Guiado por mim, dirigido por Deus

Tive uma fissura no tornozelo direito num jogo de vôlei do Torneio da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda). Aquele spray analgésico mágico e uma botinha de esparadrapo me mantiveram em quadra até o fim do jogo, que vencemos.

Tirando proveito da minha estatura mental (porque a estatura física não passa de privilegiados 1,70 metros) e senso de liderança, eu era o levantador, articulador, estrategista do vitorioso time da McCann. Isso foi em 1986.

Fiquei uma semana de molho, engessado, imobilizado, trabalhando em casa. Depois a McCann me contratou um motorista temporário, até que eu pudesse voltar a dirigir.

Toninho Valadão, esse é o nome dele. Gente boa, bom motorista, jovem ainda, mas já pai de dois moleques. Desempregado, agarrou-se ao emprego temporário, sempre com muita paciência me tendo no banco ao lado como copiloto.

“Acelera, Toninho, você perdeu a chance de passar o sinal! Passa pra outra faixa, a da esquerda,Toninho, não tá vendo que esta aqui anda menos? Você não deu seta pra mudar de faixa… Mantenha mais distância do carro da frente, Toninho!”

Sempre gostei de dirigir, sempre dirigi bem e com segurança, principalmente depois de cursos de pilotagem profissional, que fiz com dois craques, Ciro Caires e Expedito Marazzi. Eles eram pilotos de prova da GM e da Goodyear, me ensinaram tudo pra eu trabalhar melhor nos projetos pra esses clientes.

Eu tinha direito, pela McCann, a motorista particular, mas sempre recusei.

Sexta-feira chuvosa, fim de dia, tipo 19 horas, Avenida Brasil congestionada, Toninho ao volante e eu enchendo o saco dele com minhas interferências de pilotagem. Depois de meses trabalhando comigo, aquele seria o último dia do emprego temporário dele.

“Você tem direito a motorista pela agência, não tem?”, de repente o Toninho me perguntou assim do nada. “Tenho, mas não quero”, respondi. “Não quero, não preciso, não gosto de alguém dirigindo ao meu lado. Além do quê, é um gasto inútil pra agência, um desperdício.”

Toninho: “Dá uma olhada nesse ônibus aí à direita”. Trânsito parado, um ônibus lotado de gente se espremendo pra voltar pra casa, debaixo da chuva, janelas embaçadas.

“Então, é nesse ônibus que eu estarei, na segunda-feira, voltando assim pra casa, depois de ter passado o dia procurando emprego pra sustentar minha família, dar estudo pros meus filhos. E você estará no bem bom aqui deste carrão – podendo me ter como seu motorista, mas você não quer.”

Gulp! Me caiu uma ficha gigantesca, que me silenciou até chegarmos na minha casa. E olha que eu morava e moro longe, na Granja Vianna. Foi um longo e silencioso caminho.

Na segunda-feira cedo, chamei o RH e mandei contratar o Toninho como meu motorista: emprego permanente e estável, salário normal de mercado, CLT, carteira assinada, todos os direitos trabalhistas garantidos.

E seguimos assim durante muitos e muitos anos: eu dirigindo o carro e o Toninho ao lado, no banco do passageiro, aproveitando a vista.

Há poucos meses reencontrei o Toninho, agora como motorista da diretoria de um grande ex-cliente meu. Ele me contou que o filho mais velho, Leonardo, há um bom tempo vive na Alemanha onde é… diretor de arte numa grande agência de lá. E que o caçula, Vinicius, também é diretor de arte, mas ainda trabalha aqui no Brasil.

Me senti de alma lavada.

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