Aos berros

Em 1991 voltei pra McCann, no que seria meu último período lá. Ele durou até 2005, eu como Gerente Geral e Diretor Nacional de Criação.

Acreditando que nosso valor no ofício de comunicadores está em encontrar soluções de comunicação a partir da criação de pensamento, criação de planejamento, criação de mídia e criação de campanhas, tudo integrado, Helena (Pesquisa e Planejamento), Ângelo (Mídia) e eu passamos a dividir uma sala no Olimpo, o último piso, o andar da Diretoria da agência.

Depois de alguns meses senti necessidade, me deu uma vontade louca de conviver com minha equipe específica de Criação, umas 80 pessoas, no andar abaixo.

A área da Criação era quase um andar inteiro, um imenso salão sem paredes dividindo as equipes em suas estações móveis de trabalho. Todo mundo trabalhava com todo mundo que quisesse.

No fundo desse salão, uma gigantesca estante, uma verdadeira biblioteca, com livros e tapes/cds sobre comunicação, propaganda, promoção, anuários, referências internacionais e brasileiras.

Coloquei pra mim uma mesa de reuniões também gigantesca, bem em frente a essa estante-biblioteca: um mesão que era frequentado pelas duplas, pra batermos bola sobre caminhos criativos, avaliar primeiras hipóteses de conceitos e campanhas. Eu passava algumas horas do dia lá. Era eu de volta ao mundo da Criação.

Um dia chegou um garoto cheio de espinhas e cabelo espetado, desses que hoje comandam áreas inteiras de agências e anunciantes. Ele chegou bem pertinho de mim e berrou: “Me dá o último Anuário do Clube de Criação! Anuário do Clube de Criação!”

Estranhei, mas indiquei pra ele onde encontrar na estante.

No dia seguinte, o mesmo garoto chegou de novo até a minha mesa e berrou: “Você tem o One Director’s de 1991? O One Directors de 1991!” Eu mesmo fui até a estante, peguei o que ele havia pedido e perguntei: “Por que você berra tanto assim?”.

O moleque garoto, também aos berros: “Porque ele mandou!” e apontou para o Paulo Sabino, Diretor de um dos Grupos de Criação, que lá do outro lado do salão não se aguentava de tanto rir.

O garoto era um estagiário, recém-entrado na Criação. O Paulo Sabino disse para o garoto que aquele senhor de bigode lá no fundo do salão, naquela mesa grande em frente à estante, era o Revisor e Bibliotecário da agência. Mas como era totalmente surdo, o garoto teria que pedir bem alto e repetir várias vezes o que queria.

O garoto hoje em dia é um excelente redator e aprendeu a falar baixo.

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