O jogo que foi uma final. Pelo menos pra mim

Fim dos anos 80, talvez?

O Romão era e talvez ainda seja uma figura impagável. Dono de uma rede de lojas populares de calçados, a então Romão Magazine. Acho que hoje se chama Romão Calçados ou Romão Esportes, se é que ainda existe lá na Zona Leste.

Romão era apaixonado por futebol, corinthiano roxo. Tinha um sítio, uma pequena fazenda, em Atibaia, perto de São Paulo. A maior atração do sítio era um campo de futebol, campo de futebol mesmo, medidas oficiais, arquibancada, vestiários, tudo.

Duas vezes por mês pelo menos o Romão organizava um jogo lá. Era um jogo de verdade, com juiz e bandeirinhas aspirantes ou aposentados da Federação Paulista de Futebol, contratados pelo Romão. Gravação do jogo pela equipe esportiva da TV Gazeta, com direito a narrador, repórter de campo, comentarista, replays em câmera lenta.

Romão tinha seu time, o time da casa, o “Futebol Society”. Também convocava dois times, com um critério corporativo que interessava aos seus negócios do varejo de calçados. Providenciava os uniformes para cada time. Por exemplo, jogos do tipo Advogados da OAB versus Médicos do Einstein e Sírio Libanês, atacadistas versus varejistas do setor de calçados, Contabilistas versus Auditores, Cabeleireiros versus Motoristas de Caminhão. Esses caras eram sempre reforçados pelo time-base, o time do Romão, o “Futebol Society”.

Uma tarde, o Ângelo Franzão, VP diretor de mídia da McCann, me convidou pra um desses jogos no Estádio do Romão. Puta esquema de mordomia, ônibus pra levar e trazer de volta, churrasco by Marcos Bassi ao fim do jogo, tudo primeira linha. Um dia livre, de pura diversão e lazer pra nós.

E um jogo fácil, praticamente ganho: nós, Publicitários, versus Artistas + Futebol Society.

Artistas? Logo imaginei uns intelectuais boêmios, escritores, autores, editores, teóricos e acadêmicos, músicos e cantores da noite paulistana, poetas mais chegados a um sarau e sessões de autógrafos, noitadas em tertúlias eruditas do que num jogo de bola.

E lá fomos nós dias depois.

Primeiro encontro com a realidade já no ônibus: nossos adversários eram artistas, sim, mas Artistas de Circo, de Teatro, Televisão. Malabaristas, contorcionistas, ginastas, trapezistas, o Homem Montanha, a Mulher Barbada. Todos jovens e com um excelente preparo atlético e habilidades físicas muito maiores que as nossas. Fazer o quê?

O time do Romão, recheado com esses artistas, era mais entrosado, tinha reforços, era mais competitivo e com mais chances de vencer. Apesar de roliço e lento, o Romão jogava bem, tinha habilidade de centroavante, sempre adiantado, e faro de goleador.

Em 20 minutos de jogo, nós, os Publicitários, já perdíamos de 2 x 0. Com dois gols do Romão, um deles depois de dominar a bola escancaradamente com a mão. Mas o bandeirinha claro que fez que não viu, afinal haveria um churrasco logo mais e outros jogos no futuro.

Logo percebemos que os barrigudinhos fora de forma éramos nós, os Publicitários, criados em escritórios fechados, reuniões intermináveis, viagens, viradas de noites e fins de semana regados a álcool e alimentados por pizzas frias de última hora.

Enquanto isso, o Homem Bala do circo arrematava mal um chute e perdia o gol no ataque.
Iniciávamos nosso mortal contra-ataque, mas lá estava, em frações de segundo, o mesmo Homem Bala na zaga, defendendo nossa pobre ofensiva.

Pensei em chamar gente que jogava muito, pra reforçar nosso time e evitar um desastre maior. O Jailson Almeida, também publicitário. O João Crisóstomo, então professor de vôlei, mas um craque de bola. Um crioulinho que vinha fazendo sucesso, um tal de Pelé, que havia feito muitas propagandas pra mim. Mas não dava tempo, seria tarde demais.

Eu jogava nas pontas, corria como um louco por causa das minhas pernas biônicas, mas chutava fraquinho também por deficiência das pernas. Eu jogava muito mal.

Aí surgiu um escanteio na esquerda, a favor do nosso time. Imediatamente peguei a bola pra bater, chamando pra mim a responsabilidade do cruzamento. Eu tinha que fazer algo naquele jogo, afinal ele estava sendo transmitido pela TV Gazeta.

A bandeirinha de escanteio, na convergência da linha de fundo com a linha a linha lateral, tinha um recuo de uns 4 metros fora do campo e depois era tudo um barranco só lá embaixo.

Dei uns passos pra trás de modo a ganhar distância pra fazer o cruzamento forte. Recuei demais e caí no barranco fora do campo, fora do ângulo de alcance da câmera, fora da minha vaidade, fora da minha presunção. E fora da possibilidade de bater o escanteio.

Talvez eu ainda tenha a fita com a gravação do jogo todo, inclusive essa minha cobrança ridícula e humilhante de escanteio. Tá na gravação mais ou menos assim a descrição do lance patético: “Atenção, lá vai Percival, prepara-se para bater o corner que poderá empatar o jogo! Percival recua, ganha distância, dá mais uns passos pra trás… recua mais… recua… (silêncio) …Cadê o Percival?”

Eu simplesmente caí barranco abaixo, sumi de cena, sumi do jogo, sumi do mapa.

Outro jogador do meu time foi lá, me resgatou do fundo do barranco e bateu o escanteio.
A queda no barranco machucou a minha alma e autoestima, mais do que meu corpo.

Mesmo tão perna de pau, antes eu já havia dado um passe na medida pra um companheiro, cujo nome não me lembro, marcar nosso gol: 2 x 1.

Foi o placar final e o último jogo da minha vida. Com um belo churrasco depois.