QUE DEUS ABENÇOE VOCÊS

Estamos nos anos 70. Tempos difíceis, ditadura, linha dura, conceitos reacionários se impondo à força, ideias novas surgindo no mundo e no Brasil.

Era uma vez Fulana e Beltrano que, um dia, descobriram que se amavam loucamente.

Loucamente mesmo. Porque ambos trabalhavam na mesma empresa, a McCann, que tinha um Gerente Geral durão, rígido e inflexível: dois funcionários da empresa não poderiam ser parentes, ter vínculos, muito menos matrimoniais.

Pra piorar a situação, o Beltrano era um projecionista recém-contratado, talentoso e de ótimo nível. Mas a Fulana era uma diretora de um grupo de grandes contas, figura superior hierarquicamente, respeitada e com muito tempo de casa. Não iria dar certo.

Um dia deu a louca no Beltrano, que, sem pedir audiência ou marcar hora, invadiu a sala do Gerente e explicou a situação, o amor dele pela Fulana, o amor da Fulana por ele. Coisas do desatino e do destino.

Beltrano pediu demissão, já que eles não poderiam oficializar a relação, não poderiam se casar e continuar a trabalhar na mesma empresa. Ele admitiu que, entre ele e a Fulana, ela era mais importante pra agência e ganhava bem mais, o suficiente para sustentar o novo casal.

Beltrano pediu as contas, virou-se pra sair da sala. Pronto, já tinha feito o que queria fazer, aliviado e apaixonado.

Surpreendentemente, a reação do Gerente foi tranquila.

Ele disse algo como: “Venha cá, meu filho. Você é um bom rapaz, faz direito o que faz, tem potencial pra ir muito além. Veja o Márcio Moreira, que também começou aqui como projecionista. Todo mundo transa com todo mundo aqui na agência. Eu sei, mas finjo que não vejo, por conveniência.”

Beltrano arregalou os olhos.

O Gerente concluiu: “Agora me vêm vocês, se declarando apaixonados de verdade e querendo se casar de papel passado e tudo mais? Como eu poderia colocar um de vocês – e seria você, claro – pra fora da agência? Então que se casem, continuem os dois a trabalhar na McCann e sejam felizes. Vocês têm minha bênção e cumplicidade. Vocês serão os primeiros a darem o exemplo correto. Quem sabe mais gente segue aqui dentro.”