A rotina em Cannes: cassino

Como já disse antes, ir ao Festival de Cannes era outra coisa pra mim, depois muitas participações minhas.

Encontrar amigos antigos, fazer uma turnê etílico-gastronômica nos arredores de Cannes, subindo pra Campagne ou ir até a Itália ali do lado, jogar vôlei na praia, em times mistos com garotas de top-less. E ir ao cassino da cidade uma noite ou outra.

O Festival em si, pra mim se resumia aos últimos dias, palestras realmente sérias e importantes, escutar grandes nomes da propaganda mundial, assistir aos os short-lists, poucos contatos, com profissionais que valiam a pena de fato.

Em fins dos anos 80, numa dessas noites no cassino, perdi mais uma vez os 500 dólares que sempre levava. É que eu sou um cara impulsivo-compulsivo em tudo em que me jogo. E me jogo de cabeça.

No caso de cassinos e jogatinas, se depender da minha insanidade, penhoro o relógio, o passaporte, as calças, a alma, só pra continuar apostando. Por isso, sempre levava apenas 500 dólares pra limitar minha tentação.

Naquela noite, depois de ficar mais pobre, comecei a perambular pelo cassino, fazendo o tempo e o uísque passarem até eu voltar pro Hotel Carlton.

Passando por uma das mesas de jogo, quem eu vejo? O sr. Adolpho Bloch, o todo poderoso dono do império Manchete, revista, tv, rádio. Coincidência: eu havia tido uma reunião com ele, Jaquito e equipe comercial, no Rio, semanas atrás, com o Altino Barros, o Jens Olesen, nossa diretoria de Mídia, pra fechar um pacote com a McCann-Erickson, negociações de alto nível e de alto valor.

O sr. Adolpho estava jogando, fiquei quietinho, de pé atrás dele.

Em uma rodada, ele faturou uma porrada de fichas, encheu o bolso. Eu bati nos ombros dele e cumprimentei: “Muito bem, sr. Adolpho, belo jogo!”

Sem se virar pra saber quem havia dito aquilo, o sr. Adolpho simplesmente respondeu:
“Cai fora. Brasileiro no exterior ou vem me pedir grana ou dá azar. O que dá no mesmo.” E continuou jogando.

Enfiei as mãos nos bolsos e saí de fininho, sem graça. Havia muitos outros brasileiros naquele cassino. Mas deu pra tomar um último uísque e, de longe, ver que o sr. Adolpho não ganhou as duas rodadas seguintes.

Ele tinha razão no seu comentário.

Guiado por mim, dirigido por Deus

Tive uma fissura no tornozelo direito num jogo de vôlei do Torneio da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda). Aquele spray analgésico mágico e uma botinha de esparadrapo me mantiveram em quadra até o fim do jogo, que vencemos.

Tirando proveito da minha estatura mental (porque a estatura física não passa de privilegiados 1,70 metros) e senso de liderança, eu era o levantador, articulador, estrategista do vitorioso time da McCann. Isso foi em 1986.

Fiquei uma semana de molho, engessado, imobilizado, trabalhando em casa. Depois a McCann me contratou um motorista temporário, até que eu pudesse voltar a dirigir.

Toninho Valadão, esse é o nome dele. Gente boa, bom motorista, jovem ainda, mas já pai de dois moleques. Desempregado, agarrou-se ao emprego temporário, sempre com muita paciência me tendo no banco ao lado como copiloto.

“Acelera, Toninho, você perdeu a chance de passar o sinal! Passa pra outra faixa, a da esquerda,Toninho, não tá vendo que esta aqui anda menos? Você não deu seta pra mudar de faixa… Mantenha mais distância do carro da frente, Toninho!”

Sempre gostei de dirigir, sempre dirigi bem e com segurança, principalmente depois de cursos de pilotagem profissional, que fiz com dois craques, Ciro Caires e Expedito Marazzi. Eles eram pilotos de prova da GM e da Goodyear, me ensinaram tudo pra eu trabalhar melhor nos projetos pra esses clientes.

Eu tinha direito, pela McCann, a motorista particular, mas sempre recusei.

Sexta-feira chuvosa, fim de dia, tipo 19 horas, Avenida Brasil congestionada, Toninho ao volante e eu enchendo o saco dele com minhas interferências de pilotagem. Depois de meses trabalhando comigo, aquele seria o último dia do emprego temporário dele.

“Você tem direito a motorista pela agência, não tem?”, de repente o Toninho me perguntou assim do nada. “Tenho, mas não quero”, respondi. “Não quero, não preciso, não gosto de alguém dirigindo ao meu lado. Além do quê, é um gasto inútil pra agência, um desperdício.”

Toninho: “Dá uma olhada nesse ônibus aí à direita”. Trânsito parado, um ônibus lotado de gente se espremendo pra voltar pra casa, debaixo da chuva, janelas embaçadas.

“Então, é nesse ônibus que eu estarei, na segunda-feira, voltando assim pra casa, depois de ter passado o dia procurando emprego pra sustentar minha família, dar estudo pros meus filhos. E você estará no bem bom aqui deste carrão – podendo me ter como seu motorista, mas você não quer.”

Gulp! Me caiu uma ficha gigantesca, que me silenciou até chegarmos na minha casa. E olha que eu morava e moro longe, na Granja Vianna. Foi um longo e silencioso caminho.

Na segunda-feira cedo, chamei o RH e mandei contratar o Toninho como meu motorista: emprego permanente e estável, salário normal de mercado, CLT, carteira assinada, todos os direitos trabalhistas garantidos.

E seguimos assim durante muitos e muitos anos: eu dirigindo o carro e o Toninho ao lado, no banco do passageiro, aproveitando a vista.

Há poucos meses reencontrei o Toninho, agora como motorista da diretoria de um grande ex-cliente meu. Ele me contou que o filho mais velho, Leonardo, há um bom tempo vive na Alemanha onde é… diretor de arte numa grande agência de lá. E que o caçula, Vinicius, também é diretor de arte, mas ainda trabalha aqui no Brasil.

Me senti de alma lavada.

Receita com Creme de Leite Nestlé. E cachaça

Em meados dos anos 90 o então Diretorzão-Mor da área de Lácteos da Nestlé reclamou que a McCann-Erickson deveria ter mulheres no Atendimento e na Criação. Faltava aquele feeling, sensibilidade, aquele toque feminino culinário nos trabalhos, nas ideias.

Argumentei que tínhamos uma menina no Atendimento, a Fabi, além da Judy e da Gabi na equipe do Milton Cebola Mastrocessário, diretor de criação. Aliás, só o nome dele já era culinário em si: Cebola.

Argumentei também que, naquela época, os grandes chefs de cozinha eram homens, e algumas poucas mulheres. Não colou.

Só me restou inventar, no maior improviso, uma receita na hora, justo eu, o chefe da turma toda e muito envolvido, sempre, com a Nestlé e suas marcas.

Aqui vai a receita, abaixo. O cliente gostou do que ouviu, pediu pra eu mandar pra ele. Corri pra agência e escrevi a receita, antes que eu a esquecesse. Só acrescentei a cachaça.

A mulher dele preparou a receita em casa e foi um sucesso. Depois, ela foi publicada num livro internacional, com receitas de gente famosa, publicado por Márcio Moreira e a Dorinha, sua mulher.

Tente fazer em casa, vai dar certo.

Pré-Produção
1. 1 peça grande de filé mignon (cirurgicamente limpo, cortada em bifes altos, de mais ou menos uns 4 cm de altura)
2. 1 dose de cachaça mineira, da boa
3. 4 ou 5 cebolas de médias pra grandes
4. 1 maço de cheiro verde e salsinha
5. 1 dose da mesma cachaça
6. 500 gr de manteiga sem sal
7. 1 ou 2 latas de Creme de Leite Nestlé
8. 4 doses da mesma cachaça
9. sal, pimenta em grão, molho inglês, alcaparras a gosto
10. 1 dose da mesma cachaça
11. 1 panela ou frigideira de ferro, ferro mesmo, dessas do Interior
12. colher e garfo de pau, grandes
13. 1 forma grande de pirex, untada com manteiga e um fundinho de
Creme de Leite Nestlé
14. 1 dose da mesma cachaça
Produção
15. Esquente bem a panela de ferro, mas é pra ficar bem quente
mesmo, uns 10 minutos no fogo alto (ela tem que quase
encandecer de tão quente)
16. Derreta uma colher de sopa rasa da manteiga, não deixando
queimar, um ponto antes de escurecer
17. Tome um gole de cachaça
18. Refogue um punhado da cebola, cheiro verde, salsinha, grãos da
pimenta calabresa; acrescente molho inglês depois
19. Coloque 3 ou 4 bifes, de modo que eles não se amontoem, que haja
espaço entre eles; e que todos fiquem em contato chapado contra
a superfície quente do ferro da panela ou frigideira
20. NÃO MEXA NOS BIFES! Revirar e esfregar bife na frigideira é coisa
de mãe fritando coxão duro; deixe os bifes irem sangrando por si
só, espontaneamente
21. Tome outro gole de cachaça
22. Coloque sal a gosto nos bifes, a esta altura já suculentos; só então
vire os bifes, deixando pra cima o lado já tostado; NÃO MEXA,
DEIXE-OS SANGRAR EM PAZ!
23. Quando o sumo da carne tiver aflorado de vez, ponha umas pitadas
de sal e dê uma flambada com uma dose cachaça
24. Quando estiverem antes do ponto, coloque os bifes na forma de pirex já untada com manteiga e Creme de Leite Nestlé; deixe-os descansar
25. Descanse você também, tomando mais um gole de cachaça
26. Acrescente mais um pouco de manteiga na panela, que continuou
lá no fogo; terá se formado um caldo espesso, quase uma crosta
escura; deixe essa nova porção de manteiga se enturmar com o
caldo prévio e dourar
27. Refogue mais um pouco de cebola, cheiro verde, salsinha e grãos de pimenta calabresa, sempre acrescentando molho inglês no fim
28. Coloque 3 ou 4 novos bifes na panela ou frigideira
29. Repita o processo todo: frite os bifes de um lado, sem mexer neles, pomha pitadas de sal, vire os bifes, deixe-os sangrar, mais um pouco de sal, etc.
30. Dê mais uma flambada com cachaça, aproveite e tome mais uma dose
31. Acabaram os bifes, já estão todos na forma de pirex; a panela de
ferro está exausta e curtida com toda a fritura dos bifes, os sucos,
as flambadas sucessivas
32. Coloque na panela toda a manteiga, cebola, cheiro verde, salsinha
e molho inglês que restaram; refogue um pouco, não muito
33. Acrescente o Creme de Leite Nestlé aos poucos, na proporção
adequada à quantidade de bifes fritos; vá mexendo lentamente e
tomando uns goles de cachaça, pra dar ritmo
34. Coloque esse molho aveludado e perfumado sobre os bifes; deixe
esse creme envolver os bifes, infiltrar-se, permear todos os espaços
35. Comemore com um gole de cachaça
36. Coloque as alcaparras e leve ao forno previamente aquecido, pouco
tempo, apenas pra dar um susto, dar um chega-mais no cozimento
e na temperatura dos bifes

Pós-produção
37. Sirva com spaghetti fininho, tipo cabelinho-de-anjo, al-dente.
O legal é forrar o fundo de cada prato com o spaghetti, colocar os
bife e o molho por cima. Num prato ao lado, uma salada
verde e forte, de rúcula e/ou agrião, vai muito bem.
38. Dependendo do clima, do dia e da companhia, a bebida pode ser
um vinho tinto encorpado. Se preferir, uma cerveja gelada no
ponto (a expressão estupidamente gelada nasceu pra revelar o
grau de inteligência e conhecimento de quem pede cerveja assim).
39. Na dúvida entre o vinho e a cerveja, considere aquela cachaça, que
te acompanhou e inspirou esse tempo todo.

Alguém viu o peru do Altino?

Meu último post, semana passada, mencionava a história do peru do Altino.

Ela gerou muitas perguntas e pedidos pra eu contar esse Causo. Lá vai.

Difícil acreditar hoje em dia, mas já vivemos tempos de vacas gordas e perus gordos na nossa profissão.

Nós, diretores de grandes agências, no final do ano recebíamos ótimos mimos de fornecedores, veículos e até mesmo de clientes.

Nunca me esqueço de um queijo parmesão italiano, gigantesco, pesava algo como uns 10 quilos de pura delícia. Mesmo cheio de filhos em casa e amigos sobrevoando, o queijo durou meses.

Também inesquecível foi aquela mortadela italiana, igualmente gigantesca e deliciosa. Sem falar nas cestas de natal, uma fartura de produtos importados, coisas que nem eu, que viajava o mundo, havia experimentado.

O Diretor de Criação da McCann-Rio, homem de confiança da minha equipe, de repente recebeu um relógio Rolex de ouro caríssimo, de um fornecedor.

Saia justa. O fornecedor era parente de um grande cliente. Como recusar a oferta sem ofender?

Sugeri que ele entregasse o Rolex para o melhor funcionário do escritório, como exemplo de transparência e de meritocracia.

O Rolex foi entregue a um ex-office boy, que, pelo talento, empenho, esforço e performance, havia merecido ser promovido para o Departamento de Arte.

Cermônia de final de ano na agência, homenagens, discursos, emoções, o moleque recebeu o Rolex com lágrimas de gratidão e reconhecimento nos olhos.

Horas depois, o mesmo moleque, negro e magricela, derramou outras lágrimas, de indignação, ao ser preso na estação de trem pro subúrbio onde morava: a polícia pensou que um moleque daqueles só podia ter roubado o Rolex.

Hoje, presentes e mimos desse quilate não existem mais, pelo menos desse jeito. Tempos difíceis pra todo mundo. Tempos difíceis pra queijos e mortadelas importados, para paladares mal acostumados, pra relógios e presentinhos.

Hoje tem também “compliance”, transparência, conduta ética, pilares da justa e correta Governança Corporativa. Presentes desse porte podem ser confundidos com suborno, bola, bribe, quick-back, corrupção.

Há  uns 15 anos deixei de ser um diretor importante de uma das mais importantes agências do Brasil e do mundo, a McCann-Erickson, para ser um feliz consultor e assessor independente em Comunicação e Sustentabilidade. Não sou mais merecedor e perdi os privilégios do mercado, mimos, presentes, queijos e mortadelas ao final do ano.

Em contrapartida, agora no final de 2017, recebi de um cliente um e-mail geral e genérico a todos seus fornecedores, alertando que nenhum funcionário dele, cliente, estava autorizado a receber presentes ou brindes de fim de ano, de qualquer espécie ou valor. Nada pra ninguém, talvez apenas um beijo e um abraço, votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo. No máximo.

O e-mail sugeria que, ao invés do possível presente ou brinde, fizessemos uma doação para uma instituição social apoiada pelo cliente. Justo e honesto, sinal dos tempos.

Mas antes disso tudo, houve o peru do Altino.

Foi no começo dos anos 90, pelo que me lembro. Toda a Diretoria da McCann ganhou um imenso peru de um veículo. Foram uns 15 diretores e perus no total.

Modéstia à parte, o meu peru era o maior de todos. Mais parecia um filhote de avestruz.

Só que os perus foram entregues na agência na véspera das férias coletivas, último dia de trabalho do ano. Tínhamos combinado um happy-hour elástico, que começaria em um barzinho no fim do dia e terminaria ninguém sabia quando nem onde.

Cada um guardou seu peru no carro e fomos pro barzinho. Naquela tarde, o Altino estava sem carro e motorista: deixou o peru dele no carro de alguém.

No carro de quem? Se eu não me lembro, imagine se o Altino iria se lembrar depois da ronda pelos bares e casas de amigos, que fizemos até a madrugada.

O fato é que, no dia seguinte, a Yedda, eterna esposa e guardiã do Altino, perguntou pelo peru que ele havia dito ter ganho e que levaria pra casa.

Altino lembrava-se vagamente de ter deixado o peru no porta-malas do carro de alguém e não se lembrava de mais nada, nem de quem o havia levado pra casa.

Então começou a série de telefonemas: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Começou com a austera e comportada Yedda ligando pra um: “Alguém viu o peru do Altino?”

Depois, esse um ligava pra dois, esses dois ligavam pra três. Todos sempre com a mesma pergunta: “Alguém viu o peru do Altino?”

Isso tomou praticamente um dia inteiro e virou lenda na agência: “Alguém viu o peru do Altino?”.

Finalmente descobrimos em qual carro estava o peru do Altino. E ele foi lá buscar, pra ter um gordo Feliz Natal.

Se alguém de vocês se lembrar no carro de quem estava o peru do Altino, por favor, me avise.

Desculpem, precisei me demorar

Pensei em escrever um Causo sobre o grande mestre, humano e profissional, falecido neste fim de semana: Altino João de Barros, aos 91 anos.

Me ensinou muito, me ajudou muito, assim como fez com gerações de publicitários e com a própria profissão, indo muito além do seu ofício original de Mídia.

Eu poderia falar sobre como o Altino me ensinou a preparar e saborear um legítimo Dry Martini, à la Humphrey Bogart em Casablanca.

Eu poderia contar o causo “Alguém viu o peru do Altino?”, que ficou famoso na McCann no início dos anos 90. Qualquer dia eu contarei a história toda.

Eu poderia dizer sobre como o Altino me acalmou e segurou minha onda durante reuniões em que eu quase perdi a cabeça e a conta.

Eu poderia ensinar vocês o que o Altino me ensinou: pode-se cochilar numa reunião chata, desde que você mantenha seu cérebro ligado, no modo avião.

O Altino me ensinou principalmente que Mídia não se faz, se cria. Ele criou na minha frente o top de 8 segundos da Rede Globo e tantas outras ideias, que depois acabaram virando Mídia naturalmente.

Eu poderia falar da nossa perplexidade, minha e de uma galera toda, reunidos diante da TV da minha sala de reuniões, vizinha à do Altino, na manhã do fatídico Onze de Setembro de 2001.

Um primeiro avião entrou em cheio em uma das Twin Towers. Altino entrou na sala, viu a cena na TV e sentenciou com toda a sua sabedoria: “Não foi acidente, foi um atentado. Outros virão na sequência.” E foi o que aconteceu logo em seguida.

Mas decidi contar um outro Causo, mais suave, no qual o Altino foi coadjuvante decisivo.

Eu cheguei no Monte Líbano às 19 horas em ponto, como combinado.

Grande evento! Lançamento de produto para os grandes atacadistas, varejistas, equipes de vendas, público interno do anunciante.

Apresentações grandiosas, falas sobre o negócio, marketing, venda e propaganda, discursos eloquentes. Com direito a show exclusivo de Roberto Carlos depois disso tudo!

Nos colocaram (Altino, Jens Olesen e eu) numa mesa bem diante do palco, na primeira fila. Fiquei com medo que o Roberto Carlos me jogasse uma rosa no final do show e ela manchasse meu único paletó.

Comigo, dividindo a mesa apertada, também o presidente e a diretoria do cliente, além dos rolas-grossas todos da McCann. Havia até o povo internacional, distantes diretores globais e regionais, uma festa de hierarquia.

Comida até que boa, pouca bebida e conversa que valesse a pena, ar condicionado que não dava conta daquela multidão em plena noite de verão.

Eu não queria estar ali. Prefiro sempre ficar com a família, em casa. Durante uns 25 anos da minha carreira, tive que viajar ao Exterior a trabalho em média 3 vezes por mês (sim, eu fiz as contas) e ficar fora de casa. Por isso, sempre que posso, evitei e evito eventos, festas, premiações, badalações.

Seguindo seu ritual, Roberto Carlos começou a atrasar o show, marcado pra começar às 21 horas, depois do jantar.

22 horas… 22:30 horas… 23 horas… e nada do Roberto Carlos. Apenas a banda dele tocando algumas músicas no palco, conversas, um clima misto de revolta, com expectativa e reverência ao Rei, a quem tudo se perdoa. E muito cansaço de todos.

Cochichei pro Altino que eu não estava aguentando aquilo, eu tinha chegado dos EUA naquela manhã e ainda não tinha conseguido ir pra casa. Altino deu a maior força: “Vai embora de fininho, sai à francesa. Eles estão aqui por causa do Roberto Carlos, não por sua causa.”

Pedi licença a todos pra eu ir ao banheiro e levantei-me da mesa.

Fui direto ao estacionamento, peguei meu carro e corri pra casa.

No dia seguinte, o presidente do cliente local me telefona: “Puxa vida, você foi embora, sumiu, não voltou. Perdeu um belo show, foi maravilhoso. O Roberto Carlos até cantou nosso jingle! O que aconteceu com você, Perci?”

Minha resposta: “Desculpe, mas eu tenho um péssimo hábito. Só faço cocô em casa (mentira). E eu moro longe (verdade).” Ficou tarde pra eu voltar.

Ainda bem que ele riu e tudo ficou por isso mesmo.

Cadeira vazia

Eu já havia tido três passagens pela agência McCann-Erickson, que insistia em me chamar de volta, sempre para uma posição superior à minha anterior.

Em 1988 eu havia saída da agência para ser sócio do Cláudio Meyer, diretor de cinema e fundador da Nova Films. Foi um período sexta-ferático: sabático, mas nem tanto.

Aprendi muito profissionalmente sobre cinema, vivi feliz e sem pressão, dei um tempo importante na minha vida pessoal.

E a McCann continuava insistindo, tentando me seduzir para voltar. Acabei voltando.

O Cláudio Meyer é um profissional de primeira linha, diretor premiadíssimo internacionalmente, além de ser uma pessoa maravilhosa, espiritualizado sem ser chato, um ser humano como poucos.

Mas todos nós, brasileiros, tínhamos um amigo em comum, um tal de Fernando Collor, que sentava na cadeira de presidente do Brasil. E ferrou com todos nós.

A Nova Films ficou um bom tempo sem trabalho e, quando entravam filmes para produzirmos, os orçamentos tinham que ser salto baixo. Ficou difícil, me endividei, tive que vender dois carros.

A última recorrente oferta da McCann, em 1991, chegou em boa hora. Mas eu decidi impor uma condição: aceitaria voltar para a agência, porém como Gerente Geral, além de Diretor Nacional e Latino-americano de Criação.

Eu queria comandar a agência inteira a partir do meu jeito, trabalho colaborativo, sem divisões esquemáticas entre os departamentos. E com o pensamento criativo inspirando tudo, o Atendimento, o Planejamento, a Mídia, a Criação final em si.

Abri mão apenas das áreas Administrativa e de Finanças, que nunca foram o meu forte, mas que se reportariam a mim. Mal sei cuidar da minha conta bancária.

Tudo acertado, tristeza e lágrimas no meu adeus à equipe da Nova Films, mas lá fui eu mais uma (e a última) vez para a McCann.

Assumi numa segunda-feira de agosto de 1991.

A agência fazia, toda segunda-feira pela manhã, um Staff Meeting, onde se reuniam todos os diretores de conta, de criação, de mídia, planejamento, administração e finanças. Uma reunião de duas horas, com uns 15 participantes.

Eram repassados os fatos da semana anterior, discutido e planejado o que iria acontecer no futuro imediato com cada conta, em cada área da agência.

Assim, todos compartilhavam entre si as demandas da agência de forma integrada, os erros e acertos, as necessidades e oportunidades de negócio, possíveis projetos colaborativos entre os clientes.

Eu não sabia, mas havia dois VPs que ambicionavam a Gerência Geral, então vacante até a minha chegada. Descobri que minha contratação contrariou os dois concorrentes ao mesmo cargo.

Entrei na sala para minha primeira reunião de Staff Meeting como Gerente Geral. As duas cabeceiras da mesa já estavam ocupadas por esses meus dois, digamos, concorrentes. Só me restava um lugar vago no meio da mesa.

Um dos VPs me perguntou se eu me incomodava por ele assumir a cabeceira da mesa e simplesmente iniciou a reunião, antes que eu respondesse.

Eu interrompi, me reapresentei a todos como o novo Gerente Geral e disse: “A cabeceira é onde eu me sento.” E me sentei na cadeira vaga, no centro da mesa.

Iniciei a reunião e meus últimos 14 anos na McCann, entre algum mal-estar e muitas alegrias dos presentes.

Tivemos ótimos resultados de negócio, que colocaram a McCann como a segunda maior agência do Brasil por longos anos, graças à gestão profissional integrada, conduzida pela Helena Quadrado, Ângelo Franzão, por mim e pela nossa tropa toda.

Pedi demissão em 2003, fiquei dois anos de quarentena remunerada, me preparei pra abrir a Setor 2 ½, o que de fato fiz em 2005.

A bordo do futuro

Este Causo foi ainda escrito à máquina em 1987, mas já tinha insights do presente que vivemos hoje.

A tese começou a ser pensada no final de 1986. Foi a bordo de um iate gigantesco, durante uma festa, um tour noturno pela baía da Ilha de Barbados, no Caribe.

Era uma Latin American & Caribbean Regional Meeting da McCann e eu era diretor de criação dessa região toda. Mais um desses eventos chatos que encerram o ano, fazem balanço, definem metas pro ano seguinte. Se desse tempo e o Jens Olesen, o presidente, deixasse, celebrava-se o fim do ano.

Imagino uns 150 participantes de todos os escritórios das McCanns da Região, mais os graúdos globais. Eu recém havia sido promovido a Diretor de Criação daquele pedaço de mundo, estava naturalmente iniciante e inseguro. Totalmente fora de lugar e contexto. E de saco cheio.

Lá pelas tantas do tour, me refugiei na popa do iate com uma garrafa de uísque, já que não havia cachaça e o rum não era lá essas coisas. Logo chegou o Barry Day, Global Chief-Creative-Officer, segundo homem na organização mundial.

O Barry havia sido um dos gosht-writers da Margareth Thatcher desde que ela havia iniciado sua carreira política como vereadora. Barry era um mito intelectual, respeitado e temido.

Barry e eu começamos uma análise crítica sobre a profissão de publicitário naquela época, reflexões sobre o futuro do nosso negócio em meio a tantas mudanças, que começavam a se acelerar já desde aquela época.

Virou um brainstorming no formato ping-pong etílico.

Barry chutava uma hipótese (What if…), eu tinha que criar outra a partir dela (Sim, mas e se…).

Depois eu arriscava uma previsão de futuro, Barry a levava ao extremo e acrescentava sua outra visão de futuro.

Assim varamos aquela noite no iate, nós todos: Barry, eu e mais garrafas de uísque.

No começo do ano seguinte (1987) Barry me mandou o rascunho de um texto, recapitulando nossa conversa no iate.

Mandou pelo malote internacional, porque era assim que se trocava correspondência naqueles tempos.

Eu reescrevi, relembrei mais comentários que tínhamos feito no porre do iate, acrescentei novas ideias, tropicalizei algumas delas no contexto latinoamericano.

Meses depois, Barry publicou um artigo numa revista inglesa, com o resultado da nossa conversa a bordo e me mandou. Dividiu os créditos comigo e com o uísque.

Eu traduzi, dei uns toques, enxertei uma visão mais brasileira e transformei em uma palestra que fiz pela América Latina, no meu Advanced Portuñol. Talvez esse venha a ser um próximo Causo.

Acertamos em muita coisa do futuro da profissão. Acertamos principalmente sobre a Comunicação Integrada (que hoje se chama pomposamente de 360 Graus), acertamos no Story-telling, acertamos no Branding, acertamos no fim das agências e dos publicitários como os conhecíamos, acertamos na compra e concentração de agências com personalidade, cultura e talentos próprios que se perderam nessas aquisições.

Erramos na mosca em várias outras previsões. Mas valeu o execício.

Uma criança cria melhor que a gente

Eu não tirava férias há um bom tempo e consegui 10 dias em Porto Seguro, quando Porto Seguro era seguro. Foi na década de 80.

No aeroporto de Congonhas me senti aliviado. Tinha deixado atrás de mim um cansaço ancestral, algumas pendências encaminhadas para minha equipe resolver e uma série de roteiros de TV e cinema para o lançamento do Ronald McDonald & sua Turma no Brasil, já pré-aprovados pelo Cliente, prontos para entrarem em produção pela TVC.

De repente, depois de poucos dias de sol e praia com minha então mulher e duas filhas pequenas (Marina com 3 anos, Luciana com 2 anos), surge o Dodi ao telefone, também conhecido como Dorian Taterka, grande diretor de cinema.

A conta do McDonald’a era nossa, da McCann, mas o Dodi era quem deitava e rolava, interferindo na criação e produzindo brilhantemente as campanhas. Funcionava por default tácito, avalizado e sacramentado pelo então presidente do cliente, Greg Ryan.

E não é que o Dodi me ligou pra dizer que, pensando bem e todos juntos, ele e cliente, aqueles roteiros que eu havia deixado haviam sido reprovados posteriormente, na minha ausência?

Eu teria que voltar, ser re-brifado e criar novos roteiros pra introduzir a figura do Ronald McDonald & sua Turma no Brasil. Eu perderia meus poucos dias de férias.

Eu disse que queria ser re-brifado por telefone e/ou por fax, pra voltar a São Paulo e apresentar novas ideias em alguns dias. Nunca recebi novo briefing, mas fui criando.

A partir do bom senso meu e do ótimo senso das minhas filhas. Afinal, elas eram o verdadeiro público-alvo do Ronald McDonald & sua Turma.

Durante o dia, na praia, eu ia pensando em roteiros e anotando num caderno. Eram várias ideias debaixo daquele sol e daquelas caipirinhas. À noite, depois do jantar, eu contava para as minhas filhas, deitadinhas numa rede da varanda, cada uma das histórias que eu havia pensado na praia. Mas eu contava como se fossem histórias infantis mesmo, não como roteiros publicitários.

Depois eu colocava minhas filhas na cama, elas já quase dormindo, e eu começava a trabalhar nas histórias de que elas tinham mais gostado, jogando fora as histórias que elas não curtiram. Passei a transformar esses contos infantis em roteiros de publicidade.

Esse exercício resultou em muitas ideias ótimas, dentro da estratégia, no foco e, digamos, já pré-testadas com minhas filhas, coautoras.

Uma ideia foi exemplar, porque partiu da minha filha Marina, então com 3 anos. Era sobre o Papa-Búrguer, um ladrão de hambúrguer, personagem da Turma do Ronald McDonald. Um cara aparentemente do Mal, mas boa gente, ele só queria também comer um hambúrguer do McDonald’s. O Papa-Búrguer era louco por um hambúrguer do McDonald’s!

Minha história era assim: a turma ia fazer um pic-nic na Floresta Encantada do Ronald, o Papa-Búrguer se escondia nas árvores para roubar os hambúrgueres.

A Turma descobria, pegava e amarrava o Papa-Búrguer numa árvore, enquanto todos devoravam o pic-nic farto em fritas, milk-shakes e hambúrgueres.

A história que minha filha Mariana recriou era baseada no fato que o Papa-Búrguer era um coitado, excluído da turma. E que o Ronald McDonald era um cara legal, do Bem.

Então, todos convidavam o Papa-Búrguer a compartilhar o pic-nic, afinal as delícias do McDonald’s eram para todos. Reescrevi o roteiro.

Peguei um monomotor que voava 10 metros acima da copa das árvores da Mata Atlântica do litoral sudeste e cheguei a São Paulo no dia da reunião, em cima da hora.

Todos os roteiros foram aprovados, entraram em produção. Eu peguei o mesmo avião de volta, no mesmo dia, pra poder curtir meus últimos momentos de férias com a família em Porto Seguro.

Semanas depois, levei a Marina nas filmagens daquele filme que ela havia criado, o do pic-nic da turma com o Papa-Búrguer. Era um cenário majestoso, que o Dodi havia construído nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo.

Marina ficou em transe diante daquela Floresta Encantada do Ronald McDonald e, especialmente, quando viu o ator (Roney?) entrando em cena no papel de Ronald.

Eu peguei a Marina e seu transe no colo e perguntei: “Sabe o que é isso? É o seu filme, filha.” Ela respondeu: ”Não, pai, é o filme do Ronald McDonald, que é um cara muito legal.”

 

Amor aos pedaços

Madrugada quente de algum dia em agosto de 1962, no necrotério de Los Angeles.

Dois funcionários recebem um saco plástico preto, com um corpo já todo analisado pelos médicos legistas. Era uma perna pra cá, um braço pra lá, o ventre aberto e as vísceras à mostra. Um horror do quê sobrou de uma pessoa.

Um dos funcionários foi ver a etiqueta pendurada no dedão, unhas de cor vermelha, do pé esquerdo daquilo que um dia foi uma linda mulher: “MARILYN MONROE”.

Ele simplesmente comentou: “E dizer que, quando tudo isso estava junto e vivo, eu bati muita punheta por ela”.

Alguém se lembra o que era uma moviola?

Uma mesa gigantesca, na qual se montavam analogicamente e na unha os filmes que hoje são editados digital e rapidamente. A moviola era mecânica e lenta, manual mesmo, colando quadro a quadro de cada cena do filme (o chamado “copião”) com fita durex especial. Mudar algo era praticamente começar do zero, toda a montagem do comercial.

Fomos para a apresentação de um filme, Erazê Martinho e eu. Erazê, era o criador e redator do comercial, de quem já falei em um dos primeiros Causos do Blog. Eu era o diretor de criação, politicamente envolvido com o Cliente e profissionalmente interessado na aprovação.

Erazê era bem mais velho que eu, um humor sarcástico e cítrico, de quem era vereador em Jundiaí pelo recém-fundado PT, mas que, por ironia, tinha que trabalhar em propaganda pra sobreviver.

Antes de projetarmos os 30 segundos do filme, o Cliente interrompeu: “Não quero ver o filme todo, editado com trilha e locução. Quero que vocês me mostrem primeiro cena por cena, sem som, pra eu poder analisar os detalhes, conferir as imagens do meu produto. Depois a gente até pode ver o filme inteiro, a edição final completa.”

Fizemos isso a contragosto, porque não é assim, em partes, que se entende e se sente um filme. Inevitavelmente o Cliente começou a criticar uma cena, a gostar de outra, mas recusou o filme no todo, mandou refilmar tudo.

Erazê, assim do nada, perguntou ao Cliente: “O Sr. conhece a história do necrotério de Los Angeles, verídica, que aconteceu em 1962?” O Cliente se surpreendeu, não entendeu nada, uma pergunta fora de hora, fora de propósito.

Erazê ignorou e continuou, contando a história lá de cima, que abre este Causo.

E o Erazê arrematou: “Então, Sr. Cliente, foi isso que o senhor acabou de fazer com o nosso filme: uma necropsia, que telespectador de tv jamais fará. Vamos ver o filme na íntegra, vivo e com espírito leve?”.

Vimos e o Cliente aprovou. Mas depois quis analisar cena por cena na moviola.

Nos pareceu justo, pra um cliente cismado e que já havia aprovado, finalmente, o filme. Graças à genial sacada do Erazê.