(Escrito em 2001) Brincando de Casinha

Uma amiga me contou que sua filha de 10 anos negou-se a arrumar o quarto e recolher a toalha largada no chão depois do banho. “Mãe, você não viu o filme na TV dizendo que criança não pode fazer trabalho de casa? Eu conheço os meus direitos!”

Na época, final dos anos 90, a TV estava veiculando um comercial da Fundação Abrinq e da OIT – Organização Internacional do Trabalho – criado voluntariamente pela minha equipe da agência McCann. Ao mesmo tempo, nessa época, eu era Conselheiro da Fundação Abrinq.

A mensagem filme era simples e clara: alertar para a crueldade que é trazer crianças para dentro de casa e fazê-las trabalhar, digamos, como mini-domésticas, mini-babás.
O salário dessas crianças também é mini: teto, cama, roupa, comida e uns trocados.

Muitos, sinceramente, podemos acreditar que estamos praticando uma boa ação. Afinal, essas crianças poderiam estar nas ruas, mendigando, traficando, vendendo-se para o crime e para o sexo.

O engano é este: famílias que abrigam crianças carentes e as põem para trabalhar em casa estão roubando.

Roubando a chance de essas crianças estudarem, de crescerem junto de suas próprias famílias, de brincarem. Roubando a infância delas, a chance de elas serem crianças. Roubando o seu futuro desde já.

Imaginem a cena: uma menina pobre, eternamente agradecida àquela família que a acolheu, passando aspirador na casa, preocupada em não atrapalhar a filha da patroa, que tem a mesma idade dela e está brincando de casinha no carpete felpudo da sala.

Alguém aí falou em trabalho escravo? Minha amiga falou, para filha dela. Minha amiga aproveitou o filme da TV e a reação oportunista da filha. Explicou como ela, a filha, é privilegiada num país onde tantas crianças dariam a vida para poder arrumar seu próprio quarto e poder pegar uma toalha fofinha no chão depois do banho.

Viva a TV, viva a Internet, viva a informação que chega às toneladas aos nossos filhos.
E viva nós, pais esclarecidos, que temos o dever de abrir o coração e a razão de nossos filhos, para que essa informação toda construa cidadãozinhos melhores.

Cidadãozinhos que sejam responsáveis por pequenas tarefas rotineiras dentro de nossas casas. E que venham a ser, mais tarde, cidadãos responsáveis pelas tarefas desse país.

Quer ajudar de verdade essas crianças carentes a ter um rumo na vida? Procure uma ONG que trabalhe a sério com a questão da Infância.

Existem muitas, todas elas cheias de programas e projetos. Você vai encontrar o seu modelo e o seu número justo, que calça direitinho a sua consciência responsável.

Será mais um belo exemplo para seus filhos.

 

Comentários

2 comentários

  1. Izzy Dias

    Ameii o site, meus parabens!

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    1. Percival Caropreso

      Obrigado! Continue curtindo e compartilhando. Abraço

      Responder

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