Hoje quem escreve é Ângelo Franzão: Almoçando Juntos

O Ângelo Franzão era VP Diretor Nacional de Mídia, um grande colega com quem eu e Helena Quadrado (VP Diretora de Pesquisa e Planejamento) dividimos uma grande sala por muitos anos. Cross-fertilizaton, como diziam os gringos, se bem que fomos nós que inventamos essa suruba profissional na prática da McCann-Brasil desde o fim dos anos 80.

Mais importante, o Ângelo é até hoje um imenso amigo. Um imenso amigo que se esmera em vestir-se bem, até pela função, os encontros, palestras, eventos, coquetéis, almoços e jantares.

Ternos encomendados sob medida, impecavelmente cortados, gravatas Gucci ou YSL, sapatos de cromo alemão, barba esculturalmente aparada. Um lorde.

Foi o Ângelo que me lembrou do dia em que tivemos um almoço importante, uma ideia inédita para a Rede Globo e os clientes, pra fecharmos um grande negócio para todos.

A Black & Decker e a GE queriam comunicar a fusão de suas marcas em uma das divisões de eletrodomésticos. Ângelo e eu concebemos um plano genial, que nasceu na Mídia e na Criação, em conjunto e ao mesmo tempo. Ou sei lá onde nasceu. Para isso, precisaríamos da parceria da Rede Globo. Mas esse é um outro Causo, que fica pra uma próxima vez – como dizia Júlio Gouveia.

É o Ângelo que conta:

“Íamos, Perci e eu, pra um almoço decisivo no badalado, chic e então exclusivo restaurante Roma, aquele que ficava ali no entroncamento da Avenida Cidade Jardim com Avenida Faria Lima e Avenida 9 de Julho. Hoje não existe mais, mas este fato aconteceu em 1992.

Perci dirigia seu Omega, uma joia top de linha, recém- lançado no Brasil há poucas semanas. Até então, só tinha um carro assim quem nadava em dinheiro ou o havia ganho em concurso de Natal de shopping centers, comuns na época. Eu, humilde Ângelo, ia no banco do passageiro, ao lado.

Paramos na suntuosa entrada do restaurante. Um recepcionista abriu a minha porta e, todo cheio de mesura, me desejou boa tarde e um bom almoço. Desci.

Eu parecia o patrão magnânimo, que sentava na frente com o motorista.

Quando o Perci ameaçou sair do carro, de jeans, camisa branca e tênis, o recepcionista o brecou: “Não, você estaciona o carro ali na rua de trás e espera”.

Eu saí da compostura de patrão e caí na gargalhada. No maior bom humor, Perci respondeu: “Vamos fazer o seguinte. Você estaciona o meu carro lá na rua de trás e volta. Pode até almoçar conosco, já que está bem mais arrumadinho que eu”.

O Perci jogou a chave para o recepcionista e entramos no Roma. Foi um belo almoço a paisana”.

Cannes? Pra quê Cannes?

Tive a oportunidade de ir umas sete ou oito vezes ao Festival de Cannes.

Nas duas primeiras, agi como um iniciante ávido por aprendizado, assisti a todos os filmes, fiz anotações de tudo que me chamou a atenção, fui a todos os eventos e festas, à cerimônia final. Um aluno exemplar.

Com o tempo, fui percebendo que o Festival de Cannes era mais um ego-trip, misturado com construção de networking e malho de vendas das agências e produtores, fornecedores em geral.

Continuei indo ao Festival, mas agora para jogar vôlei de praia com meninas de top-less, alugar um carro e passear pelo sul da Itália e/ou Mougins e arredores, pelo prazer da viagem e da gastronomia. Reservava os últimos dias para assistir apenas ao short-list e à cerimônia final.

Depois, desisti de ir e mandava gente talentosa da minha equipe no meu lugar. Fazia mais sentido, era mais estimulante e produtivo pra eles.

Numa das minhas últimas idas ao Festival de Cannes, em 1985 ou 1986, então já como Diretor de Criação para a América Latina, fui com o Márcio Moreira, todo poderoso Diretor Intergalático de Criação da McCann Mundial, e o Carlos.

Carlos era um profissional de criação argentino, um talento puro e, como todo argentino com talento puro, era teimoso e resistente a ser contratado por uma agência multinacional com o perfil da McCann. Mas queríamos o Carlos pra comandar a Criação da McCann-Argentina.

Pra seduzi-lo, viajamos juntos na primeira classe, de São Paulo a Paris. Alugamos um puta carro e fomos descendo ao Sul, até Nice e Cannes. A ideia era levarmos dois dias, chegarmos a tempo pra festa oficial da McCann em Cannes, da qual Márcio era o anfitrião, para o short-list e a cerimônia final.

Mas levamos cinco dias. Fomos pelas estradinhas vicinais mais remotas do Interior da França, La Campagne.

Parávamos em botecos, casas de frios e embutidos caseiros, em pequenas boulangeries de famílias, nos entretínhamos com as iguarias locais, vários tipos de comida de verdade, quiches, queijos, presuntos, salames, pães e vinho, muito vinho.

Acabávamos dormindo num daqueles hotéis de charme ou numa acolhedora pousada popular mesmo. Inclusive passamos um dia inteiro numa praia de nudismo, algo extremamente embaraçoso e constrangedor pra nós três, latino-americanos metidos a machistas, mas que afinamos diante de tanta gente pelada.

E assim se passaram os dias, e assim chegamos a Cannes atrasados, bem no final. Mas deu tempo de o Márcio abrir e fechar a festa da McCann, participar da cerimônia de entrega dos prêmios.

Foi ótimo, minha melhor viagem ao Festival de Cannes, mesmo não estando lá.

E o Carlos recusou o convite de contratação pela McCann.

O Top de 8 Segundos da Globo

Na foto acima, Octávio Florisbal , da Rede Globo, e Altino João de Barros, recebendo um de seus vários prêmios.

Altino João de Barros é Pai e Mestre da Mídia no Brasil, um dos criadores do I.V.C. – Instituto de Verificação de Circulação de jornais e revistas, do Grupo de Mídia, trouxe o conceito de GRP e tantas outras inovações para o mercado brasileiro. Sempre profissionalizando, reinventando o ofício da Mídia.

Mas, acima de tudo, gente fina, sangue bom e um grande professor.

1978, Copa do Mundo na Argentina, todas as cotas do patrocínio de transmissão pela TV já vendidas, boa parte delas para clientes da McCann. Mas a GM demorou para negociar e ficou de fora da Copa.

Altino estava mais inconformado que a própria GM e, imagine, mais inconformado que o Jens, presidente da agência, que não gostava de perder prestígio e, principalmente negócios, faturamento.

Eu era diretor de criação do então GRUPO GM e o Altino me levou à Rede Globo pra ver se encontrávamos uma saída, uma cota extra, uma sub-cota, uma semi-cota, uma cotinha.

Desde sempre o Altino trabalhou assim, junto com a Criação e o Atendimento e esta é mais uma de suas tantas virtudes.

Naquela época a Globo São Paulo ficava na Praça Marechal Deodoro, Rua General Olímpio da Silveira, por ali.

A gente entrava no térreo por um corredor cercado de salas envidraçadas, as suítes de transmissão, cheias de monitores, equipamentos, técnicos hipnotizados.

A caminho do elevador, lá nos fundos desse salão, de repente o Altino parou e entrou numa das suítes.

Ficou minutos olhando a tela do monitor menos interessante. As outras telas passavam cenas de novelas, futebol, propaganda.

Mas o Altino ficou lá um tempo olhado justamente a imagem de um ponteiro de relógio percorrendo um círculo preto, enquanto acontecia uma contagem decrescente: 8… 7… 6…. 5…

O Altino perguntou o que era aquilo e o técnico respondeu que era a contagem regressiva pra entrada da programação de todas as emissoras afiliadas em rede.

Todas as emissoras estavam naquele momento esperando chegar o ZERO! para manualmente abrirem suas ondas, receberem o mesmo sinal e se unirem numa programação nacional em rede.

E isso pode ir para o ar? perguntou o Altino. Pode, mas quem é que vai querer ficar vendo essa coisa na tv? respondeu o técnico.

Ali o Altino tinha criado o famoso ATENÇÃO EMISSORAS DA REDE GLOBO PARA O TOP DE 8 SEGUNDOS… UM… DOIS… (que depois caiu pra 5 segundos por razões comerciais).

A GM assinou e patrocinou esse primeiro Top, que abriu todas as transmissões da Copa de 78. Além das imagens dos carros intercaladas aos dígitos da contagem decrescente, depois havia um comercial de 30 segundos com toda a linha Chevrolet.

A campanha foi produzida pela Nova Films e dirigida pelo Claudio Meyer.

As pesquisas revelaram que a GM foi avaliada como top of mind na menção espontânea sobre “Qual a empresa patrocinadora oficial da Copa”.

E a McCann faturou mais um pouco, não só grana, mas principalmente prestígio profissional e comercial. Pioneirismo.

Até hoje o Altino modestamente diz que a história não foi bem assim, não foi ele que inventou o Top de 8 Segundos, etc. Ele afirma isso inclusive na sua própria biografia.

Mas eu estava lá e vi. Fui testemunha ocular, auditiva e deslumbrada dos fatos. Aprendi, como sempre todo mundo aprendeu com o Altino.

Perci, Altino e Ângelo

(Escrito em 2009): Tá faltando sustança

Ando meio cansado dessa conversa de Sustentabilidade.

Na esquina da Rua Alvarenga com o começo da Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, um jovem berra: “Olhaí, simpatia, tem que ser sustentável todo dia!”. E pendura no retrovisor do carro um saquinho de balas:

Sustentabilidade

Um jovem senhor desempregado ganha a vida na esquina da Av. Faria Lima com a Av. Cidade Jardim, reduto da abastança mais do que da sustança, também em São Paulo. Na sua van, um cartaz: “Sanduíches duplamente sustentáveis: sustentam seu estômago e sustentam minha família”.

Até que é boa essa banalização da Sustentabilidade no nosso dia a dia. Pelo menos é melhor do que o uso e abuso da Sustentabilidade nos discursos, propagandas, releases e preces. Sobram palavras, faltam ações concretas.
A Sustentabilidade de verdade é prática: está na revisão do modelo mental e do modelo de gestão, de operação das empresas.

Isso é simples, porque Sustentabilidade é um dos gestos mais antigos e instintivos da Humanidade.

Significa sobrevivência hoje, com a visão de sobrevivência futura. Vem do Latim: SUSTENTARE, manter firme a partir da base. Como o sutiã (soustien). Ou como a gente sustenta nossa família, mantendo os filhos firmes hoje e preparando-os para o futuro a partir de alicerces, fundamentos básicos: proteção, alimentação, saúde, educação.

Um artesão da Idade Média já garantia a sustentabilidade do seu negócio através da compra mais eficiente de matérias-primas, do aumento da produtividade da sua oficina, da melhor distribuição possível da sua produção, de uma conta positiva entre o que ele gastava para produzir e o que ele ganhava com a venda.

Sua visão de futuro só enxergava a preparação de seus filhos para tocar o negócio dali a alguns anos. Já era uma gestão sustentável para a época, na medida em que o negócio prosperava no presente e tomavam-se cuidados básicos para ele continuar prosperando no futuro.

Pouco importava se a água contaminada de resíduos de cobre era despejada no riacho atrás da oficina, que iria chegar até a aldeia lá embaixo. Se árvores eram abatidas para alimentar a fornalha, cuja fumaça jogava fuligem e poluía a aldeia toda. Se a mão-de-obra era praticamente escrava, inclusive com trabalho infantil.

O que vem mudando há séculos é a grande escala desses impactos todos na vida das pessoas e no meio ambiente.
Vem aumentando também o nível de pressão que as empresas recebem para provar seu valor através de práticas concretas de gestão sustentável nos seus negócios e os resultados disso. Os públicos de interlocução estão cada vez mais complexos e exigentes, além da legislação, mais rigorosa.

Esses interlocutores querem ver mais sustança na prática.

Sustentabilidade

Aos berros

Em 1991 voltei pra McCann, no que seria meu último período lá. Ele durou até 2005, eu como Gerente Geral e Diretor Nacional de Criação.

Acreditando que nosso valor no ofício de comunicadores está em encontrar soluções de comunicação a partir da criação de pensamento, criação de planejamento, criação de mídia e criação de campanhas, tudo integrado, Helena (Pesquisa e Planejamento), Ângelo (Mídia) e eu passamos a dividir uma sala no Olimpo, o último piso, o andar da Diretoria da agência.

Depois de alguns meses senti necessidade, me deu uma vontade louca de conviver com minha equipe específica de Criação, umas 80 pessoas, no andar abaixo.

A área da Criação era quase um andar inteiro, um imenso salão sem paredes dividindo as equipes em suas estações móveis de trabalho. Todo mundo trabalhava com todo mundo que quisesse.

No fundo desse salão, uma gigantesca estante, uma verdadeira biblioteca, com livros e tapes/cds sobre comunicação, propaganda, promoção, anuários, referências internacionais e brasileiras.

Coloquei pra mim uma mesa de reuniões também gigantesca, bem em frente a essa estante-biblioteca: um mesão que era frequentado pelas duplas, pra batermos bola sobre caminhos criativos, avaliar primeiras hipóteses de conceitos e campanhas. Eu passava algumas horas do dia lá. Era eu de volta ao mundo da Criação.

Um dia chegou um garoto cheio de espinhas e cabelo espetado, desses que hoje comandam áreas inteiras de agências e anunciantes. Ele chegou bem pertinho de mim e berrou: “Me dá o último Anuário do Clube de Criação! Anuário do Clube de Criação!”

Estranhei, mas indiquei pra ele onde encontrar na estante.

No dia seguinte, o mesmo garoto chegou de novo até a minha mesa e berrou: “Você tem o One Director’s de 1991? O One Directors de 1991!” Eu mesmo fui até a estante, peguei o que ele havia pedido e perguntei: “Por que você berra tanto assim?”.

O moleque garoto, também aos berros: “Porque ele mandou!” e apontou para o Paulo Sabino, Diretor de um dos Grupos de Criação, que lá do outro lado do salão não se aguentava de tanto rir.

O garoto era um estagiário, recém-entrado na Criação. O Paulo Sabino disse para o garoto que aquele senhor de bigode lá no fundo do salão, naquela mesa grande em frente à estante, era o Revisor e Bibliotecário da agência. Mas como era totalmente surdo, o garoto teria que pedir bem alto e repetir várias vezes o que queria.

O garoto hoje em dia é um excelente redator e aprendeu a falar baixo.

Hoje quem escreve é Alexandre Braga: O dia em que o mundo acabou

Em finais de 1993 fiz parte de uma banca de profissionais, que avaliaria os TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso) dos últimos anistas da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Uma equipe de alunos me chamou a atenção pela qualidade do Pensamento, pela inteligência da Estratégia, pela Inovação nas Propostas, pela Riqueza das ideias criativas, pela Simplicidade, Objetividade e Clareza na apresentação. Tudo que a gente sempre espera de uma boa agência, principalmente nos dias de hoje, tão pobre de tudo isso.

Essa equipe tinha a Camila Cardillo (hoje Chef de Cuisine), o Anselmo Ramos (hoje um talentoso diretor de criação no Exterior, fundador da agência DAVID em Miami, Buenos Aires e São Paulo) e o Alexandre Braga (hoje dono de uma produtora no Rio, a Homem de Lata, na qual Alê escreve e dirige filmes e séries, cria conteúdo).

Dei nota máxima ao TCC deles e os convidei pra uma conversa na McCann.

Anselmo e Camila preferiram não trabalhar comigo na agência, tomaram seus rumos com sucesso. O Alexandre Braga veio pra McCann, no Atendimento.

Depois foi para um cliente, aprender como é a vida do outro lado do balcão. Voltou mais tarde pra McCann, onde seguiu carreira brilhante até chegar a ser Diretor de Geral da McCann Rio. Por uma razão muito simples: o Alê sabia e dava valor ao PENSAR CRIATIVAMENTE na sua época de Atendimento.

O Alê tinha ideias, como esta, abaixo, que ele próprio descreve:

“Foi no dia dez de agosto de 1999. O mundo iria acabar no dia seguinte, dia onze, teria dito Nostradamus, no momento do eclipse final e definitivo.

Como sempre eu estava com saudade do meu tempo como redator, mas nessa época eu estava ainda atendendo Chevrolet e começando a assumir outras contas.

Nesse dia estávamos, Gabi Guerra (diretora de arte) e eu, voltando da Unilever, pela Avenida Brasil. MasterCard patrocinava todos os canteiros centrais de plantas da avenida.

O assunto Nostradamus apareceu. E no meio das risadas eu olhei pra uma das plaquinhas “MasterCard preserva essa área”. Parei de rir e comentei com a Gabi: “O logo de MasterCard não lembra um eclipse?”. “É, lembra muito…”

Em menos de um minuto estávamos falando sobre livro de profecias de 20 reais, CD de meditação de 30 reais e chegando à conclusão de que descobrir no dia seguinte que Nostradamus estava errado… isso não tinha preço.

Chegamos na agência na hora do almoço e contamos a ideia para o Perci e para o Rafa Camacho, diretor que atendia a conta de MasterCard.

O Perci usou seu telefone mágico e em meia hora estávamos com todos os “big bosses” de MasterCard aprovando anúncio e filme, já leiautados lindamente pela Gabi. Afinal, era uma oportunidade única e talvez a última no mundo.

A mídia enlouqueceu, mas topou o desafio de montar o plano para entrar no ar no dia seguinte depois do eclipse. Em alguns países da América Latina até. Tudo em menos de 24 horas.

A produção toda era bem simples, no formato da campanha ‘Tem coisas que o dinheiro não compra. Pra todas as outras, existe MasterCard”. Filme e anúncio aprovados.

Os veículos pediram pagamento antecipado, porque Nostradamus poderia estar certo e o mundo acabaria mesmo no dia dez, antes da veiculação.

Mas o dia onze amanheceu tranquilamente e percebemos que o mundo não havia acabado. Nesse dia onze foi publicado o anúncio nos principais jornais e o filme nas TVs. Com direito a eclipse e tudo mais.

A mensagem central era algo como “Livro de profecias, 20 reais. CD com músicas de meditação, 30 reais. Incenso, 12 reais. Descobrir que Nostradamos errou e a vida continua, não tem preço”.

Causou o maior impacto, foi o maior sucesso, recebeu prêmios. Ideia de um profissional que era do Atendimento, em parceria com uma diretora de arte. Ninguém ficou exultante e cantando glórias demais, ninguém da Criação da conta ficou enciumado. Porque a ideia era excelente e dentro da estratégia de MasterCard, viesse de onde tinha vindo.

Azeitona com tangerina

A Casa do Sol foi o que, na época, se chamava de “orfanato” e hoje se chama de “casa de abrigo” ou “casa de passagem”. Mantivemos, com a ajuda de amigos, a Casa do Sol ao longo de 17 anos e atendemos a quase 500 crianças e seus pais destituídos. Minha família e eu reformamos uma chácara na periferia de Cotia e a transformamos num lugar seguro e confortável, para acolher crianças desde o nascimento até os 6 anos de idade, em situação vulnerável, de risco social. Crianças órfãs da sociedade, de todos nós.

Elas chegavam à Casa do Sol pelo Fórum, pela Vara da Infância e Juventude de Cotia.
E lá ficavam até que a Justiça decidisse seu destino na vida: retorno à família, entrega a parentes distantes, adoção.

Um belo dia, lá chegou a Azeitona. Uma negrinha, tão negra que era quase azul. Olhos negros esbugalhados, assustados, imensos. Gordinha, rechonchuda, parecia mesmo uma dessas carnudas azeitonas pretas espanholas. Deveria ter dois anos e poucos meses, na nossa avaliação (ela não chegou com certidão de nascimento).

Andava, corria, respondia aos estímulos, saúde perfeita, mas um problema: a Azeitona não se comunicava, não falava, não ria, não chorava, não reclamava, não se alegrava, nem demostrava sentimentos. Não brincava com as outras crianças, sempre isolada.

Eu dava plantão na Casa do Sol todo domingo. Domingo sim, domingo não, era dia de visita da família das crianças, quando autorizadas pelo Fórum.

Num desses domingos que não era dia de visitas, alguém bate no portão. Abro a escotilha, aquela janelinha de segurança, e me enfiam o cano de um 38 na testa. “Abra esta merda, eu vim ver minha filha”.

Antes de me borrar na bermuda, perguntei quem era a filha e informei que aquele domingo não era dia de visitas. Bobagem minha: “Caguei pra dias de visita, eu só quero ver minha filha”. E contou que a filha dele era a Antônia ou Azeitona, com o cano do 38 ainda na minha cara.

Eu disse que ele não poderia entrar, que eu iria buscar a menina, trazê-la pra fora e ele, o pai do revólver 38, poderia ficar com ela na calçada por alguns minutos. O cara topou.

Fiz isso. Mas antes, pedi pras funcionárias da Casa do Sol ligarem pra polícia. Afinal, o pai da Azeitona era um dos líderes do tráfico de drogas na região e procurado, com mandado de prisão e jurado de morte pelas outras gangues.

Do lado de fora da Casa do Sol, uma cena inimaginável. O traficante, a Azeitona e eu sentados na calçada. O cara vestia apenas um short cor de rosa decorado com um 38 na cintura, camiseta regata e chinelos de dedo. A uns 100 metros dali, 3 capangas dele, com fuzis, vigiavam a área.

O pai da Azeitona tirou do bolso uma pequena tangerina bem madura, descascou devagar, com calma e carinho. E foi dando pra Azeitona, gomo a gomo, conversando com a filha. E a Azeitona começou a responder, a falar, a sorrir pela primeira vez.

Eu pedi desculpas, mas tinha que ir ao banheiro. Corri o risco de deixar a Azeitona e o pai na calçada, voltei pra dentro da Casa do Sol, pedi pras funcionárias cancelarem a chamada pra polícia. Tarde demais. Elas já haviam ligado.

Voltei pra fora e avisei ao traficante que eu havia chamado a polícia, em legítima defesa e em defesa da Azeitona. Pedi que ele fosse embora o mais rápido possível.

O cara ficou um misto de indignado e agradecido: “Valeu, te devo essa, seu filho da puta. Vi minha filha de novo e você me salvou a tempo. Essa casa aqui agora tá sob minha proteção, nunca ninguém vai assaltar aqui. Cuida bem da minha filha.” E fugiu com os 3 capangas. Eu levei a Azeitona, que agora não parava de falar, pra dentro da Casa do Sol. Esperei a polícia chegar e disse que o bandido já tinha ido embora.

Quem eu traí? A polícia? O bandido? Eu mesmo? Tenho certeza que honrei a Azeitona.

Sei que temos problemas coletivos pra consertar estruturalmente, problemas sociais graves no todo, transformações políticas, discussão de uma Assembleia Constituinte para a criação de uma nova Constituição, reformas no sistema eleitoral, no modelo econômico, na criação de uma sociedade futura mais justa, inclusiva e equilibrada. Tudo macro, de longo prazo e longo processo.

Temos que lutar nesse longo prazo das grandes transformações estruturais.

Enquanto isso, nos caem no colo vidas individuais e imediatas, pras quais não podemos fechar os olhos.

Meses depois, a Azeitona foi adotada e leva com ela essa história pra sempre, pra vida toda, mesmo que não se lembre.

Casa do Sol

O Poliglota

Márcio Moreira, então Diretor Intergaláctico de Tudo no Sistema McCann Mundial, me mandou pra participar de um projeto global. Lá fui eu, em missão.

Alemanha, Frankfurt, Janeiro, 5 graus negativos. Mais frio dentro de mim do que lá fora. Direto do aeroporto, aqui estou na reunião de staff do nosso escritório local: 19 alemães + Gerry + eu.

Gerry é um americano midwest da gema, com quem trabalhei no Brasil anos atrás. Boa praça, fanático pelo nosso país, corinthiano instantâneo e detentor de um limitado vocabulário Português de sobrevivência, arduamente aprendido na marra em dois anos aqui. Muito precário em Português.

Recém- chegado à Alemanha, Gerry já está irremediavelmente inadaptado. Não queria ter sido transferido pra lá e fazia questão de deixar isso claro a todos, principalmente aos alemães.

Mas não podia perder a oportunidade de subir na carreira, o que provocou outra colisão frontal com os colegas locais aspirantes ao mesmo cargo. Eles não são antiamericanos: são anti-Gerry.

O Presidente dá as boas-vindas a mim, anuncia que trabalharei com a equipe alemã durante algumas semanas no projeto do lançamento mundial de um carro da Chevrolet/Opel. Fala em Inglês, impecável.

Agradeço também em Inglês, nada impecável, mas muito melhor do que meu Alemão, inexistente.

Começa a reunião. Todos reportam seus projetos, detalham os próximos passos, prazos, responsabilidades. Em Alemão!

Duas horas encantadoras, para mim e para o Gerry, que não entendemos nada. Se ele não conseguiu aprender Português em dois anos na boa-vida e hospitalidade brasileiras, seria impossível ele entender Alemão em tão pouco tempo e com tantos inimigos.

Fim da reunião, todos se levantam. Solenemente, Gerry pede licença para também dizer algumas palavras a meu respeito. Em Inglês: “Agradeço a vinda do Percival para trabalhar conosco nesse projeto. Já trabalhamos juntos no Brasil e acho importante explicar a vocês como melhor aproveitar estilo e o talento do Perci. Farei isso no idioma do seu maravilhoso país, que me acolheu como um filho”.

Aí Gerry muda para o Português. Quer dizer, muda para uma enxurrada de expressões do dia a dia, cujo som ele ainda vagamente lembra. E com sotaque.

“Não empurra, não empurra, cadeira cativa, setor azul, Pacaembu!”. Gerry diz isso com a eloquência de uma calorosa saudação.

Quase às lágrimas, não se contém nos elogios a mim: “Caipirinha, a minha sem açúcar e muito gelo, que horas são. Minha picanha é ao ponto e sem fritas, então tudo bem, vai se fode você, cara.”

Complementa: “Timão, Timão, Salve o Corinthians, campeão dos campeões!” – mas não canta, apenas fala veemente e categórico, como se estivesse afirmando algo sério.

E o gran-finale, apontando para mim, de forma eloquente: “Cumbica, me chama um carro, Rua da Consolação, tô sem trocado, que merda ser esta? Este campanha está uma porqueria!”

Depois de uma pausa emocionada, fecha o discurso dirigindo-se a mim, em Português: “Tudo bem, eu ferrou eles, fala verdade.”

Comovido, só me restou agradecer tão amáveis palavras, diante dos alemães, perplexos.

O Poliglota

Como ele acertou?!

Briefing: nosso creme de leite ENVOLVE COMPLETAMENTE AS FRUTAS.

Solução criativa, de autoria do Paulo Almeida, um dos chefes de criação nos anos 80 da McCann-Erickson: uma série de comerciais, em animação, com várias frutas sendo acolhidas, aconchegadas, abraçadas e envolvidas pelo Creme de Leite Nestlé em diferentes situações.

O comercial que abria a campanha foi recusado pelo então gerente de produto, como se chamava na época.

Em animação, um pêssego subia uma escada de circo, chegava num trampolim lá em cima, vendava os olhos. Rufar de tambores, expectativa e suspense. De repente o pêssego saltava no ar, dava um salto triplo mortal e aterrissava exatamente na lata do creme de leite, de onde saía todo lambuzado e envolvido, para os aplausos da plateia.

Razão que o Cliente deu pra reprovar o comercial: “Como é possível um pêssego de olhos vendados acertar em cheio e cair bem na nossa lata de creme de leite?! Isso é totalmente inverossímil. Nada crível”.

Mil discussões, prós e contras, argumentações lógicas e racionais minhas e do Jorge Gurgel, diretor de contas, até que o Paulo Almeida falou candidamente: “E você acha verossímil, você acha crível um pêssego subir uma escada, vendar seus olhos e saltar? Isso é só propaganda e é em animação, uma fantasia.”

De repente entra na sala de reunião o sábio e experiente Diretorzão de Marketing.
O Gerente de Produto explicou o roteiro e a razão de ele ter reprovado: “O senhor não acha inverossímil?”

“Não”, respondeu o Diretor. “O pêssego é nosso e ele faz o que a gente mandar ele fazer. Está aprovado.”

Foi um sucesso, graças ao feito olímpico do pêssego e outros malabarismos de figos em calda, morangos.

Um pouco de imaginação e menos lato-senso não fazem mal a ninguém.

 

Eu não conheço o Pelé

Sei lá em que ano foi isso, mas deve ter sido um pouco antes de eu sair da McCann de vez. Talvez 2004.

Lá estava eu tranquilo, em São Paulo, conduzindo mais um workshop estratégico criativo pra algum projeto latino-americano. Eram 8 duplas de diferentes países da região e eu no meu traje oficial, bermuda, camiseta regata e havaianas. Todos nós trancados há uma semana num hotel na Avenida Sena Madureira, bem pertinho da McCann, porque eu não aguentava mais viver em avião pra lá e pra cá.

De repente me liga o Márcio Moreira de NY, então vice-chairman de tudo, o pica-grossa da operação da McCann Mundial. Ele me pediu pra eu ir imediatamente a uma reunião delicada, de importância transcendental: intermediar uma negociação entre a uma conta global alemã e o Pelé pra uma campanha mundial.

Eu obedeci e fui. De bermuda, camiseta regata e havaianas. Era o que eu tinha para o momento de crise e emergência, não dava tempo nem de colocar uma camiseta normal e um tênis, o que seria o máximo de sofisticação indumentária pra mim.

A reunião era num suntuoso escritório do Pelé, na Juscelino Kubitschek. Tive que convencer a portaria e a segurança a me deixarem entrar e provar que eu não era um entregador de pizza. O Pelé detesta pizza.

No elevador apertado, entrei com uns 5 alemães engravatados e rígidos como apfelstrudels congelados. Silêncio total e olhos críticos na minha direção. “Por que esse cara não pegou o elevador de serviço?” imaginavam eles em silêncio.

Todos descemos no mesmo andar, nos apresentamos na mesma recepção, fomos encaminhados pra uma mesma sala de reuniões, nos serviram água e café e pediram pra esperar, que o Pelé já chegaria.

Tomei a iniciativa de me apresentar como Gerente Geral da McCann-Brasil e VP Internacional da McCann Mundial. Ninguém levou a sério. E o Pelé não vinha.

O apfelstrudel mais graduado resmungava: “Pelé is late, this is not acceptable, we’ve travelled just to meet and negotiate with him! Who he believes he is?!”

Eu timidamente respondi: “He is Pelé, and you’re paying millions of dollars to have him in your campaign.”

De repente, lá vem Pelé, adentrando a sala com desculpas, descalço e uma bata indiana azul-céu-claro, “I’m so sorry I’m late, understand?”

O apfelstrudel mais graduado imediatamente se derreteu, disse que não havia problema algum, pediu pra tirar uma foto com o Pelé. E um autógrafo, claro.

Aí o Pelé me viu, quietinho no fundo da sala de reunião. O Pelé gritou: “Perci!”. Correu na minha direção, me deu um puta abraço, me carregou no colo e me rodopiou pela sala.

Sentamos pra começar a reunião. O Pelé na cabeceira da mesa, o Pepito, eterno escudeiro do Pelé à esquerda, o apfelstrudel mais graduado à direita e eu logo depois, ao lado dele. Sem saber exatamente o que eu estava fazendo ali.

Cochichando pra mim, o apfelstrudel mais graduado me perguntou timidamente e surpreso: “Do you know Pelé?”

Eu respondi de forma bem blasé: “No, he knows me.”

Pra eles eu não expliquei, mas pra vocês eu explico. Meu pai morou a vida toda no Guarujá, era gerente do Hotel Jequiti-Mar e corretor de imóveis na Praia de Pernambuco, lá mesmo.

Meu pai vendeu uma mansão pro Pelé logo depois da conquista da Copa do Mundo no Chile e, desde então, o Pelé contratava meu pai como freelancer pra cuidar da casa, dos empregados, do jardim, da piscina, da geladeira sempre abastecida. E, sempre que podia, eu ia com meu pai nos encontros com o Pelé, eu ainda moleque.

Muito tempo depois, nos anos 80 e 90, contratei o Pelé pra campanhas de Coca-Cola, GM, MasterCard pela McCann. Voltamos a nos encontrar e continuamos a manter contato.

Daí a intimidade entre Pelé e eu no encontro com os alemães. A propósito, o projeto foi de uma campanha global criada pela equipe da McCann Frankfurt, mas produzida pela Planet Film e dirigida pela Flávia Moraes, com fotos do J.R. Duran para o material impresso. Foi um grande sucesso de vendas e satisfação sexual pra muita gente.

Mesmo em propaganda, realidade não é necessariamente percepção. Chega uma hora que os fatos falam mais alto do que qualquer discurso de autoelogio ou falsa aparência.

Foto de abertura by Alberto Ferreira (in memorian)