Receita com Creme de Leite Nestlé. E cachaça

Em meados dos anos 90 o então Diretorzão-Mor da área de Lácteos da Nestlé reclamou que a McCann-Erickson deveria ter mulheres no Atendimento e na Criação. Faltava aquele feeling, sensibilidade, aquele toque feminino culinário nos trabalhos, nas ideias.

Argumentei que tínhamos uma menina no Atendimento, a Fabi, além da Judy e da Gabi na equipe do Milton Cebola Mastrocessário, diretor de criação. Aliás, só o nome dele já era culinário em si: Cebola.

Argumentei também que, naquela época, os grandes chefs de cozinha eram homens, e algumas poucas mulheres. Não colou.

Só me restou inventar, no maior improviso, uma receita na hora, justo eu, o chefe da turma toda e muito envolvido, sempre, com a Nestlé e suas marcas.

Aqui vai a receita, abaixo. O cliente gostou do que ouviu, pediu pra eu mandar pra ele. Corri pra agência e escrevi a receita, antes que eu a esquecesse. Só acrescentei a cachaça.

A mulher dele preparou a receita em casa e foi um sucesso. Depois, ela foi publicada num livro internacional, com receitas de gente famosa, publicado por Márcio Moreira e a Dorinha, sua mulher.

Tente fazer em casa, vai dar certo.

Pré-Produção
1. 1 peça grande de filé mignon (cirurgicamente limpo, cortada em bifes altos, de mais ou menos uns 4 cm de altura)
2. 1 dose de cachaça mineira, da boa
3. 4 ou 5 cebolas de médias pra grandes
4. 1 maço de cheiro verde e salsinha
5. 1 dose da mesma cachaça
6. 500 gr de manteiga sem sal
7. 1 ou 2 latas de Creme de Leite Nestlé
8. 4 doses da mesma cachaça
9. sal, pimenta em grão, molho inglês, alcaparras a gosto
10. 1 dose da mesma cachaça
11. 1 panela ou frigideira de ferro, ferro mesmo, dessas do Interior
12. colher e garfo de pau, grandes
13. 1 forma grande de pirex, untada com manteiga e um fundinho de
Creme de Leite Nestlé
14. 1 dose da mesma cachaça
Produção
15. Esquente bem a panela de ferro, mas é pra ficar bem quente
mesmo, uns 10 minutos no fogo alto (ela tem que quase
encandecer de tão quente)
16. Derreta uma colher de sopa rasa da manteiga, não deixando
queimar, um ponto antes de escurecer
17. Tome um gole de cachaça
18. Refogue um punhado da cebola, cheiro verde, salsinha, grãos da
pimenta calabresa; acrescente molho inglês depois
19. Coloque 3 ou 4 bifes, de modo que eles não se amontoem, que haja
espaço entre eles; e que todos fiquem em contato chapado contra
a superfície quente do ferro da panela ou frigideira
20. NÃO MEXA NOS BIFES! Revirar e esfregar bife na frigideira é coisa
de mãe fritando coxão duro; deixe os bifes irem sangrando por si
só, espontaneamente
21. Tome outro gole de cachaça
22. Coloque sal a gosto nos bifes, a esta altura já suculentos; só então
vire os bifes, deixando pra cima o lado já tostado; NÃO MEXA,
DEIXE-OS SANGRAR EM PAZ!
23. Quando o sumo da carne tiver aflorado de vez, ponha umas pitadas
de sal e dê uma flambada com uma dose cachaça
24. Quando estiverem antes do ponto, coloque os bifes na forma de pirex já untada com manteiga e Creme de Leite Nestlé; deixe-os descansar
25. Descanse você também, tomando mais um gole de cachaça
26. Acrescente mais um pouco de manteiga na panela, que continuou
lá no fogo; terá se formado um caldo espesso, quase uma crosta
escura; deixe essa nova porção de manteiga se enturmar com o
caldo prévio e dourar
27. Refogue mais um pouco de cebola, cheiro verde, salsinha e grãos de pimenta calabresa, sempre acrescentando molho inglês no fim
28. Coloque 3 ou 4 novos bifes na panela ou frigideira
29. Repita o processo todo: frite os bifes de um lado, sem mexer neles, pomha pitadas de sal, vire os bifes, deixe-os sangrar, mais um pouco de sal, etc.
30. Dê mais uma flambada com cachaça, aproveite e tome mais uma dose
31. Acabaram os bifes, já estão todos na forma de pirex; a panela de
ferro está exausta e curtida com toda a fritura dos bifes, os sucos,
as flambadas sucessivas
32. Coloque na panela toda a manteiga, cebola, cheiro verde, salsinha
e molho inglês que restaram; refogue um pouco, não muito
33. Acrescente o Creme de Leite Nestlé aos poucos, na proporção
adequada à quantidade de bifes fritos; vá mexendo lentamente e
tomando uns goles de cachaça, pra dar ritmo
34. Coloque esse molho aveludado e perfumado sobre os bifes; deixe
esse creme envolver os bifes, infiltrar-se, permear todos os espaços
35. Comemore com um gole de cachaça
36. Coloque as alcaparras e leve ao forno previamente aquecido, pouco
tempo, apenas pra dar um susto, dar um chega-mais no cozimento
e na temperatura dos bifes

Pós-produção
37. Sirva com spaghetti fininho, tipo cabelinho-de-anjo, al-dente.
O legal é forrar o fundo de cada prato com o spaghetti, colocar os
bife e o molho por cima. Num prato ao lado, uma salada
verde e forte, de rúcula e/ou agrião, vai muito bem.
38. Dependendo do clima, do dia e da companhia, a bebida pode ser
um vinho tinto encorpado. Se preferir, uma cerveja gelada no
ponto (a expressão estupidamente gelada nasceu pra revelar o
grau de inteligência e conhecimento de quem pede cerveja assim).
39. Na dúvida entre o vinho e a cerveja, considere aquela cachaça, que
te acompanhou e inspirou esse tempo todo.

Juntando o então improvável

Em 2003, Helena (Pesquisa e Planejamento), Ângelo (Mídia) e eu (Gerência Geral e Direção de Criação) já trabalhávamos juntos na mesma sala há anos. Dessa diferença de cabeças e competências nasciam estratégias, conceitos, ideias,  e ninguém sabia quem era o autor.

Primeiro mandato do Lula, lançamento do “Programa Fome Zero” e a Nestlé foi a primeira empresa a apoiar e a receber o selo certificador do Programa. Graças à campanha de comunicação “Nestlé e Você: Junta Brasil!”.

Era de um tudo: uma campanha de valor institucional pra Nestlé, um apoio político a um, então, promissor novo governo, a participação e engajamento populares em uma grande ação social, uma promoção, ativação e geração de vendas.

Uma criação coletiva nossa e de Milton Cebola Mastrocessário & Equipe, Cláudio Gekker & Equipe. E uma ativação através de uma promoção, implementada pela então Sight-Momentum, empresa do Grupo McCann na época, comandada pelo Júlio Anguita e Reginaldo Ferrante.

A mensagem central era todos os brasileiros nos unirmos pra zerar a fome no país. A promoção consistia em juntar 8 rótulos de produtos Nestlé pra concorrer a prêmios, o principal deles, uma casa por mês. Em paralelo, a promoção também gerava recursos financeiros pra alavancar, dar visibilidade e ajudar a crescer o “Programa Fome Zero”, fazer doações de alimentos.

Nós juntamos tudo mesmo, inclusive o inimaginável.

Num domingo, você estava assistindo ao Domingão do Faustão na Globo. O Faustão falava do Programa Fome Zero, da importância de todos os brasileiros se juntarem por essa causa e da promoção da Nestlé, “Junta, Brasil!”.

Outro telespectador estava assistindo no mesmo momento ao Programa do Gugu no SBT, o Domingo Legal. Ele falava do Programa Fome Zero, da importância de todos os brasileiros se juntarem por essa causa e da promoção da Nestlé, “Junta, Brasil!”.

De repente e simultaneamente, os dois apresentadores propunham-se a se juntarem e se convidavam para um ir ao programa do outro.

O Gugu aparecia, ao vivo e real-time, numa tela gigante no palco do Faustão. E o Faustão aparecia numa tela gigante no palco do Gugu, também ao vivo e real-time.

Ambos falavam e dialogavam, juntos, sobre o Programa Fome Zero, a importância de todos os brasileiros se juntarem por essa causa e a promoção da Nestlé. Um no programa do outro e o outro no programa do um, dando o exemplo. Ao vivo, de verdade, nos domingos de então competição acirrada de audiência entre Faustão/Globo e Gugu/SBT.

Imagine a mão de obra de egos, política, comercial, negocial e técnica pra gente viabilizar essa junção dos dois rivais na audiência das tarde de domingo e fazer um link ao vivo.

Teve mais. Um comercial institucional de lançamento, da Nestlé, com a Fernanda Montenegro, além de comerciais promocionais com Faustão e Gugu, juntos, mais comerciais de apoio com Gugu, Faustão, Hebe e Ana Maria Braga interagindo. Toda a campanha de comunicação foi dirigida pela Flávia Moraes, da Film Planet, em pacote.

Mais uma ação inédita: num mesmo dia da semana, Hebe Camargo visitou o programa da Ana Maria Braga pela manhã, e a Ana Maria visitou o programa da Hebe à noite – tudo ao vivo.

De novo pergunto: de quem foi a ideia? Do planejamento, da mídia, da criação, do atendimento?

Sei lá, não importa, ela foi nascendo do trabalho conjunto. O que posso assegurar é que a ideia começou na McCann e na Sight-Momentum, depois passou a ser da Nestlé e, por fim, a ideia caiu no colo dos telespectadores, consumidores e cidadãos.

Que são um só, juntos.

Como ele acertou?!

Briefing: nosso creme de leite ENVOLVE COMPLETAMENTE AS FRUTAS.

Solução criativa, de autoria do Paulo Almeida, um dos chefes de criação nos anos 80 da McCann-Erickson: uma série de comerciais, em animação, com várias frutas sendo acolhidas, aconchegadas, abraçadas e envolvidas pelo Creme de Leite Nestlé em diferentes situações.

O comercial que abria a campanha foi recusado pelo então gerente de produto, como se chamava na época.

Em animação, um pêssego subia uma escada de circo, chegava num trampolim lá em cima, vendava os olhos. Rufar de tambores, expectativa e suspense. De repente o pêssego saltava no ar, dava um salto triplo mortal e aterrissava exatamente na lata do creme de leite, de onde saía todo lambuzado e envolvido, para os aplausos da plateia.

Razão que o Cliente deu pra reprovar o comercial: “Como é possível um pêssego de olhos vendados acertar em cheio e cair bem na nossa lata de creme de leite?! Isso é totalmente inverossímil. Nada crível”.

Mil discussões, prós e contras, argumentações lógicas e racionais minhas e do Jorge Gurgel, diretor de contas, até que o Paulo Almeida falou candidamente: “E você acha verossímil, você acha crível um pêssego subir uma escada, vendar seus olhos e saltar? Isso é só propaganda e é em animação, uma fantasia.”

De repente entra na sala de reunião o sábio e experiente Diretorzão de Marketing.
O Gerente de Produto explicou o roteiro e a razão de ele ter reprovado: “O senhor não acha inverossímil?”

“Não”, respondeu o Diretor. “O pêssego é nosso e ele faz o que a gente mandar ele fazer. Está aprovado.”

Foi um sucesso, graças ao feito olímpico do pêssego e outros malabarismos de figos em calda, morangos.

Um pouco de imaginação e menos lato-senso não fazem mal a ninguém.