A distância entre o nariz de um rapaz e o bumbum da garota

Mulher sofre com muita coisa na vida. Pega bem eu assumir isso aqui no Blog, é politicamente correto. Mas é verdade, tive muitas mulheres na vida real, principalmente 4 filhas (que ainda tenho).

Um exemplo típico das questões exclusivamente femininas: a insegurança de quando a mulher está menstruada. Será que vazou? Será que alguém sentiu algum odor inconveniente? Será que alguém notou?

Pra essa enxurrada de angústia existem os absorventes íntimos.

Danilo Martins e equipe, na McCann dos anos 90, criaram um belo roteiro: um pouco antes de começar uma sessão de cinema, uma garota se levanta e se apressa pra ir ao banheiro.

Ela deixa o pacotão de pipoca com o namorado e vai andando pela fileira do cinema, passando por cadeiras da plateia lotada de gente, principalmente rapazes.

A garota tem que ir andando de ladinho, de costas pros rapazes, quase esfregando o bumbum na cara deles.

Ela usa uma calça branca bem justa, pra realçar o drama da dúvida de alguma possível mancha, de algum possível odor, de alguma possível calamidade.

Tudo ia bem, roteiro aprovado. Até que começou a doideira da produção em si. O que deveria ser algo simples, acabou virando um festival sanguinolento.

Quem vê de fora agora, tempos depois, parece mesmo coisa de louco. Imagine nós que estávamos lá, vivendo cada gota dessa situação.

Primeira grande decisão durante o processo de produção: qual o tamanho do bumbum da garota?

“Não pode ser muito avantajado, porque mulher nenhuma quer se ver retratada como gorda e bunduda”, diz um cliente.

“Mas também não pode ser um bumbunzinho magricela, porque toda mulher gosta de se sentir gostosa, apalpável”, diz outro cliente.

Finalmente encontramos o bumbum ideal: jeitosinho e bonito, nem grande nem pequeno, apetitoso, mas sem volúpia.

Segunda decisão de produção: a que distância esse bumbum passa dos narizes dos rapazes na fileira do cinema?

“Tem que ser perto o suficiente, pra que haja a possibilidade de eles sentirem o odor da menstruação, o que aumenta a insegurança da mulher”, disse mais um cliente.

“Não, não. Não pode ser muito perto, porque fica muito sexy, provocante, baixo nível! Não faz parte do perfil da nossa Marca.”

Fomos a um cinema com fita métrica na mão.

Fizemos simulações de distâncias entre as poltronas de uma fileira do cinema com as poltronas da fileira da frente.

Um palmo e meio, talvez dois palmos, alguns centímetros a mais seriam convenientes do ponto de vista ético. Outros centímetros a menos seriam mais adequados pra vender a ação protetora do absorvente.

Experimentamos com várias moças e vários portes de bumbum naquele espaço entre fileiras e poltronas. Chegamos a alguma conclusão razoável, de qual não me lembro, porque não fazia a menor diferença pra ideia do filme.

Mas e a cor da menstruação no DEMO? Esta foi a terceira decisão importante de produção.

DEMO, pra quem não sabe, é o apelido íntimo de DEMONSTRAÇÃO, aquela parte supostamente científica e técnica nos filmes, em que se mostra a ação do produto – no caso, a absorção do fluxo menstrual.

Eu sempre acreditei que DEMO tinha a ver com DEMÔNIO, porque invariavelmente gerava uma discussão infernal, abstrata, cheia de achismos e absurdismos. E ocupava satanicamente um bom tempo na narrativa do filme.

Descobri que as mulheres menstruam em azul. Pelo menos no DEMO.

A agência recomendou a cor vermelha pra representar o fluxo absorvido pelo floc-gel. Seria uma quebra do padrão ancestral usado nos filmes desde quando minha avó menstruava.

“Vermelho pode ser mais real, mas é disgusting, muito literal, arghhh!”, disse um dos primeiros clientes.

“Azul é apenas simbólico. É mais nobre, digno e bonito, além de ser mais limpo e científico”, concluiu e decidiu.

Mas aí vem a última parte da decisão: como é esse azul da menstruação?

“Índigo? Não, muito jeans, se bem que isso conversa bem com o público jovem. Azul claro, bem tipo azul-calcinha? Não, melhor azul- violeta, como os olhos da Elizabeth Taylor. E a consistência, a densidade, a textura desse fluxo azul? Líquido e fluido ou cremoso? Ou metálico como mercúrio, uma licença mineral poética, porém científica?”.

E lá se foi o comercial ao ar, com nossa heroína menstruada, desfilando seu bumbum ideal e perfeito diante dos narizes dos rapazes a uma distância aceitável, em uma calça branca justa, porém decente.

Ninguém notou que ela menstruava em azul.

Hoje quem escreve é Nilvia Centeno: Vamos ao que interessa?

A Nilvia Centeno sempre se achou.

Ela se achava produtora e depois diretora do Departamento de Rádio e Televisão.

Foi nestas funções que ela trabalhou na minha equipe, na McCann-Erickson, por um longo tempo de talento, determinação, eficiência e lealdade. E bom humor.

Não é à toa que sempre a chamei de “Centena”: porque eu acertei no Milhar.

Mas a Nilvia sempre foi – e ainda é – muito mais que uma produtora ou diretora de RTV. A Nilvia é uma viabilizadora do impossível, capaz de fazer acontecer o que ninguém imagina que possa acontecer.

Não só na produção de TV e rádio, mas no processo todo, na organização dos fatos e das pessoas, nas negociações, na responsabilidade pelo resultado final.

A Nilvia me lembrou de um Causo que aconteceu em meados dos anos 90 do século passado, que ela própria narra aqui, abaixo:

“Era um grande anunciante, uma grande marca, uma grande campanha, um grande orçamento, uma grande equipe de criação com Luiz Nogueira, Cristina del Nero e Gabi Guerra à frente, uma grande produtora, a O2, um grande diretor, o Paulinho Morelli.

A reunião de produção tinha que ser grande: um batalhão do cliente, um batalhão da agência, um batalhão da produtora. Por baixo, umas 30 pessoas. Eu, Nilvia, vinha comandando todo o processo há meses e coordenando aquele povo todo. O Perci era o responsável final por tudo, inclusive por mim.

Durou umas 10 horas, aquela reunião.

A campanha era sobre uma família-padrão (existe isso hoje em dia?) vivendo o dia-a-dia no seu lar, doce lar. E, assim como quem não quer nada, os produtos iriam sendo apresentados aqui e ali, cada um performando sua função, no seu canto da casa.

Horas pra definir o elenco. Todos pareciam querer gente igual a suas próprias famílias ou faziam escolhas muito pessoais, idiossincráticas, algumas até preconceituosas.

E o cenário da casa, comum a todos os filmes da campanha?

O cenário seria uma verdadeira obra de engenharia, arquitetura e decoração, nos seus mínimos detalhes técnicos e estéticos. Ele ficaria montado durante meses, seguindo a sequência de criação e produção de todos os filmes da campanha.

Uma gigantesca planta-baixa daquele lar, doce lar em cima da mesa de reunião, sobre a qual aquele pessoal todo se debruçava e discutia. Menos o Perci, que ficou afastado, longe da zorra, sentado, quieto, naquela poltrona dos filmes de Brastemp.

O produtora O2 fazia aqueles comercias antológicos de Brastemp e a tal poltrona acabou virando mobiliário da sala de reunião.

“Sei lá, acho que azulejos brancos transmitem, assim, digamos, um ar de mais limpeza”, dizia um. “Por mim, um azul clarinho, dá uma sensação de cloro, do poder desinfetante”, dizia outro. “Eu prefiro que os puxadores dos armários sejam de porcelana, mais chics”… “Mas puxadores de metal são mais up-scale, mais nobres e isso toca a ambição aspiracional das pessoas”… “A pia deve ser de pedra mesmo, não de alumínio, porque dá assim um caráter mais de casa normal, de família normal”… “Dá pra tirar essa parede? Vai ficar mais amplo”… “Mas a casa é de classe média, um sobradinho, não pode ser muito grande que afasta o público-alvo”… “Carpete ou tapetes na sala?” … “Deste lustre eu não gosto, muito cafona, retrô demais pra uma família moderna dos dias de hoje”… “Pra mim o lustre é vintage, pega bem…”…“E esta mesa de jantar, então? Muito grande, a família é pequena” … “E essa porta de vidro, que separa a cozinha da sala?! Vai fritar bife e a porta vai ficar toda embaçada. Melhor uma porta de madeira mesmo.”…“Mas aí a gente não vê a cozinha, que é uma das partes da casa que mais nos interessa…”

E assim se arrastou a reunião por horas, como se cada um estivesse escolhendo a casa onde gostaria de morar. Gente que tinha direito a escolhas e vetos, mas cujo poder de aprovação definitiva era nulo. No final, tudo teria que ser aprovado pelo chefão, o Diretorzão de Marketing.

Lá de longe, sempre na poltrona e quieto, de repente o Perci falou pela primeira vez em horas. Tranquilo e sábio, com aquele vozeirão: “Calma, gente. Isso é só Propaganda, nada além disso. Vamos discutir o que de fato interessa? Os roteiros, a interpretação cinematográfica e a visão de direção que o Paulinho Morelli vai dar a tudo isso?”

Aí, sim, começou a reunião de verdade. Em meia hora estava tudo semiaprovado e decidido.

Mas cadê o Perci? O Paulo Berti, diretor executivo de produção da 02, me respondeu: “Acho que o Perci foi embora. Aquele não é o carro dele, saindo pela lateral?” Era.

Há dias o Perci e a Criação já haviam acertado com o Paulinho Morelli todas as questões de cinema, decupagens, interpretação, condução da direção, etc.

No dia seguinte e com a presença do Perci, em meia hora o Diretorzão de Marketing ratificou nossas decisões e pediu apenas uma ou outra mudança.

Nem se falou nos puxadores dos armários.”