O jogo que foi uma final. Pelo menos pra mim

Fim dos anos 80, talvez?

O Romão era e talvez ainda seja uma figura impagável. Dono de uma rede de lojas populares de calçados, a então Romão Magazine. Acho que hoje se chama Romão Calçados ou Romão Esportes, se é que ainda existe lá na Zona Leste.

Romão era apaixonado por futebol, corinthiano roxo. Tinha um sítio, uma pequena fazenda, em Atibaia, perto de São Paulo. A maior atração do sítio era um campo de futebol, campo de futebol mesmo, medidas oficiais, arquibancada, vestiários, tudo.

Duas vezes por mês pelo menos o Romão organizava um jogo lá. Era um jogo de verdade, com juiz e bandeirinhas aspirantes ou aposentados da Federação Paulista de Futebol, contratados pelo Romão. Gravação do jogo pela equipe esportiva da TV Gazeta, com direito a narrador, repórter de campo, comentarista, replays em câmera lenta.

Romão tinha seu time, o time da casa, o “Futebol Society”. Também convocava dois times, com um critério corporativo que interessava aos seus negócios do varejo de calçados. Providenciava os uniformes para cada time. Por exemplo, jogos do tipo Advogados da OAB versus Médicos do Einstein e Sírio Libanês, atacadistas versus varejistas do setor de calçados, Contabilistas versus Auditores, Cabeleireiros versus Motoristas de Caminhão. Esses caras eram sempre reforçados pelo time-base, o time do Romão, o “Futebol Society”.

Uma tarde, o Ângelo Franzão, VP diretor de mídia da McCann, me convidou pra um desses jogos no Estádio do Romão. Puta esquema de mordomia, ônibus pra levar e trazer de volta, churrasco by Marcos Bassi ao fim do jogo, tudo primeira linha. Um dia livre, de pura diversão e lazer pra nós.

E um jogo fácil, praticamente ganho: nós, Publicitários, versus Artistas + Futebol Society.

Artistas? Logo imaginei uns intelectuais boêmios, escritores, autores, editores, teóricos e acadêmicos, músicos e cantores da noite paulistana, poetas mais chegados a um sarau e sessões de autógrafos, noitadas em tertúlias eruditas do que num jogo de bola.

E lá fomos nós dias depois.

Primeiro encontro com a realidade já no ônibus: nossos adversários eram artistas, sim, mas Artistas de Circo, de Teatro, Televisão. Malabaristas, contorcionistas, ginastas, trapezistas, o Homem Montanha, a Mulher Barbada. Todos jovens e com um excelente preparo atlético e habilidades físicas muito maiores que as nossas. Fazer o quê?

O time do Romão, recheado com esses artistas, era mais entrosado, tinha reforços, era mais competitivo e com mais chances de vencer. Apesar de roliço e lento, o Romão jogava bem, tinha habilidade de centroavante, sempre adiantado, e faro de goleador.

Em 20 minutos de jogo, nós, os Publicitários, já perdíamos de 2 x 0. Com dois gols do Romão, um deles depois de dominar a bola escancaradamente com a mão. Mas o bandeirinha claro que fez que não viu, afinal haveria um churrasco logo mais e outros jogos no futuro.

Logo percebemos que os barrigudinhos fora de forma éramos nós, os Publicitários, criados em escritórios fechados, reuniões intermináveis, viagens, viradas de noites e fins de semana regados a álcool e alimentados por pizzas frias de última hora.

Enquanto isso, o Homem Bala do circo arrematava mal um chute e perdia o gol no ataque.
Iniciávamos nosso mortal contra-ataque, mas lá estava, em frações de segundo, o mesmo Homem Bala na zaga, defendendo nossa pobre ofensiva.

Pensei em chamar gente que jogava muito, pra reforçar nosso time e evitar um desastre maior. O Jailson Almeida, também publicitário. O João Crisóstomo, então professor de vôlei, mas um craque de bola. Um crioulinho que vinha fazendo sucesso, um tal de Pelé, que havia feito muitas propagandas pra mim. Mas não dava tempo, seria tarde demais.

Eu jogava nas pontas, corria como um louco por causa das minhas pernas biônicas, mas chutava fraquinho também por deficiência das pernas. Eu jogava muito mal.

Aí surgiu um escanteio na esquerda, a favor do nosso time. Imediatamente peguei a bola pra bater, chamando pra mim a responsabilidade do cruzamento. Eu tinha que fazer algo naquele jogo, afinal ele estava sendo transmitido pela TV Gazeta.

A bandeirinha de escanteio, na convergência da linha de fundo com a linha a linha lateral, tinha um recuo de uns 4 metros fora do campo e depois era tudo um barranco só lá embaixo.

Dei uns passos pra trás de modo a ganhar distância pra fazer o cruzamento forte. Recuei demais e caí no barranco fora do campo, fora do ângulo de alcance da câmera, fora da minha vaidade, fora da minha presunção. E fora da possibilidade de bater o escanteio.

Talvez eu ainda tenha a fita com a gravação do jogo todo, inclusive essa minha cobrança ridícula e humilhante de escanteio. Tá na gravação mais ou menos assim a descrição do lance patético: “Atenção, lá vai Percival, prepara-se para bater o corner que poderá empatar o jogo! Percival recua, ganha distância, dá mais uns passos pra trás… recua mais… recua… (silêncio) …Cadê o Percival?”

Eu simplesmente caí barranco abaixo, sumi de cena, sumi do jogo, sumi do mapa.

Outro jogador do meu time foi lá, me resgatou do fundo do barranco e bateu o escanteio.
A queda no barranco machucou a minha alma e autoestima, mais do que meu corpo.

Mesmo tão perna de pau, antes eu já havia dado um passe na medida pra um companheiro, cujo nome não me lembro, marcar nosso gol: 2 x 1.

Foi o placar final e o último jogo da minha vida. Com um belo churrasco depois.

Guiado por mim, dirigido por Deus

Tive uma fissura no tornozelo direito num jogo de vôlei do Torneio da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda). Aquele spray analgésico mágico e uma botinha de esparadrapo me mantiveram em quadra até o fim do jogo, que vencemos.

Tirando proveito da minha estatura mental (porque a estatura física não passa de privilegiados 1,70 metros) e senso de liderança, eu era o levantador, articulador, estrategista do vitorioso time da McCann. Isso foi em 1986.

Fiquei uma semana de molho, engessado, imobilizado, trabalhando em casa. Depois a McCann me contratou um motorista temporário, até que eu pudesse voltar a dirigir.

Toninho Valadão, esse é o nome dele. Gente boa, bom motorista, jovem ainda, mas já pai de dois moleques. Desempregado, agarrou-se ao emprego temporário, sempre com muita paciência me tendo no banco ao lado como copiloto.

“Acelera, Toninho, você perdeu a chance de passar o sinal! Passa pra outra faixa, a da esquerda,Toninho, não tá vendo que esta aqui anda menos? Você não deu seta pra mudar de faixa… Mantenha mais distância do carro da frente, Toninho!”

Sempre gostei de dirigir, sempre dirigi bem e com segurança, principalmente depois de cursos de pilotagem profissional, que fiz com dois craques, Ciro Caires e Expedito Marazzi. Eles eram pilotos de prova da GM e da Goodyear, me ensinaram tudo pra eu trabalhar melhor nos projetos pra esses clientes.

Eu tinha direito, pela McCann, a motorista particular, mas sempre recusei.

Sexta-feira chuvosa, fim de dia, tipo 19 horas, Avenida Brasil congestionada, Toninho ao volante e eu enchendo o saco dele com minhas interferências de pilotagem. Depois de meses trabalhando comigo, aquele seria o último dia do emprego temporário dele.

“Você tem direito a motorista pela agência, não tem?”, de repente o Toninho me perguntou assim do nada. “Tenho, mas não quero”, respondi. “Não quero, não preciso, não gosto de alguém dirigindo ao meu lado. Além do quê, é um gasto inútil pra agência, um desperdício.”

Toninho: “Dá uma olhada nesse ônibus aí à direita”. Trânsito parado, um ônibus lotado de gente se espremendo pra voltar pra casa, debaixo da chuva, janelas embaçadas.

“Então, é nesse ônibus que eu estarei, na segunda-feira, voltando assim pra casa, depois de ter passado o dia procurando emprego pra sustentar minha família, dar estudo pros meus filhos. E você estará no bem bom aqui deste carrão – podendo me ter como seu motorista, mas você não quer.”

Gulp! Me caiu uma ficha gigantesca, que me silenciou até chegarmos na minha casa. E olha que eu morava e moro longe, na Granja Vianna. Foi um longo e silencioso caminho.

Na segunda-feira cedo, chamei o RH e mandei contratar o Toninho como meu motorista: emprego permanente e estável, salário normal de mercado, CLT, carteira assinada, todos os direitos trabalhistas garantidos.

E seguimos assim durante muitos e muitos anos: eu dirigindo o carro e o Toninho ao lado, no banco do passageiro, aproveitando a vista.

Há poucos meses reencontrei o Toninho, agora como motorista da diretoria de um grande ex-cliente meu. Ele me contou que o filho mais velho, Leonardo, há um bom tempo vive na Alemanha onde é… diretor de arte numa grande agência de lá. E que o caçula, Vinicius, também é diretor de arte, mas ainda trabalha aqui no Brasil.

Me senti de alma lavada.

Receita com Creme de Leite Nestlé. E cachaça

Em meados dos anos 90 o então Diretorzão-Mor da área de Lácteos da Nestlé reclamou que a McCann-Erickson deveria ter mulheres no Atendimento e na Criação. Faltava aquele feeling, sensibilidade, aquele toque feminino culinário nos trabalhos, nas ideias.

Argumentei que tínhamos uma menina no Atendimento, a Fabi, além da Judy e da Gabi na equipe do Milton Cebola Mastrocessário, diretor de criação. Aliás, só o nome dele já era culinário em si: Cebola.

Argumentei também que, naquela época, os grandes chefs de cozinha eram homens, e algumas poucas mulheres. Não colou.

Só me restou inventar, no maior improviso, uma receita na hora, justo eu, o chefe da turma toda e muito envolvido, sempre, com a Nestlé e suas marcas.

Aqui vai a receita, abaixo. O cliente gostou do que ouviu, pediu pra eu mandar pra ele. Corri pra agência e escrevi a receita, antes que eu a esquecesse. Só acrescentei a cachaça.

A mulher dele preparou a receita em casa e foi um sucesso. Depois, ela foi publicada num livro internacional, com receitas de gente famosa, publicado por Márcio Moreira e a Dorinha, sua mulher.

Tente fazer em casa, vai dar certo.

Pré-Produção
1. 1 peça grande de filé mignon (cirurgicamente limpo, cortada em bifes altos, de mais ou menos uns 4 cm de altura)
2. 1 dose de cachaça mineira, da boa
3. 4 ou 5 cebolas de médias pra grandes
4. 1 maço de cheiro verde e salsinha
5. 1 dose da mesma cachaça
6. 500 gr de manteiga sem sal
7. 1 ou 2 latas de Creme de Leite Nestlé
8. 4 doses da mesma cachaça
9. sal, pimenta em grão, molho inglês, alcaparras a gosto
10. 1 dose da mesma cachaça
11. 1 panela ou frigideira de ferro, ferro mesmo, dessas do Interior
12. colher e garfo de pau, grandes
13. 1 forma grande de pirex, untada com manteiga e um fundinho de
Creme de Leite Nestlé
14. 1 dose da mesma cachaça
Produção
15. Esquente bem a panela de ferro, mas é pra ficar bem quente
mesmo, uns 10 minutos no fogo alto (ela tem que quase
encandecer de tão quente)
16. Derreta uma colher de sopa rasa da manteiga, não deixando
queimar, um ponto antes de escurecer
17. Tome um gole de cachaça
18. Refogue um punhado da cebola, cheiro verde, salsinha, grãos da
pimenta calabresa; acrescente molho inglês depois
19. Coloque 3 ou 4 bifes, de modo que eles não se amontoem, que haja
espaço entre eles; e que todos fiquem em contato chapado contra
a superfície quente do ferro da panela ou frigideira
20. NÃO MEXA NOS BIFES! Revirar e esfregar bife na frigideira é coisa
de mãe fritando coxão duro; deixe os bifes irem sangrando por si
só, espontaneamente
21. Tome outro gole de cachaça
22. Coloque sal a gosto nos bifes, a esta altura já suculentos; só então
vire os bifes, deixando pra cima o lado já tostado; NÃO MEXA,
DEIXE-OS SANGRAR EM PAZ!
23. Quando o sumo da carne tiver aflorado de vez, ponha umas pitadas
de sal e dê uma flambada com uma dose cachaça
24. Quando estiverem antes do ponto, coloque os bifes na forma de pirex já untada com manteiga e Creme de Leite Nestlé; deixe-os descansar
25. Descanse você também, tomando mais um gole de cachaça
26. Acrescente mais um pouco de manteiga na panela, que continuou
lá no fogo; terá se formado um caldo espesso, quase uma crosta
escura; deixe essa nova porção de manteiga se enturmar com o
caldo prévio e dourar
27. Refogue mais um pouco de cebola, cheiro verde, salsinha e grãos de pimenta calabresa, sempre acrescentando molho inglês no fim
28. Coloque 3 ou 4 novos bifes na panela ou frigideira
29. Repita o processo todo: frite os bifes de um lado, sem mexer neles, pomha pitadas de sal, vire os bifes, deixe-os sangrar, mais um pouco de sal, etc.
30. Dê mais uma flambada com cachaça, aproveite e tome mais uma dose
31. Acabaram os bifes, já estão todos na forma de pirex; a panela de
ferro está exausta e curtida com toda a fritura dos bifes, os sucos,
as flambadas sucessivas
32. Coloque na panela toda a manteiga, cebola, cheiro verde, salsinha
e molho inglês que restaram; refogue um pouco, não muito
33. Acrescente o Creme de Leite Nestlé aos poucos, na proporção
adequada à quantidade de bifes fritos; vá mexendo lentamente e
tomando uns goles de cachaça, pra dar ritmo
34. Coloque esse molho aveludado e perfumado sobre os bifes; deixe
esse creme envolver os bifes, infiltrar-se, permear todos os espaços
35. Comemore com um gole de cachaça
36. Coloque as alcaparras e leve ao forno previamente aquecido, pouco
tempo, apenas pra dar um susto, dar um chega-mais no cozimento
e na temperatura dos bifes

Pós-produção
37. Sirva com spaghetti fininho, tipo cabelinho-de-anjo, al-dente.
O legal é forrar o fundo de cada prato com o spaghetti, colocar os
bife e o molho por cima. Num prato ao lado, uma salada
verde e forte, de rúcula e/ou agrião, vai muito bem.
38. Dependendo do clima, do dia e da companhia, a bebida pode ser
um vinho tinto encorpado. Se preferir, uma cerveja gelada no
ponto (a expressão estupidamente gelada nasceu pra revelar o
grau de inteligência e conhecimento de quem pede cerveja assim).
39. Na dúvida entre o vinho e a cerveja, considere aquela cachaça, que
te acompanhou e inspirou esse tempo todo.

Alguém viu o peru do Altino?

Meu último post, semana passada, mencionava a história do peru do Altino.

Ela gerou muitas perguntas e pedidos pra eu contar esse Causo. Lá vai.

Difícil acreditar hoje em dia, mas já vivemos tempos de vacas gordas e perus gordos na nossa profissão.

Nós, diretores de grandes agências, no final do ano recebíamos ótimos mimos de fornecedores, veículos e até mesmo de clientes.

Nunca me esqueço de um queijo parmesão italiano, gigantesco, pesava algo como uns 10 quilos de pura delícia. Mesmo cheio de filhos em casa e amigos sobrevoando, o queijo durou meses.

Também inesquecível foi aquela mortadela italiana, igualmente gigantesca e deliciosa. Sem falar nas cestas de natal, uma fartura de produtos importados, coisas que nem eu, que viajava o mundo, havia experimentado.

O Diretor de Criação da McCann-Rio, homem de confiança da minha equipe, de repente recebeu um relógio Rolex de ouro caríssimo, de um fornecedor.

Saia justa. O fornecedor era parente de um grande cliente. Como recusar a oferta sem ofender?

Sugeri que ele entregasse o Rolex para o melhor funcionário do escritório, como exemplo de transparência e de meritocracia.

O Rolex foi entregue a um ex-office boy, que, pelo talento, empenho, esforço e performance, havia merecido ser promovido para o Departamento de Arte.

Cermônia de final de ano na agência, homenagens, discursos, emoções, o moleque recebeu o Rolex com lágrimas de gratidão e reconhecimento nos olhos.

Horas depois, o mesmo moleque, negro e magricela, derramou outras lágrimas, de indignação, ao ser preso na estação de trem pro subúrbio onde morava: a polícia pensou que um moleque daqueles só podia ter roubado o Rolex.

Hoje, presentes e mimos desse quilate não existem mais, pelo menos desse jeito. Tempos difíceis pra todo mundo. Tempos difíceis pra queijos e mortadelas importados, para paladares mal acostumados, pra relógios e presentinhos.

Hoje tem também “compliance”, transparência, conduta ética, pilares da justa e correta Governança Corporativa. Presentes desse porte podem ser confundidos com suborno, bola, bribe, quick-back, corrupção.

Há  uns 15 anos deixei de ser um diretor importante de uma das mais importantes agências do Brasil e do mundo, a McCann-Erickson, para ser um feliz consultor e assessor independente em Comunicação e Sustentabilidade. Não sou mais merecedor e perdi os privilégios do mercado, mimos, presentes, queijos e mortadelas ao final do ano.

Em contrapartida, agora no final de 2017, recebi de um cliente um e-mail geral e genérico a todos seus fornecedores, alertando que nenhum funcionário dele, cliente, estava autorizado a receber presentes ou brindes de fim de ano, de qualquer espécie ou valor. Nada pra ninguém, talvez apenas um beijo e um abraço, votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo. No máximo.

O e-mail sugeria que, ao invés do possível presente ou brinde, fizessemos uma doação para uma instituição social apoiada pelo cliente. Justo e honesto, sinal dos tempos.

Mas antes disso tudo, houve o peru do Altino.

Foi no começo dos anos 90, pelo que me lembro. Toda a Diretoria da McCann ganhou um imenso peru de um veículo. Foram uns 15 diretores e perus no total.

Modéstia à parte, o meu peru era o maior de todos. Mais parecia um filhote de avestruz.

Só que os perus foram entregues na agência na véspera das férias coletivas, último dia de trabalho do ano. Tínhamos combinado um happy-hour elástico, que começaria em um barzinho no fim do dia e terminaria ninguém sabia quando nem onde.

Cada um guardou seu peru no carro e fomos pro barzinho. Naquela tarde, o Altino estava sem carro e motorista: deixou o peru dele no carro de alguém.

No carro de quem? Se eu não me lembro, imagine se o Altino iria se lembrar depois da ronda pelos bares e casas de amigos, que fizemos até a madrugada.

O fato é que, no dia seguinte, a Yedda, eterna esposa e guardiã do Altino, perguntou pelo peru que ele havia dito ter ganho e que levaria pra casa.

Altino lembrava-se vagamente de ter deixado o peru no porta-malas do carro de alguém e não se lembrava de mais nada, nem de quem o havia levado pra casa.

Então começou a série de telefonemas: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Começou com a austera e comportada Yedda ligando pra um: “Alguém viu o peru do Altino?”

Depois, esse um ligava pra dois, esses dois ligavam pra três. Todos sempre com a mesma pergunta: “Alguém viu o peru do Altino?”

Isso tomou praticamente um dia inteiro e virou lenda na agência: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Finalmente descobrimos em qual carro estava o peru do Altino. E ele foi lá buscar, pra ter um gordo Feliz Natal.

Se alguém de vocês se lembrar no carro de quem estava o peru do Altino, por favor, me avise.

Cadeira vazia

Eu já havia tido três passagens pela agência McCann-Erickson, que insistia em me chamar de volta, sempre para uma posição superior à minha anterior.

Em 1988 eu havia saída da agência para ser sócio do Cláudio Meyer, diretor de cinema e fundador da Nova Films. Foi um período sexta-ferático: sabático, mas nem tanto.

Aprendi muito profissionalmente sobre cinema, vivi feliz e sem pressão, dei um tempo importante na minha vida pessoal.

E a McCann continuava insistindo, tentando me seduzir para voltar. Acabei voltando.

O Cláudio Meyer é um profissional de primeira linha, diretor premiadíssimo internacionalmente, além de ser uma pessoa maravilhosa, espiritualizado sem ser chato, um ser humano como poucos.

Mas todos nós, brasileiros, tínhamos um amigo em comum, um tal de Fernando Collor, que sentava na cadeira de presidente do Brasil. E ferrou com todos nós.

A Nova Films ficou um bom tempo sem trabalho e, quando entravam filmes para produzirmos, os orçamentos tinham que ser salto baixo. Ficou difícil, me endividei, tive que vender dois carros.

A última recorrente oferta da McCann, em 1991, chegou em boa hora. Mas eu decidi impor uma condição: aceitaria voltar para a agência, porém como Gerente Geral, além de Diretor Nacional e Latino-americano de Criação.

Eu queria comandar a agência inteira a partir do meu jeito, trabalho colaborativo, sem divisões esquemáticas entre os departamentos. E com o pensamento criativo inspirando tudo, o Atendimento, o Planejamento, a Mídia, a Criação final em si.

Abri mão apenas das áreas Administrativa e de Finanças, que nunca foram o meu forte, mas que se reportariam a mim. Mal sei cuidar da minha conta bancária.

Tudo acertado, tristeza e lágrimas no meu adeus à equipe da Nova Films, mas lá fui eu mais uma (e a última) vez para a McCann.

Assumi numa segunda-feira de agosto de 1991.

A agência fazia, toda segunda-feira pela manhã, um Staff Meeting, onde se reuniam todos os diretores de conta, de criação, de mídia, planejamento, administração e finanças. Uma reunião de duas horas, com uns 15 participantes.

Eram repassados os fatos da semana anterior, discutido e planejado o que iria acontecer no futuro imediato com cada conta, em cada área da agência.

Assim, todos compartilhavam entre si as demandas da agência de forma integrada, os erros e acertos, as necessidades e oportunidades de negócio, possíveis projetos colaborativos entre os clientes.

Eu não sabia, mas havia dois VPs que ambicionavam a Gerência Geral, então vacante até a minha chegada. Descobri que minha contratação contrariou os dois concorrentes ao mesmo cargo.

Entrei na sala para minha primeira reunião de Staff Meeting como Gerente Geral. As duas cabeceiras da mesa já estavam ocupadas por esses meus dois, digamos, concorrentes. Só me restava um lugar vago no meio da mesa.

Um dos VPs me perguntou se eu me incomodava por ele assumir a cabeceira da mesa e simplesmente iniciou a reunião, antes que eu respondesse.

Eu interrompi, me reapresentei a todos como o novo Gerente Geral e disse: “A cabeceira é onde eu me sento.” E me sentei na cadeira vaga, no centro da mesa.

Iniciei a reunião e meus últimos 14 anos na McCann, entre algum mal-estar e muitas alegrias dos presentes.

Tivemos ótimos resultados de negócio, que colocaram a McCann como a segunda maior agência do Brasil por longos anos, graças à gestão profissional integrada, conduzida pela Helena Quadrado, Ângelo Franzão, por mim e pela nossa tropa toda.

Pedi demissão em 2003, fiquei dois anos de quarentena remunerada, me preparei pra abrir a Setor 2 ½, o que de fato fiz em 2005.

Hoje quem escreve é Paulo Berti: Nada como uma espingarda pra resolver uma reunião. E depois perder a conta

O Paulo Berti, do Atendimento da McCann, mais conhecido como FOGUEIRA por seus cabelos ruivos, me lembrou do Causo abaixo, que ele próprio relata. Foi em meados dos anos 90.

Um belo causo é aquela estória que aconteceu quando fizemos uma apresentação de campanha para a Diretoria toda do novo cliente, lá na cidade deles.

Tínhamos conquistado a conta recentemente, numa concorrência acirrada. Fizemos uma apresentação forte em estratégia de gestão de Marca, rica em Criação e imbatível em Mídia.

Fomos vencedores quando o presidente da empresa era um e a diretoria era composta pelo patriarca, fundador da empresa, e seus filhos.

Quase um mês depois, voltamos pra cidade pra apresentar os filmes da campanha aprovada, já produzidos.

Alexandre Filizola e eu, Fogueira, do Atendimento, mais o projecionista Cazuza, chegamos antes, pra instalar e checar os jurássicos equipamentos da época, um U-MATIC NTSC. Tivemos que montar os equipamentos em uma sala e conectá-los ao aparelho de TV que estava ligado em outra sala, a sala oficial de reunião.

O problema era que o cabo não passava a imagem de uma sala para a outra. Começamos a tentar e testar outros jeitos de passar o filme na sala oficial de reunião.

Remontamos tudo, com outra TV conectada ao nosso U-MATIC NTSC, mas nada funcionava.  O Perci, a Helena Quadrado e o Ângelo Franzão, a Diretoria enfim, estavam pra chegar e fazer a apresentação dos filmes.

Depois de um bom tempo com todos na sala e nenhum sinal do U-Matic funcionar, começou um zumzumzum pela espera. Nesse momento de conversas paralelas, um dos diretores, filho do patriarca da empresa, se levantou e saiu.

Depois de uns 5 minutos ele voltou com uma espingarda de quase 1,50m de altura, colocou em cima da mesa e falou para todos ouvirem em alto e bom som: “Agora eu quero ver… esse negócio tem que funcionar.”

A maneira “persuasiva” que ele achou para o U-MATIC NTSC funcionar fez todos da companhia rirem. Menos eu! Não gosto de armas.

Meu pai nunca teve armas. Nem exército eu fiz. Aquilo para mim foi uma porrada no estômago e todos devem ter percebido minha surpresa e indignação. Até o medo deixei escapar!

Um dos homens de confiança da Família, mais velho e equilibrado que os filhos, percebeu tudo aquilo por que eu estava passando e falou uma frase para quebrar o gelo.

Com aquele sotaque interiorano carregado e com sua voz fina: “Para derrubar esse cara (eu) e uma agência como a McCann, só uma dessas espingardas mesmo…”

Todos riram, nervosos, mas o clima começou a voltar a ficar mais leve e o ar, respirável.

Nossa Diretoria chegou, mas ainda faltava a porra do U-MATIC NTSC funcionar!

Lembro da reação do Perci ao ver nossa aflição e a espingarda em cima da mesa de reunião.

Na hora ele sacou tudo e fez um comentário matador: “Tem muitos patos aqui na região? Vamos caçar patos, enquanto eles tentam fazer a projeção funcionar? Mas estão faltando mais espingardas pra todo mundo…”

Por milagre e vontade de algum anjo de guarda protetor dos U-MATICs e das Agências de Propaganda, tudo começou a funcionar e o filme passou na TV, logo depois da fala irônica do Perci.

Ufa! Era nossa deixa para o showzinho. Demos um pause no vídeo, relembramos rapidamente a estratégia da campanha e mandamos ver nos filmes. Foi um sucesso!

Todos aplaudiram já na primeira passada dos filmes. Os sorrisos de todos eram evidentes, ninguém fez cara de pôquer. Tínhamos certeza de ter feito um golaço, imediato e de longo prazo. O tema era, como dizia o Perci, “campanhável”.

A primeira fase da campanha era algo como: “Como se pede o produto tal” e explorava os diversos nomes por que a famosa Marca era carinhosamente chamada nas diversas regiões do Brasil. Foram usados dois aviões para rodar o Brasil e agilizar as filmagens.

Depois disso, uma segunda fase de campanha, explorando os belisquetes e tira-gostos: “O que se come pra acompanhar o produto tal”.

Depois, a intenção era estender a campanha para “Com quem se toma o produto tal”, “Em que lugar se toma o produto tal”.

Estava tudo ali muito claro e de um posicionamento perfeito, a maior parte das cenas já estava pronta. Tínhamos muito material filmado pelo Ugo Prata. Bastava editar.

Mas as coisas mudaram dentro da companhia mais uma vez e a campanha morreu ainda em sua primeira fase. Porque ela havia sido aprovada por outro presidente, que já não estava mais na empresa.

Foi uma pena, pra todos, principalmente para a McCann, que perdeu a conta em seguida por puras razões político-familiares. Sem espingarda dessa vez.

Uma pena, inclusive, para o John Dooner, Presidente Mundial da McCann, que veio ao Brasil e chegou a contratar um helicóptero para visitar a Matriz da empresa no interior. Viajamos (ele, Jens Olesen, Perci e eu) sob uma terrível tempestade.

Nos arriscamos nesse voo, porque John sabia do poder e do potencial da Marca vir a se tornar uma das forças globais no seu setor. Não se tornou. Com ou sem espingarda.”

AS HIENAS ESTÃO À SOLTA: TEMPORADA 3

Elas voltaram. Pra quem não leu as primeiras temporadas de “As Hienas estão à solta”, explico que Hienas são frases bizarras, capturadas no dia a dia da agência na relação interna e com seus parceiros.

Frases que, fora do contexto em que foram cometidas, parecem bobagens. Outras, são bobagens em si, por elas mesmas. Enfim, as Hienas todas são tolices que divertem.

Pelo retorno que recebi no Blog, muita gente gostou e se viu retratada nas TEMPORADAS 1 e 2 das Hienas (se alguém perdeu, vale a pena buscar no Blog).

Aqui começa a Terceira Temporada, que a Cris del Nero veio caçando no dia a dia da agência McCann-Erickson.

“O branco é uma cor clara.” (Cliente)

“Aquele ali é unha de vaca.” (Criação)

“Eu tenho certeza num monte de dúvidas.” (Cliente)

“Nossa, o anão que eu vi no aeroporto era enorme!” (Criação)

“Difícil é uma coisa difícil.” (Cliente)

“Não se preocupe, a gente não vai se perder! Nós vamos em camburão.” (Atendimento)

“Mãe não tem cabelo curto.” (Cliente)

“O médico delatou os meus olhos.” (Atendimento)

“Me passa o fotolito por e-mail?” (Cliente)

“A gente tá perdendo a oportunidade de ser inteligente pelos outros. A gente tá sendo burro por nós mesmos.” (Gerência)

“A vida privada aqui é algo que todo mundo tem em comum.” (Cliente)

“Segundo uma amiga minha, quando você está encalhada, o jeito é pedir ajuda a São Judas. Santo Antônio não tem muito critério.” (Produção)

“Esse foi o pico mais baixo do produto.” (Cliente)

“Eu tive dois marcadores terríveis no jogo de ontem: o chão e a bola.” (Criação)

“O presidente quer um cartão de natal com a foto da família imitando um mapa-mundi. São 2 filhas, sendo uma com marido e mais 3 filhos e outra com marido mais dois filhos. E são 3 filhos, sendo um com esposa e mais 2 filhos, 1 com esposa e 4 filhos e 1 só com a esposa, sem filhos.” (Cliente)

“Se a polícia perguntar pra família do G. Aronson se ele tem algum inimigo, eles vão ter que falar que ele é o inimigo nº 1 dos preços altos.” (Criação, na época do sequestro do Sr. G. Aronson)

“Dá pra botar o texto em caixas minúsculas?” (Cliente)

“Minha querida, aumenta o logo e diminui a saia.” (Criação)

“Ah, não sei… Eu impliquei com essa palavra “mas” aqui.” (Cliente)

“Você começa a apresentação assim: ladies and germanies.” (Criação)

“Essa é uma boa ideia. Podemos usá-la para varrer todas as praias do litoral paulista.” (Cliente)

“A sua filha já tomou a vacina tríceps?” (Criação)

“Só meia dúzia de um, dois, três conhece este produto.” (Cliente)

“No antigo Egito parece que o pessoal trabalhava 52 horas por dia.” (Criação)

“Esse menino, não. Por que ele não tem cara de anjo que toma xarope.” (Cliente)

“Vai logo criando o anúncio aí, enquanto eu faço o briefing, tá?” (Atendimento)

“Precisamos colocar a menstruação na boca das mulheres.” (Cliente)

“De dia fazia sol, mas já de noite …” (Criação)

“O outro filme gera mais impacto, porque é ruim. Não dá pra vocês mixarem um pouco o nosso filme para ficar tão ruim quanto o outro?” (Cliente)

“O cara melhorou. Agora ele é top de linha da UTI.” (Criação)

“Eu quero uma garantia por escrito, assinada pela agência, que no dia 26 de fevereiro não vai chover.” (Cliente)

Uma criança cria melhor que a gente

Eu não tirava férias há um bom tempo e consegui 10 dias em Porto Seguro, quando Porto Seguro era seguro. Foi na década de 80.

No aeroporto de Congonhas me senti aliviado. Tinha deixado atrás de mim um cansaço ancestral, algumas pendências encaminhadas para minha equipe resolver e uma série de roteiros de TV e cinema para o lançamento do Ronald McDonald & sua Turma no Brasil, já pré-aprovados pelo Cliente, prontos para entrarem em produção pela TVC.

De repente, depois de poucos dias de sol e praia com minha então mulher e duas filhas pequenas (Marina com 3 anos, Luciana com 2 anos), surge o Dodi ao telefone, também conhecido como Dorian Taterka, grande diretor de cinema.

A conta do McDonald’a era nossa, da McCann, mas o Dodi era quem deitava e rolava, interferindo na criação e produzindo brilhantemente as campanhas. Funcionava por default tácito, avalizado e sacramentado pelo então presidente do cliente, Greg Ryan.

E não é que o Dodi me ligou pra dizer que, pensando bem e todos juntos, ele e cliente, aqueles roteiros que eu havia deixado haviam sido reprovados posteriormente, na minha ausência?

Eu teria que voltar, ser re-brifado e criar novos roteiros pra introduzir a figura do Ronald McDonald & sua Turma no Brasil. Eu perderia meus poucos dias de férias.

Eu disse que queria ser re-brifado por telefone e/ou por fax, pra voltar a São Paulo e apresentar novas ideias em alguns dias. Nunca recebi novo briefing, mas fui criando.

A partir do bom senso meu e do ótimo senso das minhas filhas. Afinal, elas eram o verdadeiro público-alvo do Ronald McDonald & sua Turma.

Durante o dia, na praia, eu ia pensando em roteiros e anotando num caderno. Eram várias ideias debaixo daquele sol e daquelas caipirinhas. À noite, depois do jantar, eu contava para as minhas filhas, deitadinhas numa rede da varanda, cada uma das histórias que eu havia pensado na praia. Mas eu contava como se fossem histórias infantis mesmo, não como roteiros publicitários.

Depois eu colocava minhas filhas na cama, elas já quase dormindo, e eu começava a trabalhar nas histórias de que elas tinham mais gostado, jogando fora as histórias que elas não curtiram. Passei a transformar esses contos infantis em roteiros de publicidade.

Esse exercício resultou em muitas ideias ótimas, dentro da estratégia, no foco e, digamos, já pré-testadas com minhas filhas, coautoras.

Uma ideia foi exemplar, porque partiu da minha filha Marina, então com 3 anos. Era sobre o Papa-Búrguer, um ladrão de hambúrguer, personagem da Turma do Ronald McDonald. Um cara aparentemente do Mal, mas boa gente, ele só queria também comer um hambúrguer do McDonald’s. O Papa-Búrguer era louco por um hambúrguer do McDonald’s!

Minha história era assim: a turma ia fazer um pic-nic na Floresta Encantada do Ronald, o Papa-Búrguer se escondia nas árvores para roubar os hambúrgueres.

A Turma descobria, pegava e amarrava o Papa-Búrguer numa árvore, enquanto todos devoravam o pic-nic farto em fritas, milk-shakes e hambúrgueres.

A história que minha filha Mariana recriou era baseada no fato que o Papa-Búrguer era um coitado, excluído da turma. E que o Ronald McDonald era um cara legal, do Bem.

Então, todos convidavam o Papa-Búrguer a compartilhar o pic-nic, afinal as delícias do McDonald’s eram para todos. Reescrevi o roteiro.

Peguei um monomotor que voava 10 metros acima da copa das árvores da Mata Atlântica do litoral sudeste e cheguei a São Paulo no dia da reunião, em cima da hora.

Todos os roteiros foram aprovados, entraram em produção. Eu peguei o mesmo avião de volta, no mesmo dia, pra poder curtir meus últimos momentos de férias com a família em Porto Seguro.

Semanas depois, levei a Marina nas filmagens daquele filme que ela havia criado, o do pic-nic da turma com o Papa-Búrguer. Era um cenário majestoso, que o Dodi havia construído nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo.

Marina ficou em transe diante daquela Floresta Encantada do Ronald McDonald e, especialmente, quando viu o ator (Roney?) entrando em cena no papel de Ronald.

Eu peguei a Marina e seu transe no colo e perguntei: “Sabe o que é isso? É o seu filme, filha.” Ela respondeu: ”Não, pai, é o filme do Ronald McDonald, que é um cara muito legal.”

 

Amor aos pedaços

Madrugada quente de algum dia em agosto de 1962, no necrotério de Los Angeles.

Dois funcionários recebem um saco plástico preto, com um corpo já todo analisado pelos médicos legistas. Era uma perna pra cá, um braço pra lá, o ventre aberto e as vísceras à mostra. Um horror do quê sobrou de uma pessoa.

Um dos funcionários foi ver a etiqueta pendurada no dedão, unhas de cor vermelha, do pé esquerdo daquilo que um dia foi uma linda mulher: “MARILYN MONROE”.

Ele simplesmente comentou: “E dizer que, quando tudo isso estava junto e vivo, eu bati muita punheta por ela”.

Alguém se lembra o que era uma moviola?

Uma mesa gigantesca, na qual se montavam analogicamente e na unha os filmes que hoje são editados digital e rapidamente. A moviola era mecânica e lenta, manual mesmo, colando quadro a quadro de cada cena do filme (o chamado “copião”) com fita durex especial. Mudar algo era praticamente começar do zero, toda a montagem do comercial.

Fomos para a apresentação de um filme, Erazê Martinho e eu. Erazê, era o criador e redator do comercial, de quem já falei em um dos primeiros Causos do Blog. Eu era o diretor de criação, politicamente envolvido com o Cliente e profissionalmente interessado na aprovação.

Erazê era bem mais velho que eu, um humor sarcástico e cítrico, de quem era vereador em Jundiaí pelo recém-fundado PT, mas que, por ironia, tinha que trabalhar em propaganda pra sobreviver.

Antes de projetarmos os 30 segundos do filme, o Cliente interrompeu: “Não quero ver o filme todo, editado com trilha e locução. Quero que vocês me mostrem primeiro cena por cena, sem som, pra eu poder analisar os detalhes, conferir as imagens do meu produto. Depois a gente até pode ver o filme inteiro, a edição final completa.”

Fizemos isso a contragosto, porque não é assim, em partes, que se entende e se sente um filme. Inevitavelmente o Cliente começou a criticar uma cena, a gostar de outra, mas recusou o filme no todo, mandou refilmar tudo.

Erazê, assim do nada, perguntou ao Cliente: “O Sr. conhece a história do necrotério de Los Angeles, verídica, que aconteceu em 1962?” O Cliente se surpreendeu, não entendeu nada, uma pergunta fora de hora, fora de propósito.

Erazê ignorou e continuou, contando a história lá de cima, que abre este Causo.

E o Erazê arrematou: “Então, Sr. Cliente, foi isso que o senhor acabou de fazer com o nosso filme: uma necropsia, que telespectador de tv jamais fará. Vamos ver o filme na íntegra, vivo e com espírito leve?”.

Vimos e o Cliente aprovou. Mas depois quis analisar cena por cena na moviola.

Nos pareceu justo, pra um cliente cismado e que já havia aprovado, finalmente, o filme. Graças à genial sacada do Erazê.

A distância entre o nariz de um rapaz e o bumbum da garota

Mulher sofre com muita coisa na vida. Pega bem eu assumir isso aqui no Blog, é politicamente correto. Mas é verdade, tive muitas mulheres na vida real, principalmente 4 filhas (que ainda tenho).

Um exemplo típico das questões exclusivamente femininas: a insegurança de quando a mulher está menstruada. Será que vazou? Será que alguém sentiu algum odor inconveniente? Será que alguém notou?

Pra essa enxurrada de angústia existem os absorventes íntimos.

Danilo Martins e equipe, na McCann dos anos 90, criaram um belo roteiro: um pouco antes de começar uma sessão de cinema, uma garota se levanta e se apressa pra ir ao banheiro.

Ela deixa o pacotão de pipoca com o namorado e vai andando pela fileira do cinema, passando por cadeiras da plateia lotada de gente, principalmente rapazes.

A garota tem que ir andando de ladinho, de costas pros rapazes, quase esfregando o bumbum na cara deles.

Ela usa uma calça branca bem justa, pra realçar o drama da dúvida de alguma possível mancha, de algum possível odor, de alguma possível calamidade.

Tudo ia bem, roteiro aprovado. Até que começou a doideira da produção em si. O que deveria ser algo simples, acabou virando um festival sanguinolento.

Quem vê de fora agora, tempos depois, parece mesmo coisa de louco. Imagine nós que estávamos lá, vivendo cada gota dessa situação.

Primeira grande decisão durante o processo de produção: qual o tamanho do bumbum da garota?

“Não pode ser muito avantajado, porque mulher nenhuma quer se ver retratada como gorda e bunduda”, diz um cliente.

“Mas também não pode ser um bumbunzinho magricela, porque toda mulher gosta de se sentir gostosa, apalpável”, diz outro cliente.

Finalmente encontramos o bumbum ideal: jeitosinho e bonito, nem grande nem pequeno, apetitoso, mas sem volúpia.

Segunda decisão de produção: a que distância esse bumbum passa dos narizes dos rapazes na fileira do cinema?

“Tem que ser perto o suficiente, pra que haja a possibilidade de eles sentirem o odor da menstruação, o que aumenta a insegurança da mulher”, disse mais um cliente.

“Não, não. Não pode ser muito perto, porque fica muito sexy, provocante, baixo nível! Não faz parte do perfil da nossa Marca.”

Fomos a um cinema com fita métrica na mão.

Fizemos simulações de distâncias entre as poltronas de uma fileira do cinema com as poltronas da fileira da frente.

Um palmo e meio, talvez dois palmos, alguns centímetros a mais seriam convenientes do ponto de vista ético. Outros centímetros a menos seriam mais adequados pra vender a ação protetora do absorvente.

Experimentamos com várias moças e vários portes de bumbum naquele espaço entre fileiras e poltronas. Chegamos a alguma conclusão razoável, de qual não me lembro, porque não fazia a menor diferença pra ideia do filme.

Mas e a cor da menstruação no DEMO? Esta foi a terceira decisão importante de produção.

DEMO, pra quem não sabe, é o apelido íntimo de DEMONSTRAÇÃO, aquela parte supostamente científica e técnica nos filmes, em que se mostra a ação do produto – no caso, a absorção do fluxo menstrual.

Eu sempre acreditei que DEMO tinha a ver com DEMÔNIO, porque invariavelmente gerava uma discussão infernal, abstrata, cheia de achismos e absurdismos. E ocupava satanicamente um bom tempo na narrativa do filme.

Descobri que as mulheres menstruam em azul. Pelo menos no DEMO.

A agência recomendou a cor vermelha pra representar o fluxo absorvido pelo floc-gel. Seria uma quebra do padrão ancestral usado nos filmes desde quando minha avó menstruava.

“Vermelho pode ser mais real, mas é disgusting, muito literal, arghhh!”, disse um dos primeiros clientes.

“Azul é apenas simbólico. É mais nobre, digno e bonito, além de ser mais limpo e científico”, concluiu e decidiu.

Mas aí vem a última parte da decisão: como é esse azul da menstruação?

“Índigo? Não, muito jeans, se bem que isso conversa bem com o público jovem. Azul claro, bem tipo azul-calcinha? Não, melhor azul- violeta, como os olhos da Elizabeth Taylor. E a consistência, a densidade, a textura desse fluxo azul? Líquido e fluido ou cremoso? Ou metálico como mercúrio, uma licença mineral poética, porém científica?”.

E lá se foi o comercial ao ar, com nossa heroína menstruada, desfilando seu bumbum ideal e perfeito diante dos narizes dos rapazes a uma distância aceitável, em uma calça branca justa, porém decente.

Ninguém notou que ela menstruava em azul.