Eu não conheço o Pelé

Sei lá em que ano foi isso, mas deve ter sido um pouco antes de eu sair da McCann de vez. Talvez 2004.

Lá estava eu tranquilo, em São Paulo, conduzindo mais um workshop estratégico criativo pra algum projeto latino-americano. Eram 8 duplas de diferentes países da região e eu no meu traje oficial, bermuda, camiseta regata e havaianas. Todos nós trancados há uma semana num hotel na Avenida Sena Madureira, bem pertinho da McCann, porque eu não aguentava mais viver em avião pra lá e pra cá.

De repente me liga o Márcio Moreira de NY, então vice-chairman de tudo, o pica-grossa da operação da McCann Mundial. Ele me pediu pra eu ir imediatamente a uma reunião delicada, de importância transcendental: intermediar uma negociação entre a uma conta global alemã e o Pelé pra uma campanha mundial.

Eu obedeci e fui. De bermuda, camiseta regata e havaianas. Era o que eu tinha para o momento de crise e emergência, não dava tempo nem de colocar uma camiseta normal e um tênis, o que seria o máximo de sofisticação indumentária pra mim.

A reunião era num suntuoso escritório do Pelé, na Juscelino Kubitschek. Tive que convencer a portaria e a segurança a me deixarem entrar e provar que eu não era um entregador de pizza. O Pelé detesta pizza.

No elevador apertado, entrei com uns 5 alemães engravatados e rígidos como apfelstrudels congelados. Silêncio total e olhos críticos na minha direção. “Por que esse cara não pegou o elevador de serviço?” imaginavam eles em silêncio.

Todos descemos no mesmo andar, nos apresentamos na mesma recepção, fomos encaminhados pra uma mesma sala de reuniões, nos serviram água e café e pediram pra esperar, que o Pelé já chegaria.

Tomei a iniciativa de me apresentar como Gerente Geral da McCann-Brasil e VP Internacional da McCann Mundial. Ninguém levou a sério. E o Pelé não vinha.

O apfelstrudel mais graduado resmungava: “Pelé is late, this is not acceptable, we’ve travelled just to meet and negotiate with him! Who he believes he is?!”

Eu timidamente respondi: “He is Pelé, and you’re paying millions of dollars to have him in your campaign.”

De repente, lá vem Pelé, adentrando a sala com desculpas, descalço e uma bata indiana azul-céu-claro, “I’m so sorry I’m late, understand?”

O apfelstrudel mais graduado imediatamente se derreteu, disse que não havia problema algum, pediu pra tirar uma foto com o Pelé. E um autógrafo, claro.

Aí o Pelé me viu, quietinho no fundo da sala de reunião. O Pelé gritou: “Perci!”. Correu na minha direção, me deu um puta abraço, me carregou no colo e me rodopiou pela sala.

Sentamos pra começar a reunião. O Pelé na cabeceira da mesa, o Pepito, eterno escudeiro do Pelé à esquerda, o apfelstrudel mais graduado à direita e eu logo depois, ao lado dele. Sem saber exatamente o que eu estava fazendo ali.

Cochichando pra mim, o apfelstrudel mais graduado me perguntou timidamente e surpreso: “Do you know Pelé?”

Eu respondi de forma bem blasé: “No, he knows me.”

Pra eles eu não expliquei, mas pra vocês eu explico. Meu pai morou a vida toda no Guarujá, era gerente do Hotel Jequiti-Mar e corretor de imóveis na Praia de Pernambuco, lá mesmo.

Meu pai vendeu uma mansão pro Pelé logo depois da conquista da Copa do Mundo no Chile e, desde então, o Pelé contratava meu pai como freelancer pra cuidar da casa, dos empregados, do jardim, da piscina, da geladeira sempre abastecida. E, sempre que podia, eu ia com meu pai nos encontros com o Pelé, eu ainda moleque.

Muito tempo depois, nos anos 80 e 90, contratei o Pelé pra campanhas de Coca-Cola, GM, MasterCard pela McCann. Voltamos a nos encontrar e continuamos a manter contato.

Daí a intimidade entre Pelé e eu no encontro com os alemães. A propósito, o projeto foi de uma campanha global criada pela equipe da McCann Frankfurt, mas produzida pela Planet Film e dirigida pela Flávia Moraes, com fotos do J.R. Duran para o material impresso. Foi um grande sucesso de vendas e satisfação sexual pra muita gente.

Mesmo em propaganda, realidade não é necessariamente percepção. Chega uma hora que os fatos falam mais alto do que qualquer discurso de autoelogio ou falsa aparência.

Foto de abertura by Alberto Ferreira (in memorian)

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