4 Rodas ou Play Girl?

Se ainda hoje é assim, imagine como era criar e produzir a campanha de lançamento de um novo carro naqueles tempos: um segredo de Estado.

Ainda mais porque havia praticamente apenas um carro no mercado, olímpico e soberano, imune a todos os concorrentes que se aventuravam, chegavam e desapareciam com a mesma rapidez.

Aconteceu em 1973. A imprensa comentava que a General Motors estava para lançar o primeiro carro que ameaçaria de fato a liderança histórica do até então imbatível Fusca: o Chevrolet Chevette!

Todos os brasileiros tínhamos andado de Fusca desde que nascemos, tínhamos aprendido a dirigir num Fusca, financiamos o primeiro Fusca com suor, trocamos esse primeiro Fusca por um novo Fusca, com lágrimas.

Um amigo meu, o João, tinha o desapego de deixar a gente dirigir o Armstrong, o Fusca dele, talvez mais amigo do João do que eu mesmo.

Eu era um desses milhões de brasileiros amantes do Fusca, que nem tinha acabado de pagar as 10 primeiras prestações. Fui contratado pela McCann para ser o redator da campanha do Chevette. I mean, o redator em língua brasileira, porque o Grupo de Trabalho tinha uma S.W.A.T. de redatores, diretores criação e de arte, produtores de TV americanos, todos de Detroit. O jogo era pesado, big league.

A Volkswagen, a imprensa automotiva e o Brasil todo queriam descobrir como seria aquele novo carro, o Chevette da GM, detalhes da sua campanha de lançamento.

Com minha prévia concordância, fui abduzido, de olhos vendados, pelo Atendimento da McCann e pelo Marketing da GM. Isso acontece sempre com o pessoal da Criação, mas naquela vez eu fui literalmente sequestrado para um cativeiro ignorado.

Passei alguns dias num hotel, cujos nome e endereço eu nunca soube, acho que em alguma cidade do Interior de São Paulo. Não vi a luz do dia, não conversei com ninguém estranho.

Um pequeno grupo recluso da McCann foi exposto a apresentações de pesquisas, dados de mercado, palestras da Engenharia, comparações técnicas entre o Chevette e o Fusca.

Pudemos conhecer o Chevette numa sala hermética, blindada, sem janelas e nem uma fresta nas paredes. Olhamos, tocamos, entramos, ligamos o motor, sentimos o cheiro e astral, o caráter e a personalidade do carro. Nem pensar em dirigir, sair com o Chevette para dar uma voltinha, testar.

Em alguns dias, criamos o conceito e as linhas gerais da campanha de comunicação ali mesmo, naquele hotel. Sigilosamente, assinando um compromisso de confidencialidade ou morte.

Lá fora, a mídia fazendo barulho e a imprensa automobilística especulando, as colunas publicitárias jogando verde para não colher nada, e a minha namorada Fabiana querendo saber com quem eu estava saindo já que eu tinha sumido, a Volkswagen, as revistas 4 Rodas e Auto Esporte tentando espionar de tudo que era jeito.

Meses depois, foi armado o mesmo esquema para se produzir a campanha de lançamento, as fotos, as filmagens. Fui sequestrado de novo, porém acho que para outro hotel.

Levantamos antes do sol nascer. Uma discreta caravana rumou para uma serra. Descobri que estava em São José dos Campos e íamos filmar o Chevette na Estrada Velha de Campos do Jordão e na atual Rodovia do Tamoios. Há 34 anos esses caminhos eram bem diferentes: tranquilos, a natureza intacta, nenhuma alma à vista, pouco tráfego.

Tínhamos 2 Chevettes, cada um no seu caminhão-baú hermético, que mais pareciam carros-fortes, escoltados por seguranças em motocicletas. E mais um caminhão-baú vazio, o que não fazia o menor sentido pra mim.

Tudo funcionava como um relógio. Armava-se equipe e equipamento, a Polícia Rodoviária bloqueava o trecho da estrada, um helicóptero protegia a área. Tudo pronto pra rodar.

Luz, câmara, ação! Lá de cima da colina, um dos Chevettes saía do seu caminhão-baú e descia a estrada magnificamente, como convêm a comerciais de carro. Rodava pouco mais de um quilômetro e entrava direto em outro caminhão-baú, que já estava com a rampa pronta para escondê-lo de câmeras curiosas. Corta!

Aí eu entendi a função do terceiro caminhão-baú que vinha na caravana, vazio: engolir o Chevette da filmagem, antes que algum curioso conseguisse fotografá-lo.


Tomada 1, tomada 2, tomada 3. Até que aconteceu o inevitável, para o qual todo o planejamento de segurança não estava preparado. Um Chevette já estava fora do caminhão-baú, prestes a descer a colina, quando reparamos reflexos no meio de uma mata ao longe: a lente telescópica, talvez de um fotógrafo da imprensa automobilística.

Era impossível o Chevette voltar ao caminhão-baú sem manobrar, tomar distância e atingir velocidade para subir a rampa. O fotógrafo faria as fotos e revelaria o segredo.

O esquema de segurança tinha furado, ficamos todos, inclusive os agentes de segurança super-treinados, sem reação. Menos um assistente humilde, um peso-pesado da produção.

Ele colocou-se entre o Chevette e a lente do fotógrafo, arriou as calças e começou a se masturbar, fazendo gestos pornográficos para a câmera.
Todo o resto da equipe se juntou a ele, fazendo o mesmo.

Fotos que jamais poderiam ser publicadas naqueles tempos. A equipe correu com uma lona e cobriu o Chevette. O sigilo estava preservado.

O Severino não era perito em segurança, não fez parte do planejamento do esquema secreto, não era americano nem treinado para situações de risco.

Mas, digamos, era mais equipado do que todos nós.
A propósito, o nome da produtora e do diretor dos filmes era Zé Pinto.

Comentários

53 comentários

  1. Márcia Dias Batista Barcellos Costa

    Percival, adorei. Boas lembranças de tempos maravilhosos que marcaram a minha vida pra sempre. Bjs

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Beijo, Marcinha.

      Responder

    2. Percival Caropreso

      Obrigado, Márcia! Toda 4a terá novo post. Continue seguindo e compartilhando. Abraço

      Responder

    3. Karina Weiss

      Que saudades Perci!
      Ótimo poder ter você por perto mesmo de longe.
      Adorei o texto.
      Bjs
      Karina

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      1. Percival Caropreso

        Obrigado, Karina. Toda 4a feira tem mais. Beijo

        Responder

  2. maribel suarez

    Hahhaha, sensacional Perci!
    que bom que vc vai escrever e contar o que sabe! vai ser uma delícia passear os olhos pelas suas histórias. Muito obrigada!!
    beijo e abraço carinhoso

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Aguarde, Maribas e obrigado pelo apoio.

      Responder

  3. Milton Mastrocessario

    Putz Perci, muito bom. Louco por Lee para ler os outros, Abs 😉

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Aguarde!

      Responder

  4. Jorge Gurgel do Amaral

    Perci, dei uma primeira curtida e vou curtir muito mais depois. E, se você quiser, tenho alguns causos antológicos pra te fornecer e você publicar se achar que merecem. Muito boa iniciativa! Abração

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Legal, Gurja. Minha ideia é exatamente, daqui a algum tempo, receber causos pra escrevermos juntos. Abraço

      Responder

  5. Paulo Manetta

    Percival, que saudades!!
    Obrigado por você ser minha referência como pessoa, profissional, cidadão, gente.
    É sempre gostoso ler os seus textos!!
    Esses jovens publicitários precisam disso!!
    Você sempre foi o cara!!
    Abraços e obrigado por tudo

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Manetta, obrigado a você por tudo que sempre fizemos juntos. Trate de ser um professor melhor a cada dia e conte comigo. Grande abraço

      Responder

  6. Ana Quarto

    Que delícia, Perci! Saudade dos tempos da 7 de Abril. Aguardo ansiosamente os próximos causos, tenho certeza que você vai fazer isso magistralmente. Beijinho carinhoso.

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Beijo, Aninha. Toda 4a vai sair coisa nova.

      Responder

  7. Ricardo Voltolini

    Tardou este blog, mestre Perci…Mas não falhou. Sabia que um dia você ia dividir suas histórias usando as ferramentas do mundo virtual. E que ia ser, claro, divertido e despachado.
    Na expectativa pelos próximos testículos …

    Abração.

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Aguarde, Prof Voltoletra. Não se arrependerá. Haverá tbm textos de Sustentabilidade. Abraço

      Responder

  8. Cristina Leme Karvonidis

    Fantástico Perci! Não vejo a hora de ler outras histórias. Beijos e queijos

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Obrigado, Cris. Às 4as sempre terá novo post. Beijo

      Responder

  9. Cristina Del Nero

    Que delícia ler um texto seu. Bjs

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Então, mande pra mim textos seus que daqui a pouco haverá convidados no blog. Beijo

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  10. Valquiria Pacheco

    Adorei Perci!!! Dei muita risada. Saudades! Bjs

    Responder

    1. Percival Caropreso

      E vc participou de várias das minhas histórias. Beijo

      Responder

  11. pedro mauro

    Sensacional, Percival. Imagino quantos casos como esse vc tem pra contar. Grande abraço!

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Pedrinho, obrigado. Se tiver ideias me mande. Toda 4a tem novo post. Abraço

      Responder

  12. Toni somlo

    Delícia de texto. Adorei! Parabéns.

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Obrigado, Toni. Toda 4a tem novo post. Continue seguindo e compartilhando. Abraço

      Responder

  13. Marcelo Lucato

    Grande história. Grande Zé. Pinto menor, please. Hahaha
    Grande abraço, Perci.

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Lucatão, pode mandar suas histórias que eu vou publicar! Abraço

      Responder

  14. José Francisco Queiroz

    Grande Perci. Bela iniciativa, para deixar registrado histórias fantásticas de uma atividade que acha serem desnecessárias em um país que não se preocupa em preservar história.
    Ze Francisco

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Zé, conto com você para me municiar com mais histórias. E conto com a ESPM para divulgar meu blog. Vai fazer bem para todo mundo. Abraço

      Responder

  15. livia guimaraes

    Não falei que o povo ia gostar?

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Falou mesmo. Beijo, querida

      Responder

  16. Júnia Villela

    História genial! Tb participei do lançamento do.Chevette, enviada a Porto Alegre para colher as impressões dos gaúchos que vinham conhecer a novidade em uma concessionária…”Não tem ventarola!” (quebra-vento)…Muito fácil atingir a cota de entrevistas, todos loucos pra falar…Freela pra lá de bacana!

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Legal, Júnia. Boas lembranças pra todos nós. Beijo e siga o blog, toda 4a feira tem novo post. Beijo

      Responder

  17. Juçara Gonçalves Nunes

    Amei Perci, que venha logo a próxima!
    Juçara

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Que bom, Juça! Toda 4a feira tem novidade por lá. Curta e compartilhe. Beijo

      Responder

  18. Simone Lopes

    Adorei Perci!! Não vou perder os posts… Parabéns. Também não posso deixar de comentar a saudades e o prazer de que tive em trabalhar com você. Beijão

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Obrigado, Simone! Legal saber disso. Toda 4a feira tem mais post. Siga e compartilhe. Beijo

      Responder

  19. wellington amaral

    Boa Perci! Legal ver vc um pouco fora da toca! Vou adorar reviver os seus momentos. Com certeza devo ter participado de alguns deles… Abção.

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Duke, legal! Aguarde toda 4a feira tem causo novo. Abraço

      Responder

  20. Romolo Megda

    Muito bom, Perci!
    Como é bom conhecer seus causos e ler seus textos.
    Grande abraço

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Obrigado, Romolo. Continue seguindo, toda 4a feira. Abraço

      Responder

  21. Suely

    Muito legal!
    Aguardo as próximas, sucesso pra você.
    Bjão saudades.

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Aguarde toda 4a feira, Suely! Beijo

      Responder

  22. Archimedes Storelli NB Jr

    Olá Perci, gostei…me projetei no tempo, 7 de Abril, Consolação e Loefegreen e morri de saudades… Parabéns pela história e claro que toda quarta feira estarei aqui!! abs

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Legal, Kiki. Não perca mesmo e compartilhe. Abraço

      Responder

  23. Ricardo ramos

    Adorei a história, fiquei imaginando a cara do fotógrafo! Kkkkkk
    Não vejo a hora de chegar na história da apresentação das 8 metas do milênio na ONU. Kkkk
    Saudades amigo. Um forte abraço

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Boa ideia. Essa história da ONU ainda não escrevi. Tem email em Guararema? Abraço

      Responder

  24. antonio antonietto

    Sensacional! mas acho que fosse hoje o assistente seria contratado pela G Magazine…

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Toñeta, é que antigamente não tinha essa revista. Beijão

      Responder

  25. Dorinha Moreira

    Fantastico! Can’t wait for the next one!!! beijos

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Legal, Dorinha. Que bom que você vai seguir. Beijo

      Responder

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