Escrito em 2008: Seja egoísta e se dê bem

Estou aqui no gramado da Casa do Sol, sentado debaixo de uma árvore, cujo nome não sei, sob as sombras pequenas de crianças, cujos nomes, apelidos e manias sei de cor, uma a uma.

Elas vêm correndo me dar um beijo, ou pedir um beijo no dodói, ou querer mexer no meu notebook, ou puxar meu bigode, ou apenas ver se eu continuo junto delas.

Hoje é domingo, dia em que os pais dos órfãos da Casa do Sol visitam seus filhos.

Casa do Sol

Sim, os pais dos órfãos. Como a imensa maioria das crianças em situação de risco social no Brasil, as crianças da Casa do Sol também têm pai, mãe, parentes, mas são órfãs na vida. Órfãs de respeito, de dignidade, de cidadania, de atenção, de oportunidades, de sonhos. São órfãs de todos nós.

A Casa do Sol nasceu sem querer, meio que por acaso. Fica fácil e bonito teorizar agora, tanto tempo depois. Ela surgiu em 1994, resultado de uma convergência espontânea de sentimentos, conscicência, vocações, convicções, emoções e sensação de culpa.

A motivação foi mais emocional do que de consciência propriamente dita. Minha família e alguns amigos tínhamos compaixão e indignação com a injustiça social ao nosso redor. Tínhamos também dinheiro, tempo, saúde e energia disponíveis.

Daí em diante, boas coincidências foram surgindo. Quando nos demos conta, a Casa do Sol já abrigava, em regime de internato total, crianças carentes da região de Cotia, município da Grande São Paulo.

Hoje aqui vivem 23 crianças, nossa lotação máxima por decisão judicial. Ao longo desses onze anos, já tivemos o privilégio de acolher, cuidar, conviver, interferir no presente e sonhar com o futuro de  quase 300 crianças.

(Tivemos que encerrar as atividades da Casa do Sol em 2012 e, no total, cuidamos de quase 500 crianças e apoiamos muitas de suas famílias ao longo desses 18 anos bem vividos por todos.)

Até pela falta de instituições que aceitassem recém-nascidos aqui por perto, acabamos nos especializando em receber crianças saídas da maternidade, os bem miudinhos, de um dia a 6 anos de idade. É a chamada “Primeira Infância”.

É na Primeiríssima Infância, de zero dias a 3 anos, que o cérebro forma e define a estrutura neurológica, a capacidade emocional, relacional, cognitiva das crianças, que elas levam pra sempre na vida. Depois, até os 6 anos, isso se consolida. Vivenciar tudo isso na Casa do Sol, não só me fez aprender muito, como me ajudou, anos depois, em projetos com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que trabalha exatamente com a Primeira Infância e suas Políticas Públicas.

As crianças chegam até nós através da 3ª Vara Judicial da Infância e Adolescência, do Fórum de Cotia. Cada história é uma história, mas é a mesma: abandono, negligência, maus tratos, abusos de todo tipo.

As crianças ficam conosco enquanto dura o processo judicial, que dá rumo à vidinha delas: reintegração à família ou adoção.

Enquanto isso, nós as tratamos como tratamos nossos filhos – na base do carinho, do colo, do dengo e da autoridade firme. Elas aprendem a conviver, a respeitar, a partilhar, a serem amadas e a amar.

Fazemos o maior esforço pra balancear o amor caseiro, que sabemos ser temporário, com os fundamentos e as bases de uma educação pro resto da vida, capacitar e equipar as crianças pras seus futuros, longe de nós.

Tentamos desenvolver a autoestima, ensiná-las a sonhar e a correr atrás do sonho com suas próprias pernas. Tomamos muito cuidado pra não cair na tentação do assistencialismo piegas, de curto prazo. Do cuidar pelo cuidar.

Queremos que nossas crianças tenham, já, qualidade emocional de vida e que se preparem pra buscar, elas mesmas, essa qualidade no resto de suas vidas.

Além das crianças que abrigamos, temos um consultório médico-odontológico, que cuida de mais de 380 crianças e algumas famílias carentes da região, todas cadastradas e atendidas com hora marcada, direitinho, por profissionais voluntários e profissionais servidores públicos de Cotia em convênio com a Prefeitura e Conselho Tutelar.

Mas não atendemos de graça, todos têm que contribuir com alguma coisa: verduras, legumes, ovos, panos de prato com bordas de crochê, serviços voluntários.

Todos pagam com orgulho, com algo que é deles, que os valoriza, que respeita sua dignidade individual, que não os submete à condição de carentes recebendo um favor, uma ajuda, assistencialismo paternalista.

Mas as crianças não são tudo. Eu vejo, aqui no gramado, suas mães e seus pais felizes e aliviados por encontrarem os filhos crescendo fortes, com boa cabeça, protegidos e em segurança, sem grandes traumas a curto prazo.

Alguns pais se mostram arrependidos, outros começam a adquirir consciência, juram que estão se empenhando pra se aprumar na vida e merecer os filhos de volta.

Claro, há os pais indiferentes a tudo, mas até esses parecem felizes, pelo menos nesses episódicos momentos com os filhos, aqui na Casa do Sol, eles vivem algo que nunca puderam ter.

De repente, o Roberto aparece, entristecido com a ida do Robinho, jogador revelado pelo Santos, pra Espanha.  O Roberto é santista roxo, cuida da limpeza pesada, do quintal, dos pequenos consertos, ajuda na horta, abre e fecha o portão, dá mamadeira quando precisa, cobre a falta de alguém na lavanderia, dá comida na boca dos menores, troca fraldas e dá banho, faz tudo. Faz tudo com prazer, com alegria.

Antes de vir pra Casa do Sol, o Roberto estava sem emprego nem rumo fixo, desacorçoado e sem perspectiva na vida, solteiro, morando de favor.

Hoje, ele tem registro em carteira, uma profissão, um salário digno, um endereço, um bando de amiguinhos que o chamam de tio. E tem muito orgulho, não do emprego, mas do trabalho que faz.

Como o Roberto, na Casa do Sol tem a Andrezza, o Jaime, a Maria, a Xuxa, a Dodô… Ninguém quer sair daqui por nada deste mundo. Todos cresceram como pessoas, tornaram-se cidadãos.

Vendo esses grandões, brincando no meio das crianças de um jeito que não se sabe quem é mais criança, eu me alegro por estamos contribuindo pra qualidade de vida desse povo, também.

Mas minha família e eu somos os verdadeiros e grandes beneficiados pela Casa do Sol. As crianças nos fazem um bem imenso, nos dão um misto de paz com orgulho discreto, de calma com sensação de dever cumprido, de emoção com  certeza de estarmos sendo úteis e construindo algo.

Começamos movidos pela emoção e senso de justiça, como uma forma de retribuir à vida todos os privilégios que temos. Mantivemos a compaixão e a paixão, mas passamos a profissionalizar a generosidade, adquirimos consciência, demos forma à responsabilidade, conteúdo e estrutura à solidariedade.

Recomendo algo semelhante a todos, nem que seja por interesse próprio ou egoísmo: participar faz bem pra gente.

Fotos: Rômolo Megda

Azeitona com tangerina

A Casa do Sol foi o que, na época, se chamava de “orfanato” e hoje se chama de “casa de abrigo” ou “casa de passagem”. Mantivemos, com a ajuda de amigos, a Casa do Sol ao longo de 17 anos e atendemos a quase 500 crianças e seus pais destituídos. Minha família e eu reformamos uma chácara na periferia de Cotia e a transformamos num lugar seguro e confortável, para acolher crianças desde o nascimento até os 6 anos de idade, em situação vulnerável, de risco social. Crianças órfãs da sociedade, de todos nós.

Elas chegavam à Casa do Sol pelo Fórum, pela Vara da Infância e Juventude de Cotia.
E lá ficavam até que a Justiça decidisse seu destino na vida: retorno à família, entrega a parentes distantes, adoção.

Um belo dia, lá chegou a Azeitona. Uma negrinha, tão negra que era quase azul. Olhos negros esbugalhados, assustados, imensos. Gordinha, rechonchuda, parecia mesmo uma dessas carnudas azeitonas pretas espanholas. Deveria ter dois anos e poucos meses, na nossa avaliação (ela não chegou com certidão de nascimento).

Andava, corria, respondia aos estímulos, saúde perfeita, mas um problema: a Azeitona não se comunicava, não falava, não ria, não chorava, não reclamava, não se alegrava, nem demostrava sentimentos. Não brincava com as outras crianças, sempre isolada.

Eu dava plantão na Casa do Sol todo domingo. Domingo sim, domingo não, era dia de visita da família das crianças, quando autorizadas pelo Fórum.

Num desses domingos que não era dia de visitas, alguém bate no portão. Abro a escotilha, aquela janelinha de segurança, e me enfiam o cano de um 38 na testa. “Abra esta merda, eu vim ver minha filha”.

Antes de me borrar na bermuda, perguntei quem era a filha e informei que aquele domingo não era dia de visitas. Bobagem minha: “Caguei pra dias de visita, eu só quero ver minha filha”. E contou que a filha dele era a Antônia ou Azeitona, com o cano do 38 ainda na minha cara.

Eu disse que ele não poderia entrar, que eu iria buscar a menina, trazê-la pra fora e ele, o pai do revólver 38, poderia ficar com ela na calçada por alguns minutos. O cara topou.

Fiz isso. Mas antes, pedi pras funcionárias da Casa do Sol ligarem pra polícia. Afinal, o pai da Azeitona era um dos líderes do tráfico de drogas na região e procurado, com mandado de prisão e jurado de morte pelas outras gangues.

Do lado de fora da Casa do Sol, uma cena inimaginável. O traficante, a Azeitona e eu sentados na calçada. O cara vestia apenas um short cor de rosa decorado com um 38 na cintura, camiseta regata e chinelos de dedo. A uns 100 metros dali, 3 capangas dele, com fuzis, vigiavam a área.

O pai da Azeitona tirou do bolso uma pequena tangerina bem madura, descascou devagar, com calma e carinho. E foi dando pra Azeitona, gomo a gomo, conversando com a filha. E a Azeitona começou a responder, a falar, a sorrir pela primeira vez.

Eu pedi desculpas, mas tinha que ir ao banheiro. Corri o risco de deixar a Azeitona e o pai na calçada, voltei pra dentro da Casa do Sol, pedi pras funcionárias cancelarem a chamada pra polícia. Tarde demais. Elas já haviam ligado.

Voltei pra fora e avisei ao traficante que eu havia chamado a polícia, em legítima defesa e em defesa da Azeitona. Pedi que ele fosse embora o mais rápido possível.

O cara ficou um misto de indignado e agradecido: “Valeu, te devo essa, seu filho da puta. Vi minha filha de novo e você me salvou a tempo. Essa casa aqui agora tá sob minha proteção, nunca ninguém vai assaltar aqui. Cuida bem da minha filha.” E fugiu com os 3 capangas. Eu levei a Azeitona, que agora não parava de falar, pra dentro da Casa do Sol. Esperei a polícia chegar e disse que o bandido já tinha ido embora.

Quem eu traí? A polícia? O bandido? Eu mesmo? Tenho certeza que honrei a Azeitona.

Sei que temos problemas coletivos pra consertar estruturalmente, problemas sociais graves no todo, transformações políticas, discussão de uma Assembleia Constituinte para a criação de uma nova Constituição, reformas no sistema eleitoral, no modelo econômico, na criação de uma sociedade futura mais justa, inclusiva e equilibrada. Tudo macro, de longo prazo e longo processo.

Temos que lutar nesse longo prazo das grandes transformações estruturais.

Enquanto isso, nos caem no colo vidas individuais e imediatas, pras quais não podemos fechar os olhos.

Meses depois, a Azeitona foi adotada e leva com ela essa história pra sempre, pra vida toda, mesmo que não se lembre.

Casa do Sol