Fui acordado por um crioulo vestindo uma cueca samba-canção

Fins dos anos 70, começo dos anos 80, por aí.

Como eu fazia várias vezes, num domingo à noite fui pro Aeroporto de Congonhas, ala dos voos internacionais.

Sim, naquela época, a gente ia de São Paulo até o Rio, pra só depois fazer uma conexão no Galeão pra um voo pro Exterior. Eu estava indo pra Nova Iorque, pra variar.

Voar Varig era tudo de bom na vida, principalmente na Primeira Classe. Poltronas excelentes, quase camas. Serviço de bordo mil estrelas, que a gente admirava também lá fora, vendo o céu da noite pelas janelinhas dos aviões Douglas DC 10-30, tipo widebody, um luxo de pioneirismo da Varig em tecnologia, conforto e mordomias.

Caviar, salmão, trufas, cardápio refinado em opções e sofisticação, garrafas congeladas de vodca Stolichnaya encrustadas em blocos de gelo, tudo o que havia de melhor no mundo em qualquer tipo de bebida. À vontade, sem restrições.

A única coisa ruim era a presença de autoridades, senadores, deputados, magistrados, que viajavam de graça, como cortesia da Varig. Havia também muito funcionário da própria Varig, viajando também na base da amizade, do apadrinhamento corporativo.

Eu passei a não me incomodar com isso. Simplesmente tomava minhas vodcas, também meu whiskey, me empapuçava de caviar e salmão. Virava pro lado e acordava em Nova Iorque.

Fui tomar um banho no Middletown Hotel, praticamente minha segunda casa, fazendo valer uma diária que eu havia inventado e que o Hotel havia aceitado: “2 hours and 1 shower”. Era o tempo pra eu me refazer da viagem e ir pra McCann-NY, a poucas quadras dali, pagando menos que uma diária normal.

Trabalhei a segunda-feira inteira em reuniões intermináveis e corri pro Aeroporto FJK, começando minha volta pra São Paulo no mesmo dia em que havia chegado a NY, com uma escala do DC 10-30 em Miami pra pegar passageiros lá.

Cumpri meu ritual das vodcas, do whiskey, do caviar e salmão, virei pro lado e dormi.

Era pouco mais de umas 5 horas da matina, já estávamos sobrevoando o Rio de Janeiro e sou acordado por um crioulo semi-nu, vestindo apenas uma cueca samba-canção branca com bolinhas vermelhas.

O cara cantava, braços abertos, dançando, celebrando a chegada à Cidade Maravilhosa. Ele caminhava pelos corredores da Primeira Classe, acordando todo mundo: “I feel good, I got you, I feel good… I feel nice, sugar and spice…”

Eu conhecia aquele cara e reconhecia aquela música.

Porra, era o próprio James Brown, que havia embarcado em Miami enquanto eu dormia!

Completamente bêbado, completamente chapado e completamente feliz, James Brown celebrava sua chegada ao Rio de Janeiro pra uma turnê brasileira.

Só me restou relaxar e curtir o show único, exclusivo, sincero e atípico. Pedi uma vodca com caviar para o café da manhã. Fazia o maior sentido.

Comentários

2 comentários

  1. Ana Clelia

    Quis fazer um comentário, mas passei por um crivo de censura, acredita? Depois comento pessoalmente. Bj, Perci.

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    1. Percival Caropreso

      Ana Clélia, jura por Deus? Ainda hoje? Beijão

      Responder

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