Escrito em 2008: Seja egoísta e se dê bem

Estou aqui no gramado da Casa do Sol, sentado debaixo de uma árvore, cujo nome não sei, sob as sombras pequenas de crianças, cujos nomes, apelidos e manias sei de cor, uma a uma.

Elas vêm correndo me dar um beijo, ou pedir um beijo no dodói, ou querer mexer no meu notebook, ou puxar meu bigode, ou apenas ver se eu continuo junto delas.

Hoje é domingo, dia em que os pais dos órfãos da Casa do Sol visitam seus filhos.

Casa do Sol

Sim, os pais dos órfãos. Como a imensa maioria das crianças em situação de risco social no Brasil, as crianças da Casa do Sol também têm pai, mãe, parentes, mas são órfãs na vida. Órfãs de respeito, de dignidade, de cidadania, de atenção, de oportunidades, de sonhos. São órfãs de todos nós.

A Casa do Sol nasceu sem querer, meio que por acaso. Fica fácil e bonito teorizar agora, tanto tempo depois. Ela surgiu em 1994, resultado de uma convergência espontânea de sentimentos, conscicência, vocações, convicções, emoções e sensação de culpa.

A motivação foi mais emocional do que de consciência propriamente dita. Minha família e alguns amigos tínhamos compaixão e indignação com a injustiça social ao nosso redor. Tínhamos também dinheiro, tempo, saúde e energia disponíveis.

Daí em diante, boas coincidências foram surgindo. Quando nos demos conta, a Casa do Sol já abrigava, em regime de internato total, crianças carentes da região de Cotia, município da Grande São Paulo.

Hoje aqui vivem 23 crianças, nossa lotação máxima por decisão judicial. Ao longo desses onze anos, já tivemos o privilégio de acolher, cuidar, conviver, interferir no presente e sonhar com o futuro de  quase 300 crianças.

(Tivemos que encerrar as atividades da Casa do Sol em 2012 e, no total, cuidamos de quase 500 crianças e apoiamos muitas de suas famílias ao longo desses 18 anos bem vividos por todos.)

Até pela falta de instituições que aceitassem recém-nascidos aqui por perto, acabamos nos especializando em receber crianças saídas da maternidade, os bem miudinhos, de um dia a 6 anos de idade. É a chamada “Primeira Infância”.

É na Primeiríssima Infância, de zero dias a 3 anos, que o cérebro forma e define a estrutura neurológica, a capacidade emocional, relacional, cognitiva das crianças, que elas levam pra sempre na vida. Depois, até os 6 anos, isso se consolida. Vivenciar tudo isso na Casa do Sol, não só me fez aprender muito, como me ajudou, anos depois, em projetos com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que trabalha exatamente com a Primeira Infância e suas Políticas Públicas.

As crianças chegam até nós através da 3ª Vara Judicial da Infância e Adolescência, do Fórum de Cotia. Cada história é uma história, mas é a mesma: abandono, negligência, maus tratos, abusos de todo tipo.

As crianças ficam conosco enquanto dura o processo judicial, que dá rumo à vidinha delas: reintegração à família ou adoção.

Enquanto isso, nós as tratamos como tratamos nossos filhos – na base do carinho, do colo, do dengo e da autoridade firme. Elas aprendem a conviver, a respeitar, a partilhar, a serem amadas e a amar.

Fazemos o maior esforço pra balancear o amor caseiro, que sabemos ser temporário, com os fundamentos e as bases de uma educação pro resto da vida, capacitar e equipar as crianças pras seus futuros, longe de nós.

Tentamos desenvolver a autoestima, ensiná-las a sonhar e a correr atrás do sonho com suas próprias pernas. Tomamos muito cuidado pra não cair na tentação do assistencialismo piegas, de curto prazo. Do cuidar pelo cuidar.

Queremos que nossas crianças tenham, já, qualidade emocional de vida e que se preparem pra buscar, elas mesmas, essa qualidade no resto de suas vidas.

Além das crianças que abrigamos, temos um consultório médico-odontológico, que cuida de mais de 380 crianças e algumas famílias carentes da região, todas cadastradas e atendidas com hora marcada, direitinho, por profissionais voluntários e profissionais servidores públicos de Cotia em convênio com a Prefeitura e Conselho Tutelar.

Mas não atendemos de graça, todos têm que contribuir com alguma coisa: verduras, legumes, ovos, panos de prato com bordas de crochê, serviços voluntários.

Todos pagam com orgulho, com algo que é deles, que os valoriza, que respeita sua dignidade individual, que não os submete à condição de carentes recebendo um favor, uma ajuda, assistencialismo paternalista.

Mas as crianças não são tudo. Eu vejo, aqui no gramado, suas mães e seus pais felizes e aliviados por encontrarem os filhos crescendo fortes, com boa cabeça, protegidos e em segurança, sem grandes traumas a curto prazo.

Alguns pais se mostram arrependidos, outros começam a adquirir consciência, juram que estão se empenhando pra se aprumar na vida e merecer os filhos de volta.

Claro, há os pais indiferentes a tudo, mas até esses parecem felizes, pelo menos nesses episódicos momentos com os filhos, aqui na Casa do Sol, eles vivem algo que nunca puderam ter.

De repente, o Roberto aparece, entristecido com a ida do Robinho, jogador revelado pelo Santos, pra Espanha.  O Roberto é santista roxo, cuida da limpeza pesada, do quintal, dos pequenos consertos, ajuda na horta, abre e fecha o portão, dá mamadeira quando precisa, cobre a falta de alguém na lavanderia, dá comida na boca dos menores, troca fraldas e dá banho, faz tudo. Faz tudo com prazer, com alegria.

Antes de vir pra Casa do Sol, o Roberto estava sem emprego nem rumo fixo, desacorçoado e sem perspectiva na vida, solteiro, morando de favor.

Hoje, ele tem registro em carteira, uma profissão, um salário digno, um endereço, um bando de amiguinhos que o chamam de tio. E tem muito orgulho, não do emprego, mas do trabalho que faz.

Como o Roberto, na Casa do Sol tem a Andrezza, o Jaime, a Maria, a Xuxa, a Dodô… Ninguém quer sair daqui por nada deste mundo. Todos cresceram como pessoas, tornaram-se cidadãos.

Vendo esses grandões, brincando no meio das crianças de um jeito que não se sabe quem é mais criança, eu me alegro por estamos contribuindo pra qualidade de vida desse povo, também.

Mas minha família e eu somos os verdadeiros e grandes beneficiados pela Casa do Sol. As crianças nos fazem um bem imenso, nos dão um misto de paz com orgulho discreto, de calma com sensação de dever cumprido, de emoção com  certeza de estarmos sendo úteis e construindo algo.

Começamos movidos pela emoção e senso de justiça, como uma forma de retribuir à vida todos os privilégios que temos. Mantivemos a compaixão e a paixão, mas passamos a profissionalizar a generosidade, adquirimos consciência, demos forma à responsabilidade, conteúdo e estrutura à solidariedade.

Recomendo algo semelhante a todos, nem que seja por interesse próprio ou egoísmo: participar faz bem pra gente.

Fotos: Rômolo Megda

A triste história do passarinho rebaixado a General

Foi um mau presságio, aqui pros lados da Granja Vianna, que é a parte chic e privilegiada do município de Cotia.

Há 16 anos vim viver numa Alameda. Uma Alameda com nome de passarinho: Tangará. Há uns 5 anos tudo mudou.

A Alameda Tangará mudou de patente, de posto e de nome: foi condenada a ser Rua e não mais Alameda. Foi rebaixada pra Militar.

Mudou de nome: Rua General Fernando Vasconcellos Cavalcanti Albuquerque. Com todo respeito ao General em questão, que nem conheço porque não achei sua biografia na internet, foi o começo do fim e ninguém se deu conta no início de tudo. Nem eu.

Essa alameda-passarinho era uma rua estreita e sem saída, mas era uma saída para um lugar bonito, tranquilo e em paz, depois de uma estrada penosa, a Rodovia Raposo Tavares.

Hoje essa rua-general é uma formação em ordem-unida, ao longo da qual se perfilam poucas árvores, muitas obras e máquinas, muitos carros estacionados irregularmente.

Hoje essa rua-general sai de uma pseudo-rodovia, a mesma Raposo Tavares, agora uma avenida lenta. Essa rua-general se inicia em um shopping , que está ao lado de um hipermercado, e vem terminar aqui em cima, depois de se estreitar em 1.250 metros de paralelepípedos, um piso permeável, que ainda insiste em absorver a água das chuvas. Um piso que vai acabar logo, porque vem se deformando com o tráfego de caminhões, betoneiras, guindastes gigantescos.

Os últimos metros da ex-alameda e atual rua, por enquanto continuam ladeados por paineiras, cujos flocos nevam de várias cores o caminho em plena primavera tropical. É aqui que eu moro e vivo.

Quem consegue chegar até essas paineiras, enfrenta o transtorno de obras recentes de lançamentos imobiliários. Três? Quatro? Talvez cinco ou mais empreendimentos.

Tanto faz, porque todos eles destroem as promessas que suas próprias propagandas apregoam: Verde, Paz, Tranquilidade, Vida junto à Natureza.

Fico imaginando a vista panorâmica que esses novos granjeiros terão: os quintais de serviço, os varais de roupa, os canis, os fundos das casas de condomínios contíguos, grudados uns nos outros.

Fico pensando de onde virão a água, a energia elétrica, o saneamento, a coleta de lixo, os serviços de correio, as linhas telefônicas, as bandas largas para esses nossos novos vizinhos – afinal tudo isso já nos é escasso e precário hoje.

Fico pensando nos mais de 500 novos carros que circularão todo dia, subindo e descendo a estreita alameda-passarinho que virou rua-general.

Fico pensando nos novos carros, como colegas de asfalto, estáticos e apáticos, engrossando os congestionamentos da Raposo Tavares.

Para denunciar e minimizar a devastação, tentei, de todos os jeitos, usando meu networking com ongs socioambientais e com a mídia, mas a pressão e as denúncias não deram em nada. Nem com as autoridades locais, com a Polícia Florestal ou com outros moradores, vizinhos omissos.

A única vantagem é que a fauna veio buscar refúgio aqui no meu quintal, ainda protegido e farto de vegetação. Saguis, saruês, tatus, lagartos, gaviões, quero-queros, tucanos, anus, bem-te-vis, maritacas, colibris, sabiás, pombas-rolas, pardais, caga-sebos e vira-bostas, pássaros de toda espécie e tamanhos. Inclusive tangarás, claro.

Eles me ajudam a controlar mosquitos e outras pragas, a fecundar meu quintal gerando mais vegetação e, portanto, mais água.

Fico pensando na mensagem do Instituto Socioambiental, o ISA, uma ong séria, que diz: progresso, sim, mas não a qualquer preço.

Fico pensando naquela mensagem de outra ong séria, o Greenpeace: não é esta nossa geração que queria transformar o mundo nas décadas de 60 e 70?

Parabéns, todos nós conseguimos. Por atos ou omissão.

Os metros sobreviventes da Tangará

(Escrito em 2009): Tá faltando sustança

Ando meio cansado dessa conversa de Sustentabilidade.

Na esquina da Rua Alvarenga com o começo da Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, um jovem berra: “Olhaí, simpatia, tem que ser sustentável todo dia!”. E pendura no retrovisor do carro um saquinho de balas:

Sustentabilidade

Um jovem senhor desempregado ganha a vida na esquina da Av. Faria Lima com a Av. Cidade Jardim, reduto da abastança mais do que da sustança, também em São Paulo. Na sua van, um cartaz: “Sanduíches duplamente sustentáveis: sustentam seu estômago e sustentam minha família”.

Até que é boa essa banalização da Sustentabilidade no nosso dia a dia. Pelo menos é melhor do que o uso e abuso da Sustentabilidade nos discursos, propagandas, releases e preces. Sobram palavras, faltam ações concretas.
A Sustentabilidade de verdade é prática: está na revisão do modelo mental e do modelo de gestão, de operação das empresas.

Isso é simples, porque Sustentabilidade é um dos gestos mais antigos e instintivos da Humanidade.

Significa sobrevivência hoje, com a visão de sobrevivência futura. Vem do Latim: SUSTENTARE, manter firme a partir da base. Como o sutiã (soustien). Ou como a gente sustenta nossa família, mantendo os filhos firmes hoje e preparando-os para o futuro a partir de alicerces, fundamentos básicos: proteção, alimentação, saúde, educação.

Um artesão da Idade Média já garantia a sustentabilidade do seu negócio através da compra mais eficiente de matérias-primas, do aumento da produtividade da sua oficina, da melhor distribuição possível da sua produção, de uma conta positiva entre o que ele gastava para produzir e o que ele ganhava com a venda.

Sua visão de futuro só enxergava a preparação de seus filhos para tocar o negócio dali a alguns anos. Já era uma gestão sustentável para a época, na medida em que o negócio prosperava no presente e tomavam-se cuidados básicos para ele continuar prosperando no futuro.

Pouco importava se a água contaminada de resíduos de cobre era despejada no riacho atrás da oficina, que iria chegar até a aldeia lá embaixo. Se árvores eram abatidas para alimentar a fornalha, cuja fumaça jogava fuligem e poluía a aldeia toda. Se a mão-de-obra era praticamente escrava, inclusive com trabalho infantil.

O que vem mudando há séculos é a grande escala desses impactos todos na vida das pessoas e no meio ambiente.
Vem aumentando também o nível de pressão que as empresas recebem para provar seu valor através de práticas concretas de gestão sustentável nos seus negócios e os resultados disso. Os públicos de interlocução estão cada vez mais complexos e exigentes, além da legislação, mais rigorosa.

Esses interlocutores querem ver mais sustança na prática.

Sustentabilidade

Azeitona com tangerina

A Casa do Sol foi o que, na época, se chamava de “orfanato” e hoje se chama de “casa de abrigo” ou “casa de passagem”. Mantivemos, com a ajuda de amigos, a Casa do Sol ao longo de 17 anos e atendemos a quase 500 crianças e seus pais destituídos. Minha família e eu reformamos uma chácara na periferia de Cotia e a transformamos num lugar seguro e confortável, para acolher crianças desde o nascimento até os 6 anos de idade, em situação vulnerável, de risco social. Crianças órfãs da sociedade, de todos nós.

Elas chegavam à Casa do Sol pelo Fórum, pela Vara da Infância e Juventude de Cotia.
E lá ficavam até que a Justiça decidisse seu destino na vida: retorno à família, entrega a parentes distantes, adoção.

Um belo dia, lá chegou a Azeitona. Uma negrinha, tão negra que era quase azul. Olhos negros esbugalhados, assustados, imensos. Gordinha, rechonchuda, parecia mesmo uma dessas carnudas azeitonas pretas espanholas. Deveria ter dois anos e poucos meses, na nossa avaliação (ela não chegou com certidão de nascimento).

Andava, corria, respondia aos estímulos, saúde perfeita, mas um problema: a Azeitona não se comunicava, não falava, não ria, não chorava, não reclamava, não se alegrava, nem demostrava sentimentos. Não brincava com as outras crianças, sempre isolada.

Eu dava plantão na Casa do Sol todo domingo. Domingo sim, domingo não, era dia de visita da família das crianças, quando autorizadas pelo Fórum.

Num desses domingos que não era dia de visitas, alguém bate no portão. Abro a escotilha, aquela janelinha de segurança, e me enfiam o cano de um 38 na testa. “Abra esta merda, eu vim ver minha filha”.

Antes de me borrar na bermuda, perguntei quem era a filha e informei que aquele domingo não era dia de visitas. Bobagem minha: “Caguei pra dias de visita, eu só quero ver minha filha”. E contou que a filha dele era a Antônia ou Azeitona, com o cano do 38 ainda na minha cara.

Eu disse que ele não poderia entrar, que eu iria buscar a menina, trazê-la pra fora e ele, o pai do revólver 38, poderia ficar com ela na calçada por alguns minutos. O cara topou.

Fiz isso. Mas antes, pedi pras funcionárias da Casa do Sol ligarem pra polícia. Afinal, o pai da Azeitona era um dos líderes do tráfico de drogas na região e procurado, com mandado de prisão e jurado de morte pelas outras gangues.

Do lado de fora da Casa do Sol, uma cena inimaginável. O traficante, a Azeitona e eu sentados na calçada. O cara vestia apenas um short cor de rosa decorado com um 38 na cintura, camiseta regata e chinelos de dedo. A uns 100 metros dali, 3 capangas dele, com fuzis, vigiavam a área.

O pai da Azeitona tirou do bolso uma pequena tangerina bem madura, descascou devagar, com calma e carinho. E foi dando pra Azeitona, gomo a gomo, conversando com a filha. E a Azeitona começou a responder, a falar, a sorrir pela primeira vez.

Eu pedi desculpas, mas tinha que ir ao banheiro. Corri o risco de deixar a Azeitona e o pai na calçada, voltei pra dentro da Casa do Sol, pedi pras funcionárias cancelarem a chamada pra polícia. Tarde demais. Elas já haviam ligado.

Voltei pra fora e avisei ao traficante que eu havia chamado a polícia, em legítima defesa e em defesa da Azeitona. Pedi que ele fosse embora o mais rápido possível.

O cara ficou um misto de indignado e agradecido: “Valeu, te devo essa, seu filho da puta. Vi minha filha de novo e você me salvou a tempo. Essa casa aqui agora tá sob minha proteção, nunca ninguém vai assaltar aqui. Cuida bem da minha filha.” E fugiu com os 3 capangas. Eu levei a Azeitona, que agora não parava de falar, pra dentro da Casa do Sol. Esperei a polícia chegar e disse que o bandido já tinha ido embora.

Quem eu traí? A polícia? O bandido? Eu mesmo? Tenho certeza que honrei a Azeitona.

Sei que temos problemas coletivos pra consertar estruturalmente, problemas sociais graves no todo, transformações políticas, discussão de uma Assembleia Constituinte para a criação de uma nova Constituição, reformas no sistema eleitoral, no modelo econômico, na criação de uma sociedade futura mais justa, inclusiva e equilibrada. Tudo macro, de longo prazo e longo processo.

Temos que lutar nesse longo prazo das grandes transformações estruturais.

Enquanto isso, nos caem no colo vidas individuais e imediatas, pras quais não podemos fechar os olhos.

Meses depois, a Azeitona foi adotada e leva com ela essa história pra sempre, pra vida toda, mesmo que não se lembre.

Casa do Sol

(Escrito em 2008) Você é famoso?

Eu sou.

Minha mãe me acha o máximo, minha mulher me ama e me admira, meus filhos me amam e por enquanto me admiram (logo deixarão de me admirar, pra voltar a me admirar anos mais tarde), sou popular entre os amiguinhos deles, meus sobrinhos me adoram, essa galera toda não sai daqui de casa, tenho poucos ótimos amigos e muitos ótimos colegas, os vizinhos me cumprimentam por dever de civilidade e talvez apreço, a turma do bairro se acostumou comigo há mais de 20 anos.

Conheço muita gente, muita gente me conhece. Sou conhecido até por quem me detesta. Sou famoso, enfim.

Aposto que você também é, afinal todo mundo é famoso. Todos temos nosso círculo de influência, maior ou menor.

A questão é o quê a gente faz com esse poder que temos de influenciar quem nos conhece. E como a gente usa esse poder.

Conteúdo e forma determinam nosso tempo de notoriedade e de poder.

Imagine uma figura pública, uma pessoa célebre. Seu campo magnético de influência, que atrai atenção e emana mensagens, é gigantesco. Portanto, sua responsabilidade é proporcional.

Todo mundo espera que a Celebridade faça um gesto, para gente seguir ou para criticar. Até aí, tudo bem. Porém o tempo de toda Celebridade é curto, já que o sucesso é um bem cada vez mais descartável.

Aquela história de 15 minutos de fama é coisa do século passado: hoje uma das maiores atrações da TV é o “Se vira nos 30”. Se virou e pronto, acabou.

Os 15 minutos de antigamente hoje são uma eternidade, consumida na disputa entre sons e imagens de muitos clips de várias músicas, uma profusão de emails, MSNs, Facebook, Instagram, Twitters a granel, short messages com sintaxe e léxico breves, textos tanto na tela do computador como na tela do celular, na verdade um computador ansioso e esquizofrênico, que tira fotos e de vez em quando até serve pra falar com alguém ou todas pessoas ao mesmo tempo.

Toda Celebridade tem a oportunidade de se posicionar socioambientalmente, porém não esquecendo que o engajamento significativo e transformador pressupõe um compromisso duradouro, de longo prazo. Muito além de 15 minutos.

A associação CELEBRIDADE & CAUSA SOCIOAMBIENTAL não pode ser um adereço extrínseco e oportunista, portanto tão efêmero quanto a fama. O correto é fortalecer a imagem pública, construir intrinsecamente uma imagem socioambiental, de dentro para fora da Celebridade.

É um processo delicado e tem que ser verdadeiro.

Acredito que vimos observando pelo menos cinco maneiras clássicas de as Celebridades abraçarem Causas Socioambientais. Uma não exclui a outra.

Por inércia. Do jeito que o mundo e o mercado vão, é mais do que natural que uma Celebridade acabe aderindo, aqui e ali, no varejo imediato, a uma ou mais Causas Socioambientais. Por melhores que sejam as intenções, geralmente é um namoro de verão, passageiro, que vai no embalo: não constrói relação séria com Causas Socioambientais nem resultados duradouros para elas. Não há má fé, necessariamente. Mas há leviandade ingênua. Pela própria ausência de motivação consciente, essa postura socioambiental agrega pouco valor estrutural à sua imagem pública.

Por gratidão. A Celebridade reconhece o sucesso que atingiu e sente-se no dever de retribuir. A energia que movimenta essa gratidão quase sempre é assistencialista, quase um dízimo por uma graça alcançada. Esse engajamento costuma se esgotar repentinamente, quando a dívida é quitada ou quando a Celebridade começa a perder prestígio. Agrega valores apenas emocionais à sua imagem pública.

Por compaixão. Bastante similar e quase sempre uma evolução da modalidade anterior, o engajamento por gratidão. A Celebridade resgata questões humanas que a tocam como pessoa e adere a Causas Socioambientais pungentes, nascidas de sua própria história de vida. Essa carga de autenticidade pessoal costuma levar a compromissos mais duradouros. Porém também agrega valores mais emocionais do que ideológicos à sua imagem pública.

Por marketing. Há prevalência de técnicas racionais e objetivas na decisão de a Celebridade apoiar Causas Socioambientais. Se a adesão é planejada, ela tem tudo para ser consistente ao longo do tempo. Os impactos tendem a ser mais efetivos, tanto para as Causas Socioambientais apoiadas como para a imagem pública da Celebridade. Desde que haja veracidade nessa adesão.

Por consciência. Quando a Celebridade se engaja com Causas Socioambientais a partir de um conhecimento profundo dos problemas e de suas soluções. Reconhece a importância da questão socioambiental, sua relevância para sua vida e para a vida de todos. A decisão de oferecer seu apoio e imagem é lúcida, consciente e, portanto, comprometida. A Celebridade escolhe claramente seu papel de chamar à atenção, informar, sensibilizar, conscientizar e mobilizar a sociedade. Seu aval é forte, os impactos que ela causa são fortes e tudo isso fortalece a imagem pública da Celebridade.

Minha empresa, a Setor 2 ½, desenvolveu uma ferramenta que sistematiza a criação do que chamamos de ID 2 ½ .

Leva em conta, atribui pesos e equilibra as dimensões de Inércia, Gratidão, Compaixão, Marketing e Consciência. Não necessariamente nesta ordem. Os resultados da aplicação da ID 2 ½ são foco e eficácia.

A ID 2 ½ fundamenta as razões pelas quais a Celebridade passa a ter uma atuação socioambientalmente responsável. Legitima a escolha da Causa apoiada pela Celebridade. Cria vínculos sinceros e honestos, de pertinência entre a Celebridade e a Causa. Disciplina a atuação concreta da Celebridade, para que ela seja a mais produtiva e eficiente. Afere resultados que a Celebridade vem de fato gerando para fortalecer a Causa.

Todos somos famosos à nossa moda.

Cada um é do seu jeito, mas a atitude tem que ser a mesma: seriedade, rigor e comprometimento com que nos entregamos a uma Causa Socioambiental.

Caso contrário terá valido apenas para nós mesmos e não é esta a ideia.

(Escrito em 2001) Brincando de Casinha

Uma amiga me contou que sua filha de 10 anos negou-se a arrumar o quarto e recolher a toalha largada no chão depois do banho. “Mãe, você não viu o filme na TV dizendo que criança não pode fazer trabalho de casa? Eu conheço os meus direitos!”

Na época, final dos anos 90, a TV estava veiculando um comercial da Fundação Abrinq e da OIT – Organização Internacional do Trabalho – criado voluntariamente pela minha equipe da agência McCann. Ao mesmo tempo, nessa época, eu era Conselheiro da Fundação Abrinq.

A mensagem filme era simples e clara: alertar para a crueldade que é trazer crianças para dentro de casa e fazê-las trabalhar, digamos, como mini-domésticas, mini-babás.
O salário dessas crianças também é mini: teto, cama, roupa, comida e uns trocados.

Muitos, sinceramente, podemos acreditar que estamos praticando uma boa ação. Afinal, essas crianças poderiam estar nas ruas, mendigando, traficando, vendendo-se para o crime e para o sexo.

O engano é este: famílias que abrigam crianças carentes e as põem para trabalhar em casa estão roubando.

Roubando a chance de essas crianças estudarem, de crescerem junto de suas próprias famílias, de brincarem. Roubando a infância delas, a chance de elas serem crianças. Roubando o seu futuro desde já.

Imaginem a cena: uma menina pobre, eternamente agradecida àquela família que a acolheu, passando aspirador na casa, preocupada em não atrapalhar a filha da patroa, que tem a mesma idade dela e está brincando de casinha no carpete felpudo da sala.

Alguém aí falou em trabalho escravo? Minha amiga falou, para filha dela. Minha amiga aproveitou o filme da TV e a reação oportunista da filha. Explicou como ela, a filha, é privilegiada num país onde tantas crianças dariam a vida para poder arrumar seu próprio quarto e poder pegar uma toalha fofinha no chão depois do banho.

Viva a TV, viva a Internet, viva a informação que chega às toneladas aos nossos filhos.
E viva nós, pais esclarecidos, que temos o dever de abrir o coração e a razão de nossos filhos, para que essa informação toda construa cidadãozinhos melhores.

Cidadãozinhos que sejam responsáveis por pequenas tarefas rotineiras dentro de nossas casas. E que venham a ser, mais tarde, cidadãos responsáveis pelas tarefas desse país.

Quer ajudar de verdade essas crianças carentes a ter um rumo na vida? Procure uma ONG que trabalhe a sério com a questão da Infância.

Existem muitas, todas elas cheias de programas e projetos. Você vai encontrar o seu modelo e o seu número justo, que calça direitinho a sua consciência responsável.

Será mais um belo exemplo para seus filhos.

 

(Escrito em 2009) Reaprender a comunicar Sustentabilidade

A imagem que ilustra este texto é uma tela de apresentações que fiz em 2009. Escrevi artigos e dei entrevistas sobre isso: a Sustentabilidade tinha seus dias contados como diferencial competitivo em comunicação. Dito e feito.

A Comunicação não existe por ela mesma nem para ela mesma. É sempre conseqüência de decisões estratégicas empresariais. A Comunicação da Sustentabilidade reflete a visão, as crenças e as práticas que empresas têm sobre ela,
a Sustentabilidade.

Continuar lendo “(Escrito em 2009) Reaprender a comunicar Sustentabilidade”(…)