A rotina em Cannes: cassino

Como já disse antes, ir ao Festival de Cannes era outra coisa pra mim, depois muitas participações minhas.

Encontrar amigos antigos, fazer uma turnê etílico-gastronômica nos arredores de Cannes, subindo pra Campagne ou ir até a Itália ali do lado, jogar vôlei na praia, em times mistos com garotas de top-less. E ir ao cassino da cidade uma noite ou outra.

O Festival em si, pra mim se resumia aos últimos dias, palestras realmente sérias e importantes, escutar grandes nomes da propaganda mundial, assistir aos os short-lists, poucos contatos, com profissionais que valiam a pena de fato.

Em fins dos anos 80, numa dessas noites no cassino, perdi mais uma vez os 500 dólares que sempre levava. É que eu sou um cara impulsivo-compulsivo em tudo em que me jogo. E me jogo de cabeça.

No caso de cassinos e jogatinas, se depender da minha insanidade, penhoro o relógio, o passaporte, as calças, a alma, só pra continuar apostando. Por isso, sempre levava apenas 500 dólares pra limitar minha tentação.

Naquela noite, depois de ficar mais pobre, comecei a perambular pelo cassino, fazendo o tempo e o uísque passarem até eu voltar pro Hotel Carlton.

Passando por uma das mesas de jogo, quem eu vejo? O sr. Adolpho Bloch, o todo poderoso dono do império Manchete, revista, tv, rádio. Coincidência: eu havia tido uma reunião com ele, Jaquito e equipe comercial, no Rio, semanas atrás, com o Altino Barros, o Jens Olesen, nossa diretoria de Mídia, pra fechar um pacote com a McCann-Erickson, negociações de alto nível e de alto valor.

O sr. Adolpho estava jogando, fiquei quietinho, de pé atrás dele.

Em uma rodada, ele faturou uma porrada de fichas, encheu o bolso. Eu bati nos ombros dele e cumprimentei: “Muito bem, sr. Adolpho, belo jogo!”

Sem se virar pra saber quem havia dito aquilo, o sr. Adolpho simplesmente respondeu:
“Cai fora. Brasileiro no exterior ou vem me pedir grana ou dá azar. O que dá no mesmo.” E continuou jogando.

Enfiei as mãos nos bolsos e saí de fininho, sem graça. Havia muitos outros brasileiros naquele cassino. Mas deu pra tomar um último uísque e, de longe, ver que o sr. Adolpho não ganhou as duas rodadas seguintes.

Ele tinha razão no seu comentário.