O Poliglota

Márcio Moreira, então Diretor Intergaláctico de Tudo no Sistema McCann Mundial, me mandou pra participar de um projeto global. Lá fui eu, em missão.

Alemanha, Frankfurt, Janeiro, 5 graus negativos. Mais frio dentro de mim do que lá fora. Direto do aeroporto, aqui estou na reunião de staff do nosso escritório local: 19 alemães + Gerry + eu.

Gerry é um americano midwest da gema, com quem trabalhei no Brasil anos atrás. Boa praça, fanático pelo nosso país, corinthiano instantâneo e detentor de um limitado vocabulário Português de sobrevivência, arduamente aprendido na marra em dois anos aqui. Muito precário em Português.

Recém- chegado à Alemanha, Gerry já está irremediavelmente inadaptado. Não queria ter sido transferido pra lá e fazia questão de deixar isso claro a todos, principalmente aos alemães.

Mas não podia perder a oportunidade de subir na carreira, o que provocou outra colisão frontal com os colegas locais aspirantes ao mesmo cargo. Eles não são antiamericanos: são anti-Gerry.

O Presidente dá as boas-vindas a mim, anuncia que trabalharei com a equipe alemã durante algumas semanas no projeto do lançamento mundial de um carro da Chevrolet/Opel. Fala em Inglês, impecável.

Agradeço também em Inglês, nada impecável, mas muito melhor do que meu Alemão, inexistente.

Começa a reunião. Todos reportam seus projetos, detalham os próximos passos, prazos, responsabilidades. Em Alemão!

Duas horas encantadoras, para mim e para o Gerry, que não entendemos nada. Se ele não conseguiu aprender Português em dois anos na boa-vida e hospitalidade brasileiras, seria impossível ele entender Alemão em tão pouco tempo e com tantos inimigos.

Fim da reunião, todos se levantam. Solenemente, Gerry pede licença para também dizer algumas palavras a meu respeito. Em Inglês: “Agradeço a vinda do Percival para trabalhar conosco nesse projeto. Já trabalhamos juntos no Brasil e acho importante explicar a vocês como melhor aproveitar estilo e o talento do Perci. Farei isso no idioma do seu maravilhoso país, que me acolheu como um filho”.

Aí Gerry muda para o Português. Quer dizer, muda para uma enxurrada de expressões do dia a dia, cujo som ele ainda vagamente lembra. E com sotaque.

“Não empurra, não empurra, cadeira cativa, setor azul, Pacaembu!”. Gerry diz isso com a eloquência de uma calorosa saudação.

Quase às lágrimas, não se contém nos elogios a mim: “Caipirinha, a minha sem açúcar e muito gelo, que horas são. Minha picanha é ao ponto e sem fritas, então tudo bem, vai se fode você, cara.”

Complementa: “Timão, Timão, Salve o Corinthians, campeão dos campeões!” – mas não canta, apenas fala veemente e categórico, como se estivesse afirmando algo sério.

E o gran-finale, apontando para mim, de forma eloquente: “Cumbica, me chama um carro, Rua da Consolação, tô sem trocado, que merda ser esta? Este campanha está uma porqueria!”

Depois de uma pausa emocionada, fecha o discurso dirigindo-se a mim, em Português: “Tudo bem, eu ferrou eles, fala verdade.”

Comovido, só me restou agradecer tão amáveis palavras, diante dos alemães, perplexos.

O Poliglota

Comentários

2 comentários

  1. Rubens da Costa Santos

    Uau! Que relato Marcante!! Evidência de que trabalho de grupo de experts de diferentes origens e backgrounds demanda necessariamente além do objetivo e um idioma em que todos possam se expressar e ir além ser entendido pelos demais! Samba de crioulo doido!

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    1. Percival Caropreso

      Rubão, imagine como eu tive que me conter nas cuecas diante das palavras do Gerry. Mais do que dominar idiomas é importante dominar humor e ironia. Abraço

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