Hoje quem escreve é Lusa Silvestre: Agência-Escola

O Lusa, Luis Silvestre, sempre foi um dos mais inspiradores redatores da minha equipe na McCann-Erickson. Trabalhamos juntos em vários projetos, ele sempre com seu humor ácido, inquieto, provocador, um cara que pensava e tinha ideias conceituais antes de sair escrevendo ideias.

Lusa também vinha sendo roteirista de longas-metragens, que fizeram grande sucesso de público, crítica e prêmios. Abandou a propaganda e se dedica a isso.

O Lusa se lembrou de um Causo e me mandou. Aqui vão eles, a memória, o texto e o talento do Lusa:

O Perci não levava desaforo pra casa. E, por causa disso, tinham uns clientes que não iam com a cara dele. A gente gostava mais ainda do Bigode por causa disso.

Mas havia clientes – a maioria – que faziam questão de ter o Perci o mais perto possível. Um deles era uma grande multinacional, conta global da agência. No passado, Perci chegou a aprovar off-line de comerciais sem os clientes verem, devidamente autorizado por eles.

Daí que esse grande cliente inventou, globalmente, um novo jeito de fazer as coisas, principalmente como conduzir o processo entre cliente-agência. Uma das decisões: o VP de marketing deveria estar sempre presente no briefing e na apresentação. Outra: trainees, estagiários e assistentes também deveriam acompanhar o processo todo.

Para implementar a ideia, alugaram um anfiteatro e puseram todos os marqueteiros, os trainees e estagiários lá dentro, para assistirem a palestras de vários profissionais, inclusive das agências e fornecedores, para absorverem o que tinha que ser feito no novo processo. Chamaram o Bigode para ser um dos palestrantes.

Bigode ia falando, com sua voz de trombone barítono. Na contramão de tudo que o cliente queria. Criticou a excessiva presença dos trainees, estagiários e profissionais juniores em reuniões. Sim, eles eram importantes e o Perci sempre deu força, valorizou a molecada, dentro e fora da agência.

Mas, na medida em que você os punha numa reunião de apresentação, coisa estratégica e grande, com direito à fala e voto, aí a inexperiência e o desgoverno dos mais jovens poderiam atrapalhar.

Ideias poderiam ir pro ralo por causa de um comentário inocente, ingenuamente inexperiente. A aprovação por parte deles não valia nada, mas alguma objeção levantada por eles poderia vetar uma grande ideia, fazê-la não seguir adiante.
Auditório lotado – e o Bigode ia defendendo sua tese contra a tese do cliente, quando um gerente de alguma área de marketing levantou o dedinho:

– Pois é, Perci, mas aí você tem que entender que, na nossa empresa, jovens profissionais são vistos como alunos. Alunos aprendem, fazendo.

E o Bigode:

– Muito justo. Mas então tem duas coisas: primeiro, eu quero uma parte da verba do RH, porque quem está treinando, capacitando e educando sou eu.

E segundo: quando eu estou dando aula e não gosto do comentário de um aluno, mando pra fora da classe. Posso mandar pra fora da classe?

A nova política do cliente foi colocada em prática, por determinação global. Tivemos que acatar.

Mas ninguém mais levantou a mão e os estagiários ficavam mudos nas reuniões com o Bigode”.

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