Desculpem, precisei me demorar

Pensei em escrever um Causo sobre o grande mestre, humano e profissional, falecido neste fim de semana: Altino João de Barros, aos 91 anos.

Me ensinou muito, me ajudou muito, assim como fez com gerações de publicitários e com a própria profissão, indo muito além do seu ofício original de Mídia.

Eu poderia falar sobre como o Altino me ensinou a preparar e saborear um legítimo Dry Martini, à la Humphrey Bogart em Casablanca.

Eu poderia contar o causo “Alguém viu o peru do Altino?”, que ficou famoso na McCann no início dos anos 90. Qualquer dia eu contarei a história toda.

Eu poderia dizer sobre como o Altino me acalmou e segurou minha onda durante reuniões em que eu quase perdi a cabeça e a conta.

Eu poderia ensinar vocês o que o Altino me ensinou: pode-se cochilar numa reunião chata, desde que você mantenha seu cérebro ligado, no modo avião.

O Altino me ensinou principalmente que Mídia não se faz, se cria. Ele criou na minha frente o top de 8 segundos da Rede Globo e tantas outras ideias, que depois acabaram virando Mídia naturalmente.

Eu poderia falar da nossa perplexidade, minha e de uma galera toda, reunidos diante da TV da minha sala de reuniões, vizinha à do Altino, na manhã do fatídico Onze de Setembro de 2001.

Um primeiro avião entrou em cheio em uma das Twin Towers. Altino entrou na sala, viu a cena na TV e sentenciou com toda a sua sabedoria: “Não foi acidente, foi um atentado. Outros virão na sequência.” E foi o que aconteceu logo em seguida.

Mas decidi contar um outro Causo, mais suave, no qual o Altino foi coadjuvante decisivo.

Eu cheguei no Monte Líbano às 19 horas em ponto, como combinado.

Grande evento! Lançamento de produto para os grandes atacadistas, varejistas, equipes de vendas, público interno do anunciante.

Apresentações grandiosas, falas sobre o negócio, marketing, venda e propaganda, discursos eloquentes. Com direito a show exclusivo de Roberto Carlos depois disso tudo!

Nos colocaram (Altino, Jens Olesen e eu) numa mesa bem diante do palco, na primeira fila. Fiquei com medo que o Roberto Carlos me jogasse uma rosa no final do show e ela manchasse meu único paletó.

Comigo, dividindo a mesa apertada, também o presidente e a diretoria do cliente, além dos rolas-grossas todos da McCann. Havia até o povo internacional, distantes diretores globais e regionais, uma festa de hierarquia.

Comida até que boa, pouca bebida e conversa que valesse a pena, ar condicionado que não dava conta daquela multidão em plena noite de verão.

Eu não queria estar ali. Prefiro sempre ficar com a família, em casa. Durante uns 25 anos da minha carreira, tive que viajar ao Exterior a trabalho em média 3 vezes por mês (sim, eu fiz as contas) e ficar fora de casa. Por isso, sempre que posso, evitei e evito eventos, festas, premiações, badalações.

Seguindo seu ritual, Roberto Carlos começou a atrasar o show, marcado pra começar às 21 horas, depois do jantar.

22 horas… 22:30 horas… 23 horas… e nada do Roberto Carlos. Apenas a banda dele tocando algumas músicas no palco, conversas, um clima misto de revolta, com expectativa e reverência ao Rei, a quem tudo se perdoa. E muito cansaço de todos.

Cochichei pro Altino que eu não estava aguentando aquilo, eu tinha chegado dos EUA naquela manhã e ainda não tinha conseguido ir pra casa. Altino deu a maior força: “Vai embora de fininho, sai à francesa. Eles estão aqui por causa do Roberto Carlos, não por sua causa.”

Pedi licença a todos pra eu ir ao banheiro e levantei-me da mesa.

Fui direto ao estacionamento, peguei meu carro e corri pra casa.

No dia seguinte, o presidente do cliente local me telefona: “Puxa vida, você foi embora, sumiu, não voltou. Perdeu um belo show, foi maravilhoso. O Roberto Carlos até cantou nosso jingle! O que aconteceu com você, Perci?”

Minha resposta: “Desculpe, mas eu tenho um péssimo hábito. Só faço cocô em casa (mentira). E eu moro longe (verdade).” Ficou tarde pra eu voltar.

Ainda bem que ele riu e tudo ficou por isso mesmo.

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