Da me un Cornetto!

Isso foi no fim dos anos 80 e foi, desde o começo, tudo muito bizarro.
Naqueles tempos não se podia simplesmente importar comerciais e colocar no ar.
Havia todo um processo de legalização que, invariavelmente, culminava com a refilmagem do mesmo roteiro no Brasil, com profissionais, recursos e equipes nativos.
O Maurice Cheyney, diretor do grupo de contas, ficava revoltado com isso.

Mas lá lá fomos nós pra Veneza, refilmar rigorosamente igual ao comercial inglês da campanha mundial (ainda não se falava “global” naquela época) do sorvete Cornetto, da Gelato, hoje Unilever. A adaptação brasileira ficou a cargo do Fernando Leite, um dos nossos diretores de criação, e sua equipe.

Vocês que têm mais de 25 ou 30 anos e boa memória devem se lembrar. Num dialeto italiano do Bixiga, propositalmente caricato, um rapaz cantava “da me um Cornetto, é molto crocante, é piu cremoso, é da Gelato…” na melodia de O Sole Mio.

Apaixonado e surpreendente em sua gôndola, o rapaz roubava o Cornetto de uma incauta donzela, que cruzava o canal em outra gôndola, e se deixara seduzir pelo canto.

Éramos uma grande equipe que foi pra Veneza. A produtora era a Chroma, do Odorico Mendes e do Ibe Vidal, que também dirigia o comercial.

Fizemos uma intensa pesquisa de casting aqui no Brasil, pra encontrar um sósia do ator original do comercial inglês. Demorou, mas encontramos um cara perfeito, à la Woody Allen, um estereótipo muito utilizado em propaganda na época.

Aqui, gravamos a trilha sonora, que seria dublada pelo ator durante as filmagens na Itália. A produtora de som era a MCR, do Campanelli e do saudoso Mineiro.
Ao escutar a música que ele dublaria, o ator brasileiro se desesperou. O cantor, que havia gravado a trilha, era o atual marido da ex-mulher dele, ator. Que situação: o rival dando voz ao ex.

Embarcamos. Descobri que o ator tinha pânico de avião e viajamos de São Paulo a Milão de mãos dadas e abraçados, o ator e eu.

Em Veneza, enfrentamos uns 15 dias de chuva e ficou impossível filmar duas gôndolas se cruzando em um dos canais românticos da cidade, momento em que o rapaz roubava o Cornetto da garota.

Foi um grande prejuízo, mas nossa equipe passou muito bem e soube aproveitar aqueles dias de ócio. Visitamos a cidade toda, museus, igrejas, fizemos compras e principalmente comemos e bebemos muito e muito bem. Afinal, estávamos trabalhando com uma equipe italiana, local, que conhecia tudo de lá, os restaurantes populares nos becos e vielas de Veneza, lulas, polvos, peixes, massas, os melhores vinhos do Venetto, tudo.

O filme “Cornetto Gôndola” entrou no ar no Brasil logo depois que voltamos e foi um tremendo sucesso, tanto de recall como de vendas. Depois dele criamos aqui e produzimos mais 3 filmes, todos na Itália. (Aliás, depois de 2 anos de experiência em cinema como sócio do Claudio Meyer na Nova Films, hoje percebo que a gente poderia filmar os outros comerciais aqui mesmo, no Bixiga ou no Brás. Ninguém notaria a diferença).

Em um dos filmes seguintes na série, há um ensinamento de Mídia, a partir de uma visão de Criação.

O personagem cruzava uma viela romana, pendurado num varal, da casa dele até o outro lado da rua, na casa da garota que saboreava o Cornetto. O cara cantava a mesma música e roubava o sorvete da menina.

Filmagem e refilmagens num subúrbio de Roma. Em uma delas, o personagem finge que cai do varal, aterrissa numa plataforma centímetros abaixo dele, com segurança, fora da tela.

Pra quem assistia, ele caía de fato, saía de cena e a menina ria da suposta queda.
Veiculamos as duas versões: uma, em que o personagem continuava pendurado no varal, degustando o sorvete roubado; e outra em que o personagem caía do varal levando o Cornetto na queda.

Foi o maior sucesso de recall, gente apostando que havia visto o cara caindo do varal, gente apostando que o cara não caía e continuava pendurado no varal. Ou seja, a cada veiculação do comercial, a atenção era redobrada pra conferir o final.

Coisas da Propaganda daquela época: improvisação, integração entre Mídia, Criação e Execução, aproveitamento de oportunidades fora da caixinha padrão do marketing robotizado. E com um cliente aberto a surpresas, corajoso.

 

Comentários

3 comentários

  1. Marcio

    Adorei Perdi! Bons tempos. Bons comerciais com criatividade, romantismo e muita verba..

    Responder

    1. Percival Caropreso

      Valeu, Márcio. Um abraço

      Responder

  2. Dorinha Moreira

    Muito bom.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *