Elas decidem

Estamos em fins dos anos 70, quase entrando na década de 1980.

É a sala da moviola, da produtora Movie & Arte, do Paulo Dantas.

Já contei, mas repito pra quem ainda não leu nos Causos anteriores: moviola era uma mesa imensa, com pratos nos quais o filme em copião (imagens ainda em rascunho) era montado, quadro a quadro da imagem pacientemente, na unha. Um trabalho artístico artesanal.

Já é noite e somos umas 6 pessoas, incluindo o pessoal da produtora, o diretor do filme, o montador (hoje se chama editor), o Presidente e o VP de Marketing do Cliente, empresa líder em máquinas de costura. E eu.

O Presidente do Cliente gostou do filme, mas teve várias dúvidas aqui e ali, uma cena ou outra. E no todo também. Angústias nascidas de um briefing pouco claro e direcionador.

Será que as mulheres irão se identificar? Será que estamos passando o prazer da costura e o valor funcional da minha máquina (seus atributos e recursos técnicos)? Será que, no todo, o filme vai agregar valor emocional à minha marca, como pioneira nos lares brasileiros?

Temos uma longa discussão no puro achismo, acho que sim, acho que não, acho que talvez, acho que depende da intensidade de mídia, acho qualquer coisa.

Até que o Presidente do Cliente tem uma grande ideia: “Isso é assunto pra mulher! E minha mulher está lá embaixo na recepção, porque sairemos pra casa de uns amigos depois de terminar aqui. Vou chamá-la, pra dizer o que ela acha do filme.”

E chamou. A mulher disse um monte de asneiras, não falou coisa com coisa e, pior, comentou coisas fora de questão, que nem estavam sendo discutidas, embolou o meio campo, todo mundo ficou ainda mais confuso.

Aí eu também tive uma ideia: “Já que isso é assunto pra mulher, vou chamar a minha, que também está lá embaixo na recepção, porque depois sairemos pra jantar.” Pura verdade.

E chamei a Teresa, minha então mulher que, entre outras vantagens, era publicitária, tinha sido redatora e na época era produtora de filmes na Nova Films. Uma profissional do ramo. Numa troca de olhares comigo, a Teresa entendeu tudo.

Deixamos as duas sozinhas diante da moviola, com o diretor e o montador.
Nós, homens, descemos todos pra beber um uísque em outra sala. Em meia hora o filme estava aprovado.

Por elas, que se entenderam sobre costura e filmagem. Com a nossa concordância obediente.

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