Tem dias pra se esquecer. Ou não?

Márcio Moreira, meu grande guru e mestre, me tirou da Propeg e me colocou como Diretor de Criação na McCann-Rio. Foi em 1976, eu tinha 24 anos, era inexperiente.

O Márcio, inclusive, foi avalista no crediário do meu primeiro paletó na vida nas lojas “Maré Mansa”, cujo slogan era “Compre agora, que até janeiro, dinheiro pinta”. Usei poucas vezes esse paletó, nunca com gravata.

Dali a uma semana seria apresentada a grande campanha anual da Esso Brasileira de Petróleo, um evento solene para a Diretoria do cliente e que garantiria o ano todo da agência, financeira, política e profissionalmente.

Cheguei poucos dias antes na agência e não gostei da campanha: achei que era errada estrategicamente e fraca criativamente.

Depois de uma intensa batalha interna entre a Criação, Atendimento, Gerência e eu, concordamos em refazer a campanha toda.

Tínhamos poucos dias e ainda não contávamos com a velocidade dos computadores, era tudo na mão mesmo. Mas conseguimos.

A reunião de apresentação era às 10 horas da manhã e às 9:30h ainda estávamos dando os últimos retoques em algumas peças, empacotando o que já estava pronto.

Mandei o Atendimento na frente e abrir a reunião, que nós da Criação chegaríamos logo depois. Eram umas 10 quadras da McCann até a Esso, fomos a pé.

Mas fomos a pé debaixo de um sol infernal do verão carioca às 10 horas da manhã, bem no centro da cidade, carregando pastas e mais pastas com layouts em tamanho original e storyboards gigantescos, material de ponto de venda, cartazes, tudo.

Era minha primeira reunião na Esso, ninguém me conhecia. Tive que usar paletó, avalizado pelo Márcio, o que pelo menos serviu pra eu esconder meu rabo de cavalo diante daqueles senhores diretores sisudos. Todos de ternos escuros.

Entrei na sala de reunião, um salão nobre no que hoje seria uma sobreloja da Rua México, um piso entre o térreo e o primeiro andar do edifício, bem perto do nível da rua.

Entrei esbaforido e atrasado, tropecei, as pastas caíram e os layouts todos se misturaram, saíram da ordem, espalhados no carpete chic. Fui catando, tentando arrumar e me desculpando ao mesmo tempo.

Minha apresentação foi um desastre. Eu puxava um layout pra apresentar, mas não era aquele, tudo estava fora de ordem. Chamei a Esso várias vezes de Shell, um pecado mortal naquela circunstância. E assim foi, uma merda atrás da outra.

Os sisudos diretores da Esso ficavam cada vez mais sisudos e impacientes.

Até que, já quase no gran-finale da apresentação, começou a tocar uma bandinha, dessas que, na calçada lá embaixo, animam e atraem consumidores pra lojas populares. Havia uma promoção nessas lojas no térreo do edifício.

Eu parei a apresentação, tirei o rabo de cavalo pra fora do paletó e me resignei: “Senhores, hoje não é meu dia, me perdoem. Cheguei atrasado, porém com uma bela campanha. Deixei cair tudo no chão e, apesar de os layouts se misturarem, os senhores entenderam o pensamento, a lógica da comunicação e o todo da campanha. Chamei a empresa dos senhores pelo nome da concorrente, porque a Shell investe mais em comunicação do que vocês, Esso, que por isso não é top of mind na cabeça de um new comer no cliente, como eu.

E pior: contratei uma bandinha pra tocar e celebrar o final da minha apresentação, mas ela chegou mais cedo e começou a tocar antes do tempo. Me perdoem por isso também.”

Fui aplaudido, a campanha foi aprovada, porque era boa. Mas tive que cortar o cabelo.

Comentários

4 comentários

  1. Saul Bekin

    Sei bem o que é isso Perci; a gota de suor de nervoso escorrendo pela perna por dentro da calça a caminho da meia … Este teu causo é para mim o paradigma do timing; aconteceu comigo na EletroRadiobraz, Johnson & Josnson, Philip Morris e no Citibank. Tudo isso germinou o Endomarketing. Obrigado! abração meu e beijo da Ilana Novinsky

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  2. Luis Aurelio

    Esse merece ir para o book ”Causos da McCann”
    Congrats.

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  3. Aerton

    Esse é você desde que você é você Perci ! Não baixa a cabeça pra nada, se coloca e faz do problema uma baita oportunidade !

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    1. Percival Caropreso

      Aerton, meu caro: e tem outro jeito? Beijão

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