Cadeira vazia

Eu já havia tido três passagens pela agência McCann-Erickson, que insistia em me chamar de volta, sempre para uma posição superior à minha anterior.

Em 1988 eu havia saída da agência para ser sócio do Cláudio Meyer, diretor de cinema e fundador da Nova Films. Foi um período sexta-ferático: sabático, mas nem tanto.

Aprendi muito profissionalmente sobre cinema, vivi feliz e sem pressão, dei um tempo importante na minha vida pessoal.

E a McCann continuava insistindo, tentando me seduzir para voltar. Acabei voltando.

O Cláudio Meyer é um profissional de primeira linha, diretor premiadíssimo internacionalmente, além de ser uma pessoa maravilhosa, espiritualizado sem ser chato, um ser humano como poucos.

Mas todos nós, brasileiros, tínhamos um amigo em comum, um tal de Fernando Collor, que sentava na cadeira de presidente do Brasil. E ferrou com todos nós.

A Nova Films ficou um bom tempo sem trabalho e, quando entravam filmes para produzirmos, os orçamentos tinham que ser salto baixo. Ficou difícil, me endividei, tive que vender dois carros.

A última recorrente oferta da McCann, em 1991, chegou em boa hora. Mas eu decidi impor uma condição: aceitaria voltar para a agência, porém como Gerente Geral, além de Diretor Nacional e Latino-americano de Criação.

Eu queria comandar a agência inteira a partir do meu jeito, trabalho colaborativo, sem divisões esquemáticas entre os departamentos. E com o pensamento criativo inspirando tudo, o Atendimento, o Planejamento, a Mídia, a Criação final em si.

Abri mão apenas das áreas Administrativa e de Finanças, que nunca foram o meu forte, mas que se reportariam a mim. Mal sei cuidar da minha conta bancária.

Tudo acertado, tristeza e lágrimas no meu adeus à equipe da Nova Films, mas lá fui eu mais uma (e a última) vez para a McCann.

Assumi numa segunda-feira de agosto de 1991.

A agência fazia, toda segunda-feira pela manhã, um Staff Meeting, onde se reuniam todos os diretores de conta, de criação, de mídia, planejamento, administração e finanças. Uma reunião de duas horas, com uns 15 participantes.

Eram repassados os fatos da semana anterior, discutido e planejado o que iria acontecer no futuro imediato com cada conta, em cada área da agência.

Assim, todos compartilhavam entre si as demandas da agência de forma integrada, os erros e acertos, as necessidades e oportunidades de negócio, possíveis projetos colaborativos entre os clientes.

Eu não sabia, mas havia dois VPs que ambicionavam a Gerência Geral, então vacante até a minha chegada. Descobri que minha contratação contrariou os dois concorrentes ao mesmo cargo.

Entrei na sala para minha primeira reunião de Staff Meeting como Gerente Geral. As duas cabeceiras da mesa já estavam ocupadas por esses meus dois, digamos, concorrentes. Só me restava um lugar vago no meio da mesa.

Um dos VPs me perguntou se eu me incomodava por ele assumir a cabeceira da mesa e simplesmente iniciou a reunião, antes que eu respondesse.

Eu interrompi, me reapresentei a todos como o novo Gerente Geral e disse: “A cabeceira é onde eu me sento.” E me sentei na cadeira vaga, no centro da mesa.

Iniciei a reunião e meus últimos 14 anos na McCann, entre algum mal-estar e muitas alegrias dos presentes.

Tivemos ótimos resultados de negócio, que colocaram a McCann como a segunda maior agência do Brasil por longos anos, graças à gestão profissional integrada, conduzida pela Helena Quadrado, Ângelo Franzão, por mim e pela nossa tropa toda.

Pedi demissão em 2003, fiquei dois anos de quarentena remunerada, me preparei pra abrir a Setor 2 ½, o que de fato fiz em 2005.