Alguém viu o peru do Altino?

Meu último post, semana passada, mencionava a história do peru do Altino.

Ela gerou muitas perguntas e pedidos pra eu contar esse Causo. Lá vai.

Difícil acreditar hoje em dia, mas já vivemos tempos de vacas gordas e perus gordos na nossa profissão.

Nós, diretores de grandes agências, no final do ano recebíamos ótimos mimos de fornecedores, veículos e até mesmo de clientes.

Nunca me esqueço de um queijo parmesão italiano, gigantesco, pesava algo como uns 10 quilos de pura delícia. Mesmo cheio de filhos em casa e amigos sobrevoando, o queijo durou meses.

Também inesquecível foi aquela mortadela italiana, igualmente gigantesca e deliciosa. Sem falar nas cestas de natal, uma fartura de produtos importados, coisas que nem eu, que viajava o mundo, havia experimentado.

O Diretor de Criação da McCann-Rio, homem de confiança da minha equipe, de repente recebeu um relógio Rolex de ouro caríssimo, de um fornecedor.

Saia justa. O fornecedor era parente de um grande cliente. Como recusar a oferta sem ofender?

Sugeri que ele entregasse o Rolex para o melhor funcionário do escritório, como exemplo de transparência e de meritocracia.

O Rolex foi entregue a um ex-office boy, que, pelo talento, empenho, esforço e performance, havia merecido ser promovido para o Departamento de Arte.

Cermônia de final de ano na agência, homenagens, discursos, emoções, o moleque recebeu o Rolex com lágrimas de gratidão e reconhecimento nos olhos.

Horas depois, o mesmo moleque, negro e magricela, derramou outras lágrimas, de indignação, ao ser preso na estação de trem pro subúrbio onde morava: a polícia pensou que um moleque daqueles só podia ter roubado o Rolex.

Hoje, presentes e mimos desse quilate não existem mais, pelo menos desse jeito. Tempos difíceis pra todo mundo. Tempos difíceis pra queijos e mortadelas importados, para paladares mal acostumados, pra relógios e presentinhos.

Hoje tem também “compliance”, transparência, conduta ética, pilares da justa e correta Governança Corporativa. Presentes desse porte podem ser confundidos com suborno, bola, bribe, quick-back, corrupção.

Há  uns 15 anos deixei de ser um diretor importante de uma das mais importantes agências do Brasil e do mundo, a McCann-Erickson, para ser um feliz consultor e assessor independente em Comunicação e Sustentabilidade. Não sou mais merecedor e perdi os privilégios do mercado, mimos, presentes, queijos e mortadelas ao final do ano.

Em contrapartida, agora no final de 2017, recebi de um cliente um e-mail geral e genérico a todos seus fornecedores, alertando que nenhum funcionário dele, cliente, estava autorizado a receber presentes ou brindes de fim de ano, de qualquer espécie ou valor. Nada pra ninguém, talvez apenas um beijo e um abraço, votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo. No máximo.

O e-mail sugeria que, ao invés do possível presente ou brinde, fizessemos uma doação para uma instituição social apoiada pelo cliente. Justo e honesto, sinal dos tempos.

Mas antes disso tudo, houve o peru do Altino.

Foi no começo dos anos 90, pelo que me lembro. Toda a Diretoria da McCann ganhou um imenso peru de um veículo. Foram uns 15 diretores e perus no total.

Modéstia à parte, o meu peru era o maior de todos. Mais parecia um filhote de avestruz.

Só que os perus foram entregues na agência na véspera das férias coletivas, último dia de trabalho do ano. Tínhamos combinado um happy-hour elástico, que começaria em um barzinho no fim do dia e terminaria ninguém sabia quando nem onde.

Cada um guardou seu peru no carro e fomos pro barzinho. Naquela tarde, o Altino estava sem carro e motorista: deixou o peru dele no carro de alguém.

No carro de quem? Se eu não me lembro, imagine se o Altino iria se lembrar depois da ronda pelos bares e casas de amigos, que fizemos até a madrugada.

O fato é que, no dia seguinte, a Yedda, eterna esposa e guardiã do Altino, perguntou pelo peru que ele havia dito ter ganho e que levaria pra casa.

Altino lembrava-se vagamente de ter deixado o peru no porta-malas do carro de alguém e não se lembrava de mais nada, nem de quem o havia levado pra casa.

Então começou a série de telefonemas: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Começou com a austera e comportada Yedda ligando pra um: “Alguém viu o peru do Altino?”

Depois, esse um ligava pra dois, esses dois ligavam pra três. Todos sempre com a mesma pergunta: “Alguém viu o peru do Altino?”

Isso tomou praticamente um dia inteiro e virou lenda na agência: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Finalmente descobrimos em qual carro estava o peru do Altino. E ele foi lá buscar, pra ter um gordo Feliz Natal.

Se alguém de vocês se lembrar no carro de quem estava o peru do Altino, por favor, me avise.

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