A bordo do futuro

Este Causo foi ainda escrito à máquina em 1987, mas já tinha insights do presente que vivemos hoje.

A tese começou a ser pensada no final de 1986. Foi a bordo de um iate gigantesco, durante uma festa, um tour noturno pela baía da Ilha de Barbados, no Caribe.

Era uma Latin American & Caribbean Regional Meeting da McCann e eu era diretor de criação dessa região toda. Mais um desses eventos chatos que encerram o ano, fazem balanço, definem metas pro ano seguinte. Se desse tempo e o Jens Olesen, o presidente, deixasse, celebrava-se o fim do ano.

Imagino uns 150 participantes de todos os escritórios das McCanns da Região, mais os graúdos globais. Eu recém havia sido promovido a Diretor de Criação daquele pedaço de mundo, estava naturalmente iniciante e inseguro. Totalmente fora de lugar e contexto. E de saco cheio.

Lá pelas tantas do tour, me refugiei na popa do iate com uma garrafa de uísque, já que não havia cachaça e o rum não era lá essas coisas. Logo chegou o Barry Day, Global Chief-Creative-Officer, segundo homem na organização mundial.

O Barry havia sido um dos gosht-writers da Margareth Thatcher desde que ela havia iniciado sua carreira política como vereadora. Barry era um mito intelectual, respeitado e temido.

Barry e eu começamos uma análise crítica sobre a profissão de publicitário naquela época, reflexões sobre o futuro do nosso negócio em meio a tantas mudanças, que começavam a se acelerar já desde aquela época.

Virou um brainstorming no formato ping-pong etílico.

Barry chutava uma hipótese (What if…), eu tinha que criar outra a partir dela (Sim, mas e se…).

Depois eu arriscava uma previsão de futuro, Barry a levava ao extremo e acrescentava sua outra visão de futuro.

Assim varamos aquela noite no iate, nós todos: Barry, eu e mais garrafas de uísque.

No começo do ano seguinte (1987) Barry me mandou o rascunho de um texto, recapitulando nossa conversa no iate.

Mandou pelo malote internacional, porque era assim que se trocava correspondência naqueles tempos.

Eu reescrevi, relembrei mais comentários que tínhamos feito no porre do iate, acrescentei novas ideias, tropicalizei algumas delas no contexto latinoamericano.

Meses depois, Barry publicou um artigo numa revista inglesa, com o resultado da nossa conversa a bordo e me mandou. Dividiu os créditos comigo e com o uísque.

Eu traduzi, dei uns toques, enxertei uma visão mais brasileira e transformei em uma palestra que fiz pela América Latina, no meu Advanced Portuñol. Talvez esse venha a ser um próximo Causo.

Acertamos em muita coisa do futuro da profissão. Acertamos principalmente sobre a Comunicação Integrada (que hoje se chama pomposamente de 360 Graus), acertamos no Story-telling, acertamos no Branding, acertamos no fim das agências e dos publicitários como os conhecíamos, acertamos na compra e concentração de agências com personalidade, cultura e talentos próprios que se perderam nessas aquisições.

Erramos na mosca em várias outras previsões. Mas valeu o execício.