O Top de 8 Segundos da Globo

Na foto acima, Octávio Florisbal , da Rede Globo, e Altino João de Barros, recebendo um de seus vários prêmios.

Altino João de Barros é Pai e Mestre da Mídia no Brasil, um dos criadores do I.V.C. – Instituto de Verificação de Circulação de jornais e revistas, do Grupo de Mídia, trouxe o conceito de GRP e tantas outras inovações para o mercado brasileiro. Sempre profissionalizando, reinventando o ofício da Mídia.

Mas, acima de tudo, gente fina, sangue bom e um grande professor.

1978, Copa do Mundo na Argentina, todas as cotas do patrocínio de transmissão pela TV já vendidas, boa parte delas para clientes da McCann. Mas a GM demorou para negociar e ficou de fora da Copa.

Altino estava mais inconformado que a própria GM e, imagine, mais inconformado que o Jens, presidente da agência, que não gostava de perder prestígio e, principalmente negócios, faturamento.

Eu era diretor de criação do então GRUPO GM e o Altino me levou à Rede Globo pra ver se encontrávamos uma saída, uma cota extra, uma sub-cota, uma semi-cota, uma cotinha.

Desde sempre o Altino trabalhou assim, junto com a Criação e o Atendimento e esta é mais uma de suas tantas virtudes.

Naquela época a Globo São Paulo ficava na Praça Marechal Deodoro, Rua General Olímpio da Silveira, por ali.

A gente entrava no térreo por um corredor cercado de salas envidraçadas, as suítes de transmissão, cheias de monitores, equipamentos, técnicos hipnotizados.

A caminho do elevador, lá nos fundos desse salão, de repente o Altino parou e entrou numa das suítes.

Ficou minutos olhando a tela do monitor menos interessante. As outras telas passavam cenas de novelas, futebol, propaganda.

Mas o Altino ficou lá um tempo olhado justamente a imagem de um ponteiro de relógio percorrendo um círculo preto, enquanto acontecia uma contagem decrescente: 8… 7… 6…. 5…

O Altino perguntou o que era aquilo e o técnico respondeu que era a contagem regressiva pra entrada da programação de todas as emissoras afiliadas em rede.

Todas as emissoras estavam naquele momento esperando chegar o ZERO! para manualmente abrirem suas ondas, receberem o mesmo sinal e se unirem numa programação nacional em rede.

E isso pode ir para o ar? perguntou o Altino. Pode, mas quem é que vai querer ficar vendo essa coisa na tv? respondeu o técnico.

Ali o Altino tinha criado o famoso ATENÇÃO EMISSORAS DA REDE GLOBO PARA O TOP DE 8 SEGUNDOS… UM… DOIS… (que depois caiu pra 5 segundos por razões comerciais).

A GM assinou e patrocinou esse primeiro Top, que abriu todas as transmissões da Copa de 78. Além das imagens dos carros intercaladas aos dígitos da contagem decrescente, depois havia um comercial de 30 segundos com toda a linha Chevrolet.

A campanha foi produzida pela Nova Films e dirigida pelo Claudio Meyer.

As pesquisas revelaram que a GM foi avaliada como top of mind na menção espontânea sobre “Qual a empresa patrocinadora oficial da Copa”.

E a McCann faturou mais um pouco, não só grana, mas principalmente prestígio profissional e comercial. Pioneirismo.

Até hoje o Altino modestamente diz que a história não foi bem assim, não foi ele que inventou o Top de 8 Segundos, etc. Ele afirma isso inclusive na sua própria biografia.

Mas eu estava lá e vi. Fui testemunha ocular, auditiva e deslumbrada dos fatos. Aprendi, como sempre todo mundo aprendeu com o Altino.

Perci, Altino e Ângelo

Aos berros

Em 1991 voltei pra McCann, no que seria meu último período lá. Ele durou até 2005, eu como Gerente Geral e Diretor Nacional de Criação.

Acreditando que nosso valor no ofício de comunicadores está em encontrar soluções de comunicação a partir da criação de pensamento, criação de planejamento, criação de mídia e criação de campanhas, tudo integrado, Helena (Pesquisa e Planejamento), Ângelo (Mídia) e eu passamos a dividir uma sala no Olimpo, o último piso, o andar da Diretoria da agência.

Depois de alguns meses senti necessidade, me deu uma vontade louca de conviver com minha equipe específica de Criação, umas 80 pessoas, no andar abaixo.

A área da Criação era quase um andar inteiro, um imenso salão sem paredes dividindo as equipes em suas estações móveis de trabalho. Todo mundo trabalhava com todo mundo que quisesse.

No fundo desse salão, uma gigantesca estante, uma verdadeira biblioteca, com livros e tapes/cds sobre comunicação, propaganda, promoção, anuários, referências internacionais e brasileiras.

Coloquei pra mim uma mesa de reuniões também gigantesca, bem em frente a essa estante-biblioteca: um mesão que era frequentado pelas duplas, pra batermos bola sobre caminhos criativos, avaliar primeiras hipóteses de conceitos e campanhas. Eu passava algumas horas do dia lá. Era eu de volta ao mundo da Criação.

Um dia chegou um garoto cheio de espinhas e cabelo espetado, desses que hoje comandam áreas inteiras de agências e anunciantes. Ele chegou bem pertinho de mim e berrou: “Me dá o último Anuário do Clube de Criação! Anuário do Clube de Criação!”

Estranhei, mas indiquei pra ele onde encontrar na estante.

No dia seguinte, o mesmo garoto chegou de novo até a minha mesa e berrou: “Você tem o One Director’s de 1991? O One Directors de 1991!” Eu mesmo fui até a estante, peguei o que ele havia pedido e perguntei: “Por que você berra tanto assim?”.

O moleque garoto, também aos berros: “Porque ele mandou!” e apontou para o Paulo Sabino, Diretor de um dos Grupos de Criação, que lá do outro lado do salão não se aguentava de tanto rir.

O garoto era um estagiário, recém-entrado na Criação. O Paulo Sabino disse para o garoto que aquele senhor de bigode lá no fundo do salão, naquela mesa grande em frente à estante, era o Revisor e Bibliotecário da agência. Mas como era totalmente surdo, o garoto teria que pedir bem alto e repetir várias vezes o que queria.

O garoto hoje em dia é um excelente redator e aprendeu a falar baixo.

Hoje quem escreve é Alexandre Braga: O dia em que o mundo acabou

Em finais de 1993 fiz parte de uma banca de profissionais, que avaliaria os TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso) dos últimos anistas da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Uma equipe de alunos me chamou a atenção pela qualidade do Pensamento, pela inteligência da Estratégia, pela Inovação nas Propostas, pela Riqueza das ideias criativas, pela Simplicidade, Objetividade e Clareza na apresentação. Tudo que a gente sempre espera de uma boa agência, principalmente nos dias de hoje, tão pobre de tudo isso.

Essa equipe tinha a Camila Cardillo (hoje Chef de Cuisine), o Anselmo Ramos (hoje um talentoso diretor de criação no Exterior, fundador da agência DAVID em Miami, Buenos Aires e São Paulo) e o Alexandre Braga (hoje dono de uma produtora no Rio, a Homem de Lata, na qual Alê escreve e dirige filmes e séries, cria conteúdo).

Dei nota máxima ao TCC deles e os convidei pra uma conversa na McCann.

Anselmo e Camila preferiram não trabalhar comigo na agência, tomaram seus rumos com sucesso. O Alexandre Braga veio pra McCann, no Atendimento.

Depois foi para um cliente, aprender como é a vida do outro lado do balcão. Voltou mais tarde pra McCann, onde seguiu carreira brilhante até chegar a ser Diretor de Geral da McCann Rio. Por uma razão muito simples: o Alê sabia e dava valor ao PENSAR CRIATIVAMENTE na sua época de Atendimento.

O Alê tinha ideias, como esta, abaixo, que ele próprio descreve:

“Foi no dia dez de agosto de 1999. O mundo iria acabar no dia seguinte, dia onze, teria dito Nostradamus, no momento do eclipse final e definitivo.

Como sempre eu estava com saudade do meu tempo como redator, mas nessa época eu estava ainda atendendo Chevrolet e começando a assumir outras contas.

Nesse dia estávamos, Gabi Guerra (diretora de arte) e eu, voltando da Unilever, pela Avenida Brasil. MasterCard patrocinava todos os canteiros centrais de plantas da avenida.

O assunto Nostradamus apareceu. E no meio das risadas eu olhei pra uma das plaquinhas “MasterCard preserva essa área”. Parei de rir e comentei com a Gabi: “O logo de MasterCard não lembra um eclipse?”. “É, lembra muito…”

Em menos de um minuto estávamos falando sobre livro de profecias de 20 reais, CD de meditação de 30 reais e chegando à conclusão de que descobrir no dia seguinte que Nostradamus estava errado… isso não tinha preço.

Chegamos na agência na hora do almoço e contamos a ideia para o Perci e para o Rafa Camacho, diretor que atendia a conta de MasterCard.

O Perci usou seu telefone mágico e em meia hora estávamos com todos os “big bosses” de MasterCard aprovando anúncio e filme, já leiautados lindamente pela Gabi. Afinal, era uma oportunidade única e talvez a última no mundo.

A mídia enlouqueceu, mas topou o desafio de montar o plano para entrar no ar no dia seguinte depois do eclipse. Em alguns países da América Latina até. Tudo em menos de 24 horas.

A produção toda era bem simples, no formato da campanha ‘Tem coisas que o dinheiro não compra. Pra todas as outras, existe MasterCard”. Filme e anúncio aprovados.

Os veículos pediram pagamento antecipado, porque Nostradamus poderia estar certo e o mundo acabaria mesmo no dia dez, antes da veiculação.

Mas o dia onze amanheceu tranquilamente e percebemos que o mundo não havia acabado. Nesse dia onze foi publicado o anúncio nos principais jornais e o filme nas TVs. Com direito a eclipse e tudo mais.

A mensagem central era algo como “Livro de profecias, 20 reais. CD com músicas de meditação, 30 reais. Incenso, 12 reais. Descobrir que Nostradamos errou e a vida continua, não tem preço”.

Causou o maior impacto, foi o maior sucesso, recebeu prêmios. Ideia de um profissional que era do Atendimento, em parceria com uma diretora de arte. Ninguém ficou exultante e cantando glórias demais, ninguém da Criação da conta ficou enciumado. Porque a ideia era excelente e dentro da estratégia de MasterCard, viesse de onde tinha vindo.

O Poliglota

Márcio Moreira, então Diretor Intergaláctico de Tudo no Sistema McCann Mundial, me mandou pra participar de um projeto global. Lá fui eu, em missão.

Alemanha, Frankfurt, Janeiro, 5 graus negativos. Mais frio dentro de mim do que lá fora. Direto do aeroporto, aqui estou na reunião de staff do nosso escritório local: 19 alemães + Gerry + eu.

Gerry é um americano midwest da gema, com quem trabalhei no Brasil anos atrás. Boa praça, fanático pelo nosso país, corinthiano instantâneo e detentor de um limitado vocabulário Português de sobrevivência, arduamente aprendido na marra em dois anos aqui. Muito precário em Português.

Recém- chegado à Alemanha, Gerry já está irremediavelmente inadaptado. Não queria ter sido transferido pra lá e fazia questão de deixar isso claro a todos, principalmente aos alemães.

Mas não podia perder a oportunidade de subir na carreira, o que provocou outra colisão frontal com os colegas locais aspirantes ao mesmo cargo. Eles não são antiamericanos: são anti-Gerry.

O Presidente dá as boas-vindas a mim, anuncia que trabalharei com a equipe alemã durante algumas semanas no projeto do lançamento mundial de um carro da Chevrolet/Opel. Fala em Inglês, impecável.

Agradeço também em Inglês, nada impecável, mas muito melhor do que meu Alemão, inexistente.

Começa a reunião. Todos reportam seus projetos, detalham os próximos passos, prazos, responsabilidades. Em Alemão!

Duas horas encantadoras, para mim e para o Gerry, que não entendemos nada. Se ele não conseguiu aprender Português em dois anos na boa-vida e hospitalidade brasileiras, seria impossível ele entender Alemão em tão pouco tempo e com tantos inimigos.

Fim da reunião, todos se levantam. Solenemente, Gerry pede licença para também dizer algumas palavras a meu respeito. Em Inglês: “Agradeço a vinda do Percival para trabalhar conosco nesse projeto. Já trabalhamos juntos no Brasil e acho importante explicar a vocês como melhor aproveitar estilo e o talento do Perci. Farei isso no idioma do seu maravilhoso país, que me acolheu como um filho”.

Aí Gerry muda para o Português. Quer dizer, muda para uma enxurrada de expressões do dia a dia, cujo som ele ainda vagamente lembra. E com sotaque.

“Não empurra, não empurra, cadeira cativa, setor azul, Pacaembu!”. Gerry diz isso com a eloquência de uma calorosa saudação.

Quase às lágrimas, não se contém nos elogios a mim: “Caipirinha, a minha sem açúcar e muito gelo, que horas são. Minha picanha é ao ponto e sem fritas, então tudo bem, vai se fode você, cara.”

Complementa: “Timão, Timão, Salve o Corinthians, campeão dos campeões!” – mas não canta, apenas fala veemente e categórico, como se estivesse afirmando algo sério.

E o gran-finale, apontando para mim, de forma eloquente: “Cumbica, me chama um carro, Rua da Consolação, tô sem trocado, que merda ser esta? Este campanha está uma porqueria!”

Depois de uma pausa emocionada, fecha o discurso dirigindo-se a mim, em Português: “Tudo bem, eu ferrou eles, fala verdade.”

Comovido, só me restou agradecer tão amáveis palavras, diante dos alemães, perplexos.

O Poliglota

Como ele acertou?!

Briefing: nosso creme de leite ENVOLVE COMPLETAMENTE AS FRUTAS.

Solução criativa, de autoria do Paulo Almeida, um dos chefes de criação nos anos 80 da McCann-Erickson: uma série de comerciais, em animação, com várias frutas sendo acolhidas, aconchegadas, abraçadas e envolvidas pelo Creme de Leite Nestlé em diferentes situações.

O comercial que abria a campanha foi recusado pelo então gerente de produto, como se chamava na época.

Em animação, um pêssego subia uma escada de circo, chegava num trampolim lá em cima, vendava os olhos. Rufar de tambores, expectativa e suspense. De repente o pêssego saltava no ar, dava um salto triplo mortal e aterrissava exatamente na lata do creme de leite, de onde saía todo lambuzado e envolvido, para os aplausos da plateia.

Razão que o Cliente deu pra reprovar o comercial: “Como é possível um pêssego de olhos vendados acertar em cheio e cair bem na nossa lata de creme de leite?! Isso é totalmente inverossímil. Nada crível”.

Mil discussões, prós e contras, argumentações lógicas e racionais minhas e do Jorge Gurgel, diretor de contas, até que o Paulo Almeida falou candidamente: “E você acha verossímil, você acha crível um pêssego subir uma escada, vendar seus olhos e saltar? Isso é só propaganda e é em animação, uma fantasia.”

De repente entra na sala de reunião o sábio e experiente Diretorzão de Marketing.
O Gerente de Produto explicou o roteiro e a razão de ele ter reprovado: “O senhor não acha inverossímil?”

“Não”, respondeu o Diretor. “O pêssego é nosso e ele faz o que a gente mandar ele fazer. Está aprovado.”

Foi um sucesso, graças ao feito olímpico do pêssego e outros malabarismos de figos em calda, morangos.

Um pouco de imaginação e menos lato-senso não fazem mal a ninguém.

 

Eu não conheço o Pelé

Sei lá em que ano foi isso, mas deve ter sido um pouco antes de eu sair da McCann de vez. Talvez 2004.

Lá estava eu tranquilo, em São Paulo, conduzindo mais um workshop estratégico criativo pra algum projeto latino-americano. Eram 8 duplas de diferentes países da região e eu no meu traje oficial, bermuda, camiseta regata e havaianas. Todos nós trancados há uma semana num hotel na Avenida Sena Madureira, bem pertinho da McCann, porque eu não aguentava mais viver em avião pra lá e pra cá.

De repente me liga o Márcio Moreira de NY, então vice-chairman de tudo, o pica-grossa da operação da McCann Mundial. Ele me pediu pra eu ir imediatamente a uma reunião delicada, de importância transcendental: intermediar uma negociação entre a uma conta global alemã e o Pelé pra uma campanha mundial.

Eu obedeci e fui. De bermuda, camiseta regata e havaianas. Era o que eu tinha para o momento de crise e emergência, não dava tempo nem de colocar uma camiseta normal e um tênis, o que seria o máximo de sofisticação indumentária pra mim.

A reunião era num suntuoso escritório do Pelé, na Juscelino Kubitschek. Tive que convencer a portaria e a segurança a me deixarem entrar e provar que eu não era um entregador de pizza. O Pelé detesta pizza.

No elevador apertado, entrei com uns 5 alemães engravatados e rígidos como apfelstrudels congelados. Silêncio total e olhos críticos na minha direção. “Por que esse cara não pegou o elevador de serviço?” imaginavam eles em silêncio.

Todos descemos no mesmo andar, nos apresentamos na mesma recepção, fomos encaminhados pra uma mesma sala de reuniões, nos serviram água e café e pediram pra esperar, que o Pelé já chegaria.

Tomei a iniciativa de me apresentar como Gerente Geral da McCann-Brasil e VP Internacional da McCann Mundial. Ninguém levou a sério. E o Pelé não vinha.

O apfelstrudel mais graduado resmungava: “Pelé is late, this is not acceptable, we’ve travelled just to meet and negotiate with him! Who he believes he is?!”

Eu timidamente respondi: “He is Pelé, and you’re paying millions of dollars to have him in your campaign.”

De repente, lá vem Pelé, adentrando a sala com desculpas, descalço e uma bata indiana azul-céu-claro, “I’m so sorry I’m late, understand?”

O apfelstrudel mais graduado imediatamente se derreteu, disse que não havia problema algum, pediu pra tirar uma foto com o Pelé. E um autógrafo, claro.

Aí o Pelé me viu, quietinho no fundo da sala de reunião. O Pelé gritou: “Perci!”. Correu na minha direção, me deu um puta abraço, me carregou no colo e me rodopiou pela sala.

Sentamos pra começar a reunião. O Pelé na cabeceira da mesa, o Pepito, eterno escudeiro do Pelé à esquerda, o apfelstrudel mais graduado à direita e eu logo depois, ao lado dele. Sem saber exatamente o que eu estava fazendo ali.

Cochichando pra mim, o apfelstrudel mais graduado me perguntou timidamente e surpreso: “Do you know Pelé?”

Eu respondi de forma bem blasé: “No, he knows me.”

Pra eles eu não expliquei, mas pra vocês eu explico. Meu pai morou a vida toda no Guarujá, era gerente do Hotel Jequiti-Mar e corretor de imóveis na Praia de Pernambuco, lá mesmo.

Meu pai vendeu uma mansão pro Pelé logo depois da conquista da Copa do Mundo no Chile e, desde então, o Pelé contratava meu pai como freelancer pra cuidar da casa, dos empregados, do jardim, da piscina, da geladeira sempre abastecida. E, sempre que podia, eu ia com meu pai nos encontros com o Pelé, eu ainda moleque.

Muito tempo depois, nos anos 80 e 90, contratei o Pelé pra campanhas de Coca-Cola, GM, MasterCard pela McCann. Voltamos a nos encontrar e continuamos a manter contato.

Daí a intimidade entre Pelé e eu no encontro com os alemães. A propósito, o projeto foi de uma campanha global criada pela equipe da McCann Frankfurt, mas produzida pela Planet Film e dirigida pela Flávia Moraes, com fotos do J.R. Duran para o material impresso. Foi um grande sucesso de vendas e satisfação sexual pra muita gente.

Mesmo em propaganda, realidade não é necessariamente percepção. Chega uma hora que os fatos falam mais alto do que qualquer discurso de autoelogio ou falsa aparência.

Foto de abertura by Alberto Ferreira (in memorian)

Três alternativas: por quê não?

Eu tinha um cliente importante, presidente de uma multinacional, poderoso.

Um cara até que legal, pero vacilante. Tá bom, não era tão legal assim, mas era vacilante.

Pra tudo ele queria 3 alternativas. Por definição e a priori, fosse o que fosse, tudo tinha que ser apresentado com 3 alternativas.

Mal sabia ele que, de cara, essa exigência já reprimia os neuro-hormônios da equipe, nosso tesão de criar.

Não nos preocupávamos em pensar e criar: tínhamos só que cumprir tabela de opções, 3 opções. Quem saía perdendo, sempre, era ele, o cliente vacilante.

Comentava-se que ele teria nascido em Santa Rita do Passa Quatro, mas fugira logo depois pra Três Corações.

Seu livro de cabeceira era a obra-prima Os Três Mosqueteiros, cuja leitura dividia com Os Três Porquinhos, colecionava LP’s do Trio Iraquitã, não perdia um filme dos Três Patetas, torcia pra qualquer tricolor e achava que o Brasil nunca precisaria ser Tetra-Campeão: Tri já estava bom.

Pra nós, era um inferno. Nosso trabalho criativo virava um extenso exercício de progressão geométrica aleatória.

Cabalisticamente, uma opção de anúncio acabava tendo 3 opções de título que, por sua vez, tinha 3 opções de condução de texto cada, 3 opções de layout cada, 3 opções de ângulos do produto, 3 opções de bocejos durante a reunião.

E assim foi, assim foi, assim foi, assim foi por algum tempo.

Chegou o primeiro grande dia: apresentação da campanha anual para toda a linha de produtos. Estavam lá toda a Diretoria do Cliente, mais de 15 executivos de todos os níveis, mais outros tantos da McCann.

Pacientemente eu fui apresentando, apresentando e apresentando, tudo em triplicata, 3 alternativas disso, 3 alternativas daquilo, tudo com 3 variações do mesmo tema e mais 3 variações de 3 outros temas, 3 várias campanhas pra vários diferentes produtos, diferentes meios, diferentes cenários de ação.

E o cliente sempre me perguntando: “Tem 3 alternativas?”

Coffee break depois de mais de 3 horas de reunião (claro), todo mundo se levanta, estica as pernas, espreguiça, relaxa.
Triplamente feliz com o andamento da apresentação, o cliente segura todo mundo na sala e, animado, pede pra platéia: “Ah, eu tenho uma piada nova pra vocês!”

Eu nem deixo ele começar: “Não! Eu quero ouvir 3 piadas de você. Depois escolho de qual vou rir …”

A reunião acabou aí. Minha trajetória com esse cliente também acabou aí, em três tempos.

Ainda bem que a McCann me ofereceu 3 opções de trabalho, eu escolhi uma e virei Gerente Geral da operação toda da agência. Pra esse cliente, passei a atuar apenas nos bastidores.

Mãe é mãe

Estamos em um ano que não me lembro, mas é época de mais um dos enésimos relançamentos do bom e velho Opala. Talvez 1982.

A frente do carro muda radicalmente, e nada mais de novidade. Paulo Almeida, criador da McCann-Erickson, apresenta o filme para o Grupo de Contas, Pesquisa, Gerência da agência. O filme é assim:

Noitinha, bairro bem tranquilo, rua arborizada, casas geminadas, jardinzinho na frente. Um Opala invade a entrada lateral de uma das casas, como que querendo estacionar na garagem. É o marido, chegando de carro novo, fazendo surpresa para a família. Buzina.

Mulher vem à janela e não consegue enxergar nada, ofuscada pelos faróis altos.

Apavorada, ela liga para a polícia, conta que tem um carro estranho tentando entrar na garagem dela. Ela descreve o carro para o policial, em detalhes. Ela vai se encantando com as linhas, aerodinâmica, beleza do carro. A câmera revela o novo Opala, mostra a nova frente, o design. Fim do comercial.

Decisão da Pesquisa é inquestionável: Polícia é uma instituição com graves problemas de imagem e só trará associações negativas à marca Chevrolet Opala. Vale lembrar que estávamos recém saindo dos anos de chumbo da Ditadura.

Mas a ideia é boa. Então vamos mudar: será melhor que a mulher telefone para mãe dela. Mãe é uma figura mais positiva, inspira confiança, dá credibilidade e agrega traços afetivos ao Chevrolet Opala.

Não adiantam as argumentações: sai a Polícia, entra a Mãe no comercial.

Dias depois, apresentação para diretoria da GM. Paulo Almeida conta o filme.

Noitinha, bairro bem tranquilo, rua arborizada, casas geminadas, jardinzinho na frente. Um Opala invade a entrada lateral de uma das casas, como que querendo estacionar na garagem. É o marido, chegando de carro novo, fazendo surpresa para a família. Buzina.

Mulher vem à janela e não consegue enxergar nada, ofuscada pelos faróis altos. Ela liga para a positiva, confiável, crível e construtiva mãe.

Conta que tem um carro estranho tentando entrar na casa dela. Apreensiva, a ilibada mãe recomenda: “Esse negócio de carro estranho tentando entrar na sua casa não me cheira bem. Liga logo para a polícia, filha!” Resignada, a mulher desabafa: “Não posso, mamãe, a Pesquisa não deixa …”

O filme foi produzido pela Nova Films, dirigido pelo Claudio Meyer, um belo lançamento. Com a mulher ligando para a Polícia mesmo.

Afinal, a pesquisa tem que ser sensível, inteligente e sempre a favor da ideia.

Da me un Cornetto!

Isso foi no fim dos anos 80 e foi, desde o começo, tudo muito bizarro.
Naqueles tempos não se podia simplesmente importar comerciais e colocar no ar.
Havia todo um processo de legalização que, invariavelmente, culminava com a refilmagem do mesmo roteiro no Brasil, com profissionais, recursos e equipes nativos.
O Maurice Cheyney, diretor do grupo de contas, ficava revoltado com isso.

Mas lá lá fomos nós pra Veneza, refilmar rigorosamente igual ao comercial inglês da campanha mundial (ainda não se falava “global” naquela época) do sorvete Cornetto, da Gelato, hoje Unilever. A adaptação brasileira ficou a cargo do Fernando Leite, um dos nossos diretores de criação, e sua equipe.
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O Ivo traiu quem?

I’ve tried do reach you all day long with no success to discuss important issues. Let’s have a working lunch tomorrow at noon. Don’t miss it!”. Ou algo por aí, mais ou menos assim, faz tanto tempo, foi em meados dos anos 80.

Este foi o memorando interno que o novo Gerente Geral da McCann-SP, Raymond Krivicky, um americano de ascendência ucraniana, enviou para o Erazê Martinho, redator do Grupo Chevrolet. Foi com cópia pra meio mundo na agência, inclusive pra mim, Diretor de Criação e chefe do Erazê. Entendi o recado: o novo Gerente Geral estava puto com o Erazê, que não falava uma palavra em Inglês, se bem que eu sabia que o Erazê falava Inglês sim, mas se negava.
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