Hoje quem escreve é Adalberto DAlambert: Bravo por pura encenação

Em 1994 a General Motors revolucionou o mercado automobilístico com o lançamento do Chevrolet Corsa.

Eu pedi ao Dadá, Adalberto D’Alambert, um dos Diretores de Criação da minha equipe na McCann e responsável pela campanha, que contasse com suas próprias palavras como foi essa história.

Este é o relato do Dadá.

“Um senhor de 71 anos, terno marrom, óculos de aros grossos, surge na minha sala com cara enfezada e diz:
– Mas pra onde esse mundo vai?!!

Não era nenhum protesto, era a saudação dirigida a mim pelo ator e novo amigo João Crimanini Filho, acompanhado de sua zelosa esposa dona Helena, que já se sentia uma primeira-dama da propaganda devido ao rápido sucesso do marido na TV.

A expressão fechada logo mudava para um cordial sorriso. Naqueles dias em fevereiro de 94, tínhamos uma reunião atrás da outra, na McCann, nos estúdios de filmagens, correndo contra o tempo para lançar o Corsa, um carro que causaria uma virada no mercado de automóveis, tantas eram as suas novidades.

– Injeção eletrônica?!! Que desatino é esse?! Eu sou do tempo do velho e bom carburador?!

Era um avô ranzinza, perplexo com a nova tecnologia e acomodado no passado, uma ironia à concorrência.

O Corsa foi apresentado aos Concessionários Chevrolet, em Barcelona, como parte de uma estratégia muito bem desenvolvida pela McCann e a GM para reforçar a atualidade do projeto, um lançamento de última geração no Brasil e na Europa.

O seu João viajou para a Espanha conosco, fomos conhecer e testar o carro no circuito de F-1 da Catalunha, conversar com jornalistas e participar de apresentações.

Após um coquetel animado no anexo do Palácio Sant Jordi, refletores iluminaram a Fátima Bernardes e o Bonner, que disse:

WB – Boa noite! O Corsa está inovando em tudo! Está aqui um especialista em automóveis que vai explicar melhor pra gente…

(O seu João aparece no palco andando devagar, carrancudo, e ganha imediatamente muitos aplausos).

WB – Boa noite, Sr. João.

Sr. João – Boa noite. Você também veio, é?

WB – Eu e a Fátima, Sr. João…

Sr. João – Precisavam vir os dois?! Mandassem só ela que já estava muito bom! (risadas)

WB – Seu João, o Sr. é sempre bravo assim?

Sr. João – Eu não! Só fico bravo quando vocês vem com certas notícias na televisão… (risadas).

Fátima (interfere) – Tá bom, Seu João… Mas diga a verdade, o que o Sr. achou do Corsa?

Sr. João – Huuum… até que não é feio… Só um pouco diferente para o meu gosto. Por que não puseram uns para-choques cromados, bem bonitos? O capô não tem enfeite nenhum! Não podiam por um pássaro? Um peixe? Qualquer coisa para dar um realce? (risadas)

O show do Ranzinza mostrou com bom humor que a GM estava entrando em novos tempos.

“- Um carro popular com 10 cores para escolher?! Pra quê? Isso vai dar confusão!”
Ou:

“- A melhor aerodinâmica, mas o que é isso?! Devagar com o andor!” …

A procura pelo Corsa provocou listas de espera, a GM precisou aumentar a produção e logo ampliar a oferta de modelos.

O Seu João, comerciante e camiseiro aposentado, que na vida real era dono de uma Caravan 80 muito bem cuidada foi presenteado com um Corsa vermelho bem equipado.

Quando era visto no trânsito da cidade tinha uma frase na ponta da língua para quem lhe acenasse e pudesse ouvi-lo “Só parei porque o farol fechou, sou jovem, vou em frente! Tchau!”

Ele, de rabugento não tinha nada. Era gentil, brincava, dava autógrafos e não ia embora sem antes entregar um pouquinho daquilo que todos esperavam, o mau humor crítico que tinha feito a sua fama:

– Está frio, moça! Vai botar um cachecol! O que essa juventude tem na cabeça!!!

O fãs riam. Dona Helena, me dizia baixinho:“ele está tão feliz”.

A General Motors teve um vendedor fantástico.

(Fabio Santoro e Hortencio Varotto criaram a ideia central e o personagem; Adalberto d’Alambert, Diretor de Criação, desenvolveu e coordenou a campanha com o Enido Michelini. Adalberto também criou o slogan “Corsa, um carro fora do sério”, o bordão “Para onde esse mundo vai?!”, os textos dos comerciais e outros; Enido Michelini foi o responsável também pela Direção de Arte; Marquinhos Fernandes “descobriu” o Ranzinza e dirigiu os comerciais; Percival Caropreso foi o Diretor Geral de Criação do processo todo.”)

Opala: cada um é um

Como redator estagiário na McCann em 1970, me coube a hercúlea e difícil tarefa criativa de escrever os spec-sheets da linha Opala.

Nada mais eram do que folders, em tempos absolutamente analógicos e off-line, no qual constavam as especificações técnicas de cada um dos modelos do “novo” Opala. Uma folha A4, frente e verso. Foto a cores na frente, um monte de texto e dados atrás.

Tinha uma parte conceitual, seguindo o posicionamento, o conceito, a linguagem da comunicação de massa em TV, rádio, meios impressos.

Tinha também tabelas com dados frios, cilindradas, potência e velocidade máximas, número de cavalos, de zero a 100 km/hora em tantos segundos, consumo médio de combustível, espaço interno, capacidade do porta-malas, etc.

Uma peça de comunicação que até mesmo um estagiário de redator faria com um pé nas costas, mas que era, também, um pé no saco.

Li e reli os spec-sheets dos anos anteriores, todos praticamente idênticos. Chatos.

Fui a uma concessionária Chevrolet na Lapa. E fui a pé. O vendedor nem notou minha insignificante presença do alto dos meus 18 anos e bermudas.

Me apresentei como um possível comprador, interessado no modelo Opala mais barato. Falei que entrei pra faculdade e que meus pais tinham me prometido um carro.

Com total falta de saco, o vendedor puxou o spec-sheet padrão do modelo Opala mais barato, leu friamente as informações e me despachou pra fora da concessionária.

No dia seguinte, fui a outro concessionário Chevrolet com meu pai, em Higienópolis, a bordo de um Fusca, sucesso absoluto no Brasil desde sempre, então. Fingimos que meu pai queria trocar o Fusca por um Opala.

Mesma coisa, mesmo spec-sheet padrão, mesmas informações do dia anterior, lidas friamente. Nenhuma comparação entre o Fusca do meu pai e as vantagens do Opala.

Dias depois, fui a outra concessionária Chevrolet, nos Jardins, com meu tio Sérgio e seu Galaxie Landau, um carro top de linha, objeto de desejo de fins dos anos 60.

Mesma coisa, mesmo spec-sheet padrão, mesmas informações, o mesmo tudo. Nenhuma comparação entre as vantagens do versátil Opala frente ao banheirão caro, de alto consumo e manutenção, o Landau.

Voltei pra agência e criei uns 6 spec-sheets pra vender o Opala e seus modelos.

Cada um deles orientava o vendedor da concessionária a observar como o possível comprador chegara à loja. A pé? Com qual carro? De qual modelo e ano? Com qual expectativa, etc.

O vendedor tinha que sentir e descobrir qual a motivação daquele possível comprador ir a sua concessionária e se interessar por um modelo Opala. Upgrade na vida, status? Mais espaço, mais desempenho, facilidade de manutenção, valor da marca Chevrolet?

Só aí então o vendedor puxaria o spec-sheet adequado pra cada comprador, conforme seu carro atual, perfil, motivação que o fez chegar até lá. Aí ele vendia as vantagens do Opala com foco e argumentos para aquele prospect específico.

Criei um spec-sheet do Opala versus Fusca, outro do Opala versus Gordini e Dauphine, outro do Opala versus Simca Chambord e Galaxie Laudau – e assim por diante.

Cada spec-sheet tinha abordagens e argumentações diferentes.

Um enfatizando espaço e conforto, outro valorizando desempenho e segurança, outro vendendo luxo e status, outro vendendo economia de combustível e manutenção fácil.

Mas todos com as mesmas informações técnicas, porém com ênfases diferentes, que embasavam e fundamentavam essas promessas.

O Diretor VP de Marketing e Comunicação da GM, Gilberto Barros, se surpreendeu positivamente, mas se preocupou com os custos de imprimir, distribuir tantos spec-sheets, treinar tantos vendedores, fazê-los entender o valor desse discurso taylormade pra cada possível comprador.

Mas se convenceu e valeu a pena, para o cliente e para mim. Aprendi muito.

E tive uma promoção, até um aumento de salário.