe fritando coxão duro; deixe os bifes irem sangrando por si
só, espontaneamente
21. Tome outro gole de cachaça
22. Coloque sal a gosto nos bifes, a esta altura já suculentos; só então
vire os bifes, deixando pra cima o lado já tostado; NÃO MEXA,
DEIXE-OS SANGRAR EM PAZ!
23. Quando o sumo da carne tiver aflorado de vez, ponha umas pitadas
de sal e dê uma flambada com uma dose cachaça
24. Quando estiverem antes do ponto, coloque os bifes na forma de pirex já untada com manteiga e Creme de Leite Nestlé; deixe-os descansar
25. Descanse você também, tomando mais um gole de cachaça
26. Acrescente mais um pouco de manteiga na panela, que continuou
lá no fogo; terá se formado um caldo espesso, quase uma crosta
escura; deixe essa nova porção de manteiga se enturmar com o
caldo prévio e dourar
27. Refogue mais um pouco de cebola, cheiro verde, salsinha e grãos de pimenta calabresa, sempre acrescentando molho inglês no fim
28. Coloque 3 ou 4 novos bifes na panela ou frigideira
29. Repita o processo todo: frite os bifes de um lado, sem mexer neles, pomha pitadas de sal, vire os bifes, deixe-os sangrar, mais um pouco de sal, etc.
30. Dê mais uma flambada com cachaça, aproveite e tome mais uma dose
31. Acabaram os bifes, já estão todos na forma de pirex; a panela de
ferro está exausta e curtida com toda a fritura dos bifes, os sucos,
as flambadas sucessivas
32. Coloque na panela toda a manteiga, cebola, cheiro verde, salsinha
e molho inglês que restaram; refogue um pouco, não muito
33. Acrescente o Creme de Leite Nestlé aos poucos, na proporção
adequada à quantidade de bifes fritos; vá mexendo lentamente e
tomando uns goles de cachaça, pra dar ritmo
34. Coloque esse molho aveludado e perfumado sobre os bifes; deixe
esse creme envolver os bifes, infiltrar-se, permear todos os espaços
35. Comemore com um gole de cachaça
36. Coloque as alcaparras e leve ao forno previamente aquecido, pouco
tempo, apenas pra dar um susto, dar um chega-mais no cozimento
e na temperatura dos bifes

Pós-produção
37. Sirva com spaghetti fininho, tipo cabelinho-de-anjo, al-dente.
O legal é forrar o fundo de cada prato com o spaghetti, colocar os
bife e o molho por cima. Num prato ao lado, uma salada
verde e forte, de rúcula e/ou agrião, vai muito bem.
38. Dependendo do clima, do dia e da companhia, a bebida pode ser
um vinho tinto encorpado. Se preferir, uma cerveja gelada no
ponto (a expressão estupidamente gelada nasceu pra revelar o
grau de inteligência e conhecimento de quem pede cerveja assim).
39. Na dúvida entre o vinho e a cerveja, considere aquela cachaça, que
te acompanhou e inspirou esse tempo todo.

Alguém viu o peru do Altino?

Meu último post, semana passada, mencionava a história do peru do Altino.

Ela gerou muitas perguntas e pedidos pra eu contar esse Causo. Lá vai.

Difícil acreditar hoje em dia, mas já vivemos tempos de vacas gordas e perus gordos na nossa profissão.

Nós, diretores de grandes agências, no final do ano recebíamos ótimos mimos de fornecedores, veículos e até mesmo de clientes.

Nunca me esqueço de um queijo parmesão italiano, gigantesco, pesava algo como uns 10 quilos de pura delícia. Mesmo cheio de filhos em casa e amigos sobrevoando, o queijo durou meses.

Também inesquecível foi aquela mortadela italiana, igualmente gigantesca e deliciosa. Sem falar nas cestas de natal, uma fartura de produtos importados, coisas que nem eu, que viajava o mundo, havia experimentado.

O Diretor de Criação da McCann-Rio, homem de confiança da minha equipe, de repente recebeu um relógio Rolex de ouro caríssimo, de um fornecedor.

Saia justa. O fornecedor era parente de um grande cliente. Como recusar a oferta sem ofender?

Sugeri que ele entregasse o Rolex para o melhor funcionário do escritório, como exemplo de transparência e de meritocracia.

O Rolex foi entregue a um ex-office boy, que, pelo talento, empenho, esforço e performance, havia merecido ser promovido para o Departamento de Arte.

Cermônia de final de ano na agência, homenagens, discursos, emoções, o moleque recebeu o Rolex com lágrimas de gratidão e reconhecimento nos olhos.

Horas depois, o mesmo moleque, negro e magricela, derramou outras lágrimas, de indignação, ao ser preso na estação de trem pro subúrbio onde morava: a polícia pensou que um moleque daqueles só podia ter roubado o Rolex.

Hoje, presentes e mimos desse quilate não existem mais, pelo menos desse jeito. Tempos difíceis pra todo mundo. Tempos difíceis pra queijos e mortadelas importados, para paladares mal acostumados, pra relógios e presentinhos.

Hoje tem também “compliance”, transparência, conduta ética, pilares da justa e correta Governança Corporativa. Presentes desse porte podem ser confundidos com suborno, bola, bribe, quick-back, corrupção.

Há  uns 15 anos deixei de ser um diretor importante de uma das mais importantes agências do Brasil e do mundo, a McCann-Erickson, para ser um feliz consultor e assessor independente em Comunicação e Sustentabilidade. Não sou mais merecedor e perdi os privilégios do mercado, mimos, presentes, queijos e mortadelas ao final do ano.

Em contrapartida, agora no final de 2017, recebi de um cliente um e-mail geral e genérico a todos seus fornecedores, alertando que nenhum funcionário dele, cliente, estava autorizado a receber presentes ou brindes de fim de ano, de qualquer espécie ou valor. Nada pra ninguém, talvez apenas um beijo e um abraço, votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo. No máximo.

O e-mail sugeria que, ao invés do possível presente ou brinde, fizessemos uma doação para uma instituição social apoiada pelo cliente. Justo e honesto, sinal dos tempos.

Mas antes disso tudo, houve o peru do Altino.

Foi no começo dos anos 90, pelo que me lembro. Toda a Diretoria da McCann ganhou um imenso peru de um veículo. Foram uns 15 diretores e perus no total.

Modéstia à parte, o meu peru era o maior de todos. Mais parecia um filhote de avestruz.

Só que os perus foram entregues na agência na véspera das férias coletivas, último dia de trabalho do ano. Tínhamos combinado um happy-hour elástico, que começaria em um barzinho no fim do dia e terminaria ninguém sabia quando nem onde.

Cada um guardou seu peru no carro e fomos pro barzinho. Naquela tarde, o Altino estava sem carro e motorista: deixou o peru dele no carro de alguém.

No carro de quem? Se eu não me lembro, imagine se o Altino iria se lembrar depois da ronda pelos bares e casas de amigos, que fizemos até a madrugada.

O fato é que, no dia seguinte, a Yedda, eterna esposa e guardiã do Altino, perguntou pelo peru que ele havia dito ter ganho e que levaria pra casa.

Altino lembrava-se vagamente de ter deixado o peru no porta-malas do carro de alguém e não se lembrava de mais nada, nem de quem o havia levado pra casa.

Então começou a série de telefonemas: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Começou com a austera e comportada Yedda ligando pra um: “Alguém viu o peru do Altino?”

Depois, esse um ligava pra dois, esses dois ligavam pra três. Todos sempre com a mesma pergunta: “Alguém viu o peru do Altino?”

Isso tomou praticamente um dia inteiro e virou lenda na agência: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Finalmente descobrimos em qual carro estava o peru do Altino. E ele foi lá buscar, pra ter um gordo Feliz Natal.

Se alguém de vocês se lembrar no carro de quem estava o peru do Altino, por favor, me avise.

Desculpem, precisei me demorar

Pensei em escrever um Causo sobre o grande mestre, humano e profissional, falecido neste fim de semana: Altino João de Barros, aos 91 anos.

Me ensinou muito, me ajudou muito, assim como fez com gerações de publicitários e com a própria profissão, indo muito além do seu ofício original de Mídia.

Eu poderia falar sobre como o Altino me ensinou a preparar e saborear um legítimo Dry Martini, à la Humphrey Bogart em Casablanca.

Eu poderia contar o causo “Alguém viu o peru do Altino?”, que ficou famoso na McCann no início dos anos 90. Qualquer dia eu contarei a história toda.

Eu poderia dizer sobre como o Altino me acalmou e segurou minha onda durante reuniões em que eu quase perdi a cabeça e a conta.

Eu poderia ensinar vocês o que o Altino me ensinou: pode-se cochilar numa reunião chata, desde que você mantenha seu cérebro ligado, no modo avião.

O Altino me ensinou principalmente que Mídia não se faz, se cria. Ele criou na minha frente o top de 8 segundos da Rede Globo e tantas outras ideias, que depois acabaram virando Mídia naturalmente.

Eu poderia falar da nossa perplexidade, minha e de uma galera toda, reunidos diante da TV da minha sala de reuniões, vizinha à do Altino, na manhã do fatídico Onze de Setembro de 2001.

Um primeiro avião entrou em cheio em uma das Twin Towers. Altino entrou na sala, viu a cena na TV e sentenciou com toda a sua sabedoria: “Não foi acidente, foi um atentado. Outros virão na sequência.” E foi o que aconteceu logo em seguida.

Mas decidi contar um outro Causo, mais suave, no qual o Altino foi coadjuvante decisivo.

Eu cheguei no Monte Líbano às 19 horas em ponto, como combinado.

Grande evento! Lançamento de produto para os grandes atacadistas, varejistas, equipes de vendas, público interno do anunciante.

Apresentações grandiosas, falas sobre o negócio, marketing, venda e propaganda, discursos eloquentes. Com direito a show exclusivo de Roberto Carlos depois disso tudo!

Nos colocaram (Altino, Jens Olesen e eu) numa mesa bem diante do palco, na primeira fila. Fiquei com medo que o Roberto Carlos me jogasse uma rosa no final do show e ela manchasse meu único paletó.

Comigo, dividindo a mesa apertada, também o presidente e a diretoria do cliente, além dos rolas-grossas todos da McCann. Havia até o povo internacional, distantes diretores globais e regionais, uma festa de hierarquia.

Comida até que boa, pouca bebida e conversa que valesse a pena, ar condicionado que não dava conta daquela multidão em plena noite de verão.

Eu não queria estar ali. Prefiro sempre ficar com a família, em casa. Durante uns 25 anos da minha carreira, tive que viajar ao Exterior a trabalho em média 3 vezes por mês (sim, eu fiz as contas) e ficar fora de casa. Por isso, sempre que posso, evitei e evito eventos, festas, premiações, badalações.

Seguindo seu ritual, Roberto Carlos começou a atrasar o show, marcado pra começar às 21 horas, depois do jantar.

22 horas… 22:30 horas… 23 horas… e nada do Roberto Carlos. Apenas a banda dele tocando algumas músicas no palco, conversas, um clima misto de revolta, com expectativa e reverência ao Rei, a quem tudo se perdoa. E muito cansaço de todos.

Cochichei pro Altino que eu não estava aguentando aquilo, eu tinha chegado dos EUA naquela manhã e ainda não tinha conseguido ir pra casa. Altino deu a maior força: “Vai embora de fininho, sai à francesa. Eles estão aqui por causa do Roberto Carlos, não por sua causa.”

Pedi licença a todos pra eu ir ao banheiro e levantei-me da mesa.

Fui direto ao estacionamento, peguei meu carro e corri pra casa.

No dia seguinte, o presidente do cliente local me telefona: “Puxa vida, você foi embora, sumiu, não voltou. Perdeu um belo show, foi maravilhoso. O Roberto Carlos até cantou nosso jingle! O que aconteceu com você, Perci?”

Minha resposta: “Desculpe, mas eu tenho um péssimo hábito. Só faço cocô em casa (mentira). E eu moro longe (verdade).” Ficou tarde pra eu voltar.

Ainda bem que ele riu e tudo ficou por isso mesmo.

Cadeira vazia

Eu já havia tido três passagens pela agência McCann-Erickson, que insistia em me chamar de volta, sempre para uma posição superior à minha anterior.

Em 1988 eu havia saída da agência para ser sócio do Cláudio Meyer, diretor de cinema e fundador da Nova Films. Foi um período sexta-ferático: sabático, mas nem tanto.

Aprendi muito profissionalmente sobre cinema, vivi feliz e sem pressão, dei um tempo importante na minha vida pessoal.

E a McCann continuava insistindo, tentando me seduzir para voltar. Acabei voltando.

O Cláudio Meyer é um profissional de primeira linha, diretor premiadíssimo internacionalmente, além de ser uma pessoa maravilhosa, espiritualizado sem ser chato, um ser humano como poucos.

Mas todos nós, brasileiros, tínhamos um amigo em comum, um tal de Fernando Collor, que sentava na cadeira de presidente do Brasil. E ferrou com todos nós.

A Nova Films ficou um bom tempo sem trabalho e, quando entravam filmes para produzirmos, os orçamentos tinham que ser salto baixo. Ficou difícil, me endividei, tive que vender dois carros.

A última recorrente oferta da McCann, em 1991, chegou em boa hora. Mas eu decidi impor uma condição: aceitaria voltar para a agência, porém como Gerente Geral, além de Diretor Nacional e Latino-americano de Criação.

Eu queria comandar a agência inteira a partir do meu jeito, trabalho colaborativo, sem divisões esquemáticas entre os departamentos. E com o pensamento criativo inspirando tudo, o Atendimento, o Planejamento, a Mídia, a Criação final em si.

Abri mão apenas das áreas Administrativa e de Finanças, que nunca foram o meu forte, mas que se reportariam a mim. Mal sei cuidar da minha conta bancária.

Tudo acertado, tristeza e lágrimas no meu adeus à equipe da Nova Films, mas lá fui eu mais uma (e a última) vez para a McCann.

Assumi numa segunda-feira de agosto de 1991.

A agência fazia, toda segunda-feira pela manhã, um Staff Meeting, onde se reuniam todos os diretores de conta, de criação, de mídia, planejamento, administração e finanças. Uma reunião de duas horas, com uns 15 participantes.

Eram repassados os fatos da semana anterior, discutido e planejado o que iria acontecer no futuro imediato com cada conta, em cada área da agência.

Assim, todos compartilhavam entre si as demandas da agência de forma integrada, os erros e acertos, as necessidades e oportunidades de negócio, possíveis projetos colaborativos entre os clientes.

Eu não sabia, mas havia dois VPs que ambicionavam a Gerência Geral, então vacante até a minha chegada. Descobri que minha contratação contrariou os dois concorrentes ao mesmo cargo.

Entrei na sala para minha primeira reunião de Staff Meeting como Gerente Geral. As duas cabeceiras da mesa já estavam ocupadas por esses meus dois, digamos, concorrentes. Só me restava um lugar vago no meio da mesa.

Um dos VPs me perguntou se eu me incomodava por ele assumir a cabeceira da mesa e simplesmente iniciou a reunião, antes que eu respondesse.

Eu interrompi, me reapresentei a todos como o novo Gerente Geral e disse: “A cabeceira é onde eu me sento.” E me sentei na cadeira vaga, no centro da mesa.

Iniciei a reunião e meus últimos 14 anos na McCann, entre algum mal-estar e muitas alegrias dos presentes.

Tivemos ótimos resultados de negócio, que colocaram a McCann como a segunda maior agência do Brasil por longos anos, graças à gestão profissional integrada, conduzida pela Helena Quadrado, Ângelo Franzão, por mim e pela nossa tropa toda.

Pedi demissão em 2003, fiquei dois anos de quarentena remunerada, me preparei pra abrir a Setor 2 ½, o que de fato fiz em 2005.

Hoje quem escreve é Paulo Berti: Nada como uma espingarda pra resolver uma reunião. E depois perder a conta

O Paulo Berti, do Atendimento da McCann, mais conhecido como FOGUEIRA por seus cabelos ruivos, me lembrou do Causo abaixo, que ele próprio relata. Foi em meados dos anos 90.

Um belo causo é aquela estória que aconteceu quando fizemos uma apresentação de campanha para a Diretoria toda do novo cliente, lá na cidade deles.

Tínhamos conquistado a conta recentemente, numa concorrência acirrada. Fizemos uma apresentação forte em estratégia de gestão de Marca, rica em Criação e imbatível em Mídia.

Fomos vencedores quando o presidente da empresa era um e a diretoria era composta pelo patriarca, fundador da empresa, e seus filhos.

Quase um mês depois, voltamos pra cidade pra apresentar os filmes da campanha aprovada, já produzidos.

Alexandre Filizola e eu, Fogueira, do Atendimento, mais o projecionista Cazuza, chegamos antes, pra instalar e checar os jurássicos equipamentos da época, um U-MATIC NTSC. Tivemos que montar os equipamentos em uma sala e conectá-los ao aparelho de TV que estava ligado em outra sala, a sala oficial de reunião.

O problema era que o cabo não passava a imagem de uma sala para a outra. Começamos a tentar e testar outros jeitos de passar o filme na sala oficial de reunião.

Remontamos tudo, com outra TV conectada ao nosso U-MATIC NTSC, mas nada funcionava.  O Perci, a Helena Quadrado e o Ângelo Franzão, a Diretoria enfim, estavam pra chegar e fazer a apresentação dos filmes.

Depois de um bom tempo com todos na sala e nenhum sinal do U-Matic funcionar, começou um zumzumzum pela espera. Nesse momento de conversas paralelas, um dos diretores, filho do patriarca da empresa, se levantou e saiu.

Depois de uns 5 minutos ele voltou com uma espingarda de quase 1,50m de altura, colocou em cima da mesa e falou para todos ouvirem em alto e bom som: “Agora eu quero ver… esse negócio tem que funcionar.”

A maneira “persuasiva” que ele achou para o U-MATIC NTSC funcionar fez todos da companhia rirem. Menos eu! Não gosto de armas.

Meu pai nunca teve armas. Nem exército eu fiz. Aquilo para mim foi uma porrada no estômago e todos devem ter percebido minha surpresa e indignação. Até o medo deixei escapar!

Um dos homens de confiança da Família, mais velho e equilibrado que os filhos, percebeu tudo aquilo por que eu estava passando e falou uma frase para quebrar o gelo.

Com aquele sotaque interiorano carregado e com sua voz fina: “Para derrubar esse cara (eu) e uma agência como a McCann, só uma dessas espingardas mesmo…”

Todos riram, nervosos, mas o clima começou a voltar a ficar mais leve e o ar, respirável.

Nossa Diretoria chegou, mas ainda faltava a porra do U-MATIC NTSC funcionar!

Lembro da reação do Perci ao ver nossa aflição e a espingarda em cima da mesa de reunião.

Na hora ele sacou tudo e fez um comentário matador: “Tem muitos patos aqui na região? Vamos caçar patos, enquanto eles tentam fazer a projeção funcionar? Mas estão faltando mais espingardas pra todo mundo…”

Por milagre e vontade de algum anjo de guarda protetor dos U-MATICs e das Agências de Propaganda, tudo começou a funcionar e o filme passou na TV, logo depois da fala irônica do Perci.

Ufa! Era nossa deixa para o showzinho. Demos um pause no vídeo, relembramos rapidamente a estratégia da campanha e mandamos ver nos filmes. Foi um sucesso!

Todos aplaudiram já na primeira passada dos filmes. Os sorrisos de todos eram evidentes, ninguém fez cara de pôquer. Tínhamos certeza de ter feito um golaço, imediato e de longo prazo. O tema era, como dizia o Perci, “campanhável”.

A primeira fase da campanha era algo como: “Como se pede o produto tal” e explorava os diversos nomes por que a famosa Marca era carinhosamente chamada nas diversas regiões do Brasil. Foram usados dois aviões para rodar o Brasil e agilizar as filmagens.

Depois disso, uma segunda fase de campanha, explorando os belisquetes e tira-gostos: “O que se come pra acompanhar o produto tal”.

Depois, a intenção era estender a campanha para “Com quem se toma o produto tal”, “Em que lugar se toma o produto tal”.

Estava tudo ali muito claro e de um posicionamento perfeito, a maior parte das cenas já estava pronta. Tínhamos muito material filmado pelo Ugo Prata. Bastava editar.

Mas as coisas mudaram dentro da companhia mais uma vez e a campanha morreu ainda em sua primeira fase. Porque ela havia sido aprovada por outro presidente, que já não estava mais na empresa.

Foi uma pena, pra todos, principalmente para a McCann, que perdeu a conta em seguida por puras razões político-familiares. Sem espingarda dessa vez.

Uma pena, inclusive, para o John Dooner, Presidente Mundial da McCann, que veio ao Brasil e chegou a contratar um helicóptero para visitar a Matriz da empresa no interior. Viajamos (ele, Jens Olesen, Perci e eu) sob uma terrível tempestade.

Nos arriscamos nesse voo, porque John sabia do poder e do potencial da Marca vir a se tornar uma das forças globais no seu setor. Não se tornou. Com ou sem espingarda.”