Azeitona com tangerina

A Casa do Sol foi o que, na época, se chamava de “orfanato” e hoje se chama de “casa de abrigo” ou “casa de passagem”. Mantivemos, com a ajuda de amigos, a Casa do Sol ao longo de 17 anos e atendemos a quase 500 crianças e seus pais destituídos. Minha família e eu reformamos uma chácara na periferia de Cotia e a transformamos num lugar seguro e confortável, para acolher crianças desde o nascimento até os 6 anos de idade, em situação vulnerável, de risco social. Crianças órfãs da sociedade, de todos nós.

Elas chegavam à Casa do Sol pelo Fórum, pela Vara da Infância e Juventude de Cotia.
E lá ficavam até que a Justiça decidisse seu destino na vida: retorno à família, entrega a parentes distantes, adoção.

Um belo dia, lá chegou a Azeitona. Uma negrinha, tão negra que era quase azul. Olhos negros esbugalhados, assustados, imensos. Gordinha, rechonchuda, parecia mesmo uma dessas carnudas azeitonas pretas espanholas. Deveria ter dois anos e poucos meses, na nossa avaliação (ela não chegou com certidão de nascimento).

Andava, corria, respondia aos estímulos, saúde perfeita, mas um problema: a Azeitona não se comunicava, não falava, não ria, não chorava, não reclamava, não se alegrava, nem demostrava sentimentos. Não brincava com as outras crianças, sempre isolada.

Eu dava plantão na Casa do Sol todo domingo. Domingo sim, domingo não, era dia de visita da família das crianças, quando autorizadas pelo Fórum.

Num desses domingos que não era dia de visitas, alguém bate no portão. Abro a escotilha, aquela janelinha de segurança, e me enfiam o cano de um 38 na testa. “Abra esta merda, eu vim ver minha filha”.

Antes de me borrar na bermuda, perguntei quem era a filha e informei que aquele domingo não era dia de visitas. Bobagem minha: “Caguei pra dias de visita, eu só quero ver minha filha”. E contou que a filha dele era a Antônia ou Azeitona, com o cano do 38 ainda na minha cara.

Eu disse que ele não poderia entrar, que eu iria buscar a menina, trazê-la pra fora e ele, o pai do revólver 38, poderia ficar com ela na calçada por alguns minutos. O cara topou.

Fiz isso. Mas antes, pedi pras funcionárias da Casa do Sol ligarem pra polícia. Afinal, o pai da Azeitona era um dos líderes do tráfico de drogas na região e procurado, com mandado de prisão e jurado de morte pelas outras gangues.

Do lado de fora da Casa do Sol, uma cena inimaginável. O traficante, a Azeitona e eu sentados na calçada. O cara vestia apenas um short cor de rosa decorado com um 38 na cintura, camiseta regata e chinelos de dedo. A uns 100 metros dali, 3 capangas dele, com fuzis, vigiavam a área.

O pai da Azeitona tirou do bolso uma pequena tangerina bem madura, descascou devagar, com calma e carinho. E foi dando pra Azeitona, gomo a gomo, conversando com a filha. E a Azeitona começou a responder, a falar, a sorrir pela primeira vez.

Eu pedi desculpas, mas tinha que ir ao banheiro. Corri o risco de deixar a Azeitona e o pai na calçada, voltei pra dentro da Casa do Sol, pedi pras funcionárias cancelarem a chamada pra polícia. Tarde demais. Elas já haviam ligado.

Voltei pra fora e avisei ao traficante que eu havia chamado a polícia, em legítima defesa e em defesa da Azeitona. Pedi que ele fosse embora o mais rápido possível.

O cara ficou um misto de indignado e agradecido: “Valeu, te devo essa, seu filho da puta. Vi minha filha de novo e você me salvou a tempo. Essa casa aqui agora tá sob minha proteção, nunca ninguém vai assaltar aqui. Cuida bem da minha filha.” E fugiu com os 3 capangas. Eu levei a Azeitona, que agora não parava de falar, pra dentro da Casa do Sol. Esperei a polícia chegar e disse que o bandido já tinha ido embora.

Quem eu traí? A polícia? O bandido? Eu mesmo? Tenho certeza que honrei a Azeitona.

Sei que temos problemas coletivos pra consertar estruturalmente, problemas sociais graves no todo, transformações políticas, discussão de uma Assembleia Constituinte para a criação de uma nova Constituição, reformas no sistema eleitoral, no modelo econômico, na criação de uma sociedade futura mais justa, inclusiva e equilibrada. Tudo macro, de longo prazo e longo processo.

Temos que lutar nesse longo prazo das grandes transformações estruturais.

Enquanto isso, nos caem no colo vidas individuais e imediatas, pras quais não podemos fechar os olhos.

Meses depois, a Azeitona foi adotada e leva com ela essa história pra sempre, pra vida toda, mesmo que não se lembre.

Casa do Sol

Comentários

4 comentários

  1. Renato Guimaraes

    Oi, Perci, vamos nos mudar e temos roupas de brinquedos de crianças, alem de muitos livros infantis, que queremos doar. Vocês aceitam?

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    1. Percival Caropreso

      Renato, a Casa do Sol foi encerrada, depois de 17 anos de existência e mais de 500 crianças abrigadas, acredite: por falta de crianças judicialmente consideradas não em situação de risco e vulnerabilidade social. Não faltam casas de abrigo, loucas pra receber suas doações. Obrigado, um abraço. Perci

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  2. carlos Yasoshima

    Certamente no seu coração Perci, caberia um pote inteiro de Azeitonas!

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    1. Percival Caropreso

      Banzeco, me lembro de você todos os dias, fumando o último cigarro da noite diante de um de seus quadros. Abraço

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